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Ana Cristina, a resiliente

Fui naquela exposição, mas não consegui olhar nada minha querida. Por que? Pelas pessoas muito perfeitinhas. Corte de cabelo quadrado, roupinhas, brinquinhos, xadrez, e aquela coisa toda. Gente que não tem problema. Como assim? Está surpresa?

Escolher sanduíche é problema? Perder a vaga no curso de alemão é problema? Sujar o vestido de bolinhas é problema?

Não pudia olhar para os quadros, nem para as telas, nem para aquele parangolê gigante feito de silício, por que para apreciar a arte e a burrice alheia filhinha, é preciso se despir de tudo. De tudo minha filha.

Da dor no pescoço. Da ordem de despejo. De dormir num colchão inflável sobre os tacos de madeira. Do processo de seis laudas. De não ter toalha para se enxugar.

Sobreviver sem analgésicos e alargadores filha, não é para amadores.

Segue Sônia e a Insônia.

Sônia, não, você não pode dançar assim.

Olha teu quadril que lascivo. não provoca assim. Assim é demais.

Sônia, para de ligar, para de mandar cartas, para de telefonar, para de dizer a ele o que ele tem de fazer.

Sônia. Para.

Olha teu vestido Sônia, olha teu umbigo, olha teu céu Sônia. Olha teu universo como ficou pequeno quando ele te guardou no bolso.

Sônia. Muda tua religião, coloca o remendo no fundo da meia. Tá na hora de aprender menina. Com vinte e quatro eu já sabia fuder psicólogos.

Olha. Não se abaixa. Não deixa ele te pisar. Não paga na mesma moeda. Só seja Sônia, Sônia. Veste tua roupa. Cadê tua coragem Sônia, cadê.

Deixa a insônia pra ele. Deixa.

Sônia. Deixa de ser idiota.

Deixa de ser sônia Sônia. Deixa de ser sônia sua songa-monga.

Você fode ele quando quiser.

Reunião

E o que era a vida naquela cidade miserável que chamavam maravilhosa? Fugir, beber, morrer?

(Ana Cristina: a niilista)

Acender o fogão sem se queimar tem segredo, escrever romance tem segredo, beber cerveja tem segredo, mas felicidade não; felicidade não tem segredo. Felicidade só tem fantasia, e fantasia que desbota logo com o sol.

(Ana Cristina: a niilista)

Para que acordar, se amanhã se repete a mesma coisa? O devir é devir para a natureza, para nós chama-se ócio, rotina, essa absoluta mesmice.

(Ana Cristina: a niilista in Do diálogo de Ana Cristina consigo mesma)

Gente fudida como eu e você não vem com teflon.

(Ana Cristina: a niilista)

Esse sentimentozinho miserável por enquanto eu só posso chamar de sentimentozinho miserável mesmo, pois eu só consigo enxergar, ainda não escrevi.

(Ana Cristina: a niilista in Do diálogo de Ana Cristina consigo mesma)

O estranhamento é pessoal, nasce nos pâncreas, mesmo que eu não saiba e não queira saber para que serve um pâncreas – além de doutorar doutores, sei que um pâncreas não serve para nada que me interesse. Mas a morte serve.

(Ana Cristina: a niilista in Esta cidade vai matar todos nós)

Niilista, pessimista, ridícula, horrível! De tudo escutei.

Poucos me deram tempo para explicar, mas mesmo assim, não entendiam, afinal horror não se explica.

(Ana Cristina: a niilista in Esta cidade vai matar todos nós)

Para escrever é preciso desastres.

Mas eu que só tenho repetições de coisas pequenas, que calculadas de maneira miúda se concretizam, não sirvo para escrever, só sirvo para existir, como um saleiro com arroz integral.

(Festinha na Gafieira – Rafael Vendeta Soto Mayor)

E era assim, quando a cabeça girava, as luzes cresciam, tudo ficava meio inaudível, e alguém no fundo de mim existia com aquela raiva sangrando nos dentes e eu costumava dizer bem alto para aquelas festas e pessoas melancólicas:

- Sou mais velha, estou morrendo mais depressa que você e não sou escritora!  Eu sou alcoólatra!

(Festinha na Gafieira – Rafael Vendeta Soto Mayor)

Viver é matar-se todos os dias, e isso não é ruim, pois tem dias que a gente mata aquela parte da gente que impede a felicidade de respirar.

(Rafael V. in Toda pausa é um chute nos córneos)

Há a cada dia um modo novo, um modo novo e terrível a se explorar, cujas explicações anteriores não cabem mais, tem de ser reinventadas na pia com a escova de dentes e a coisa toda não se explica, pois é difícil explicar aquele absurdo, é difícil salivar com aquele estranhamento invadindo todo o corpo.

(Rafael V. in Estranhamento de si próprio)

Este horror quando não se presta à violência ao mundo, constitui o inóspito estranhamento de si mesmo, promovendo uma agonia interna que justifica o desejo de abolir o estudo, a caminhada, o labor e que no final dos dias se emoldura em piores e terríveis insônias.

(Rafael V. in Estranhamento de si próprio)

Essa ansiedade é uma agressão.

(Rafael V. in 40/11/10)

Origami Emocional

Vou lhe mostrar como fazer um origami emocional meu amor.

Você acha que a questão é simples querida?

Acha que é só você pegar aquele pedaço de gente e amassar? Não meu amor! Não é só amassar!  Amassar por amassar é coisa de gente amadora, garota! Você deve dobrar. Deve dobrar pouquinho por pouquinho, pedacinho por pedacinho.

Ninguém desconfia de alguém que dobra né? A gente desconfia de gente que amassa. Gente que amassa conta de luz; gente que amassa guardanapo e joga no chão, gente que amassa aquele dinheiro de raiva! Dessa gente a gente desconfia, não meu amor? Pessoas mal educadas amassam as coisas todos os dias! Até carta de amor!

Nós não querida. Gente da nossa estirpe não amassa… A gente dobra! Vai dobrando pedacinho por pedacinho; filminho, teatrinho, sushizinho, piadinha-internazinha-grupinho-bacaninha; vai dobrando.

Mas não é dobrar por dobrar não gatona. Não vale dobrar sem objetivo. Toda dobra é calculada. Dois anos? Dois meses? Dois dias? Você escolhe. Polissemia, poligamia, polifagia… É tudo no plural!

Primeiro você faz um sapinho bonitinho. Quando acabar, que tal uma raposa? Se pode ser o leãozinho, o pavão e o urinol do Duschamps? Se vale? Claro po-de-ro-sa! Va-le tu-do! Leva ele na exposição dos medíocres. Convence que o instante é que é o eterno amor, e que o eterno, o eterno não existe, passou, passou como um instante.

Liberdade é ser como você querida, ter um belo e rosado coração de papel! De papel! Mas vale cartolina e até aquela coisa, como chamam? Papel-crepom!

Você tem estilo!

Pode desdobrar tudo quando terminar! Desdobra tudo, coloca a entranha dele pra fora. Embrulha ele com celofone!

Depois dobra  de novo. Dobra de novo.

E não esquece que o papel rasga, papel rasga mesmo meu amor. Pode ser na boate, na fila do caixa ou até com a mãe dele presente, papel RAS-GA. E nessa hora a gente tem de se prevenir!

E quando rasgar, você pega outro papel, pega outro papel e vai dobrando, vai dobrando minha filha; cuidado para não se dobrar junto com o origami.

Cuidado, por que aí filhinha, aí eu vou ser obrigada a dizer que você se meteu numa caretice daquelas meu amor e o édipo pode vir junto.

Esqueceu como é que dobra? Nossa meu amor! Nossa!

Tenho que te dizer; vai, é só uma desconfiança boba…

Mas eu que acho que te dobraram! E tem gente que dobra e engole!

Ana Cristina: a niilista. De quando desbota.

Já cansou de sofrer menina? Já desistiu de colocar aquela trilha sonora que as meninas branquinhas, modernosas e cheias de fita crepe colada na agenda usam para sofrer?

Olha garota, deixa eu te avisar uma coisa, tristeza não pega, mas miséria sim. Miséria pega horrores! Miséria se transmite assim, pelo hálito.

Gente, mas que sofrimento você tem! Mas que mundinho grande! E seu amor? Aplacou sua dor? Cadê aquela angústia menina? Cadê?

Guardou ela na boate ou foi em alguma fantasia cheia de prendas?

Olha menina, eu te aconselho continuar assim. Vai. Bebe, cheira, fuma, fode, faz o que teu coração doído mandar. Até vale se pós-graduar com mesada no Canadá! Vale tudo para ser sofrida menina! Tu-do.

Vale chorar e fumar. Vale sair com as amiguetes e os amiguinhos ríspidos. Mas que gente desajustada né? Gente inteligente que caga Almodóvar depois do café da manhã. Mas que gente média não meu amor? Ótimo não! Mundo injusto!

Cadê aquele traçado? Não deixa eles te oprimirem filha! Mas guarda no peito aquele colarzinho da mamãe. Neurastêmica? Hipocondríaca?

Mamãe é workaholic, Papai paga o francês?

Ai que vidinha. Não me amo, não te amo, não me amam. Vamos comer sushi?

Passeia pelo mundo, passeia. Vai Branca de Neve. Vai.

Coloca mais um tijolo naquele castelinho lindo de final de semana.

Mas não esqueça sua rebelde. Não se esqueça que a maquiagem desbota e pode ser que sobre papai e mamãe no final.

Esta cidade vai matar todos nós

E o que era a vida naquela cidade miserável que chavam maravilhosa? Fugir, beber, morrer?

Provincianismo maldito, que me fazia encontrar as mesmas pessoas, nas mesmas situações, esperando a cidade envelhecer e matar todos nós!

E onde estava Ana Cristina, talvez em um cabaré no interior do estado, onde a vida fluía sem as felicidades do haxixe, da carreira de pó, da cerveja de final de semana.

Maldita alegoria de cidade feliz, onde tínhamos que sair com os sorrisos esculpidos no rosto, aguardando a morte chegar num noticiário que poderia nos encontrar em um ônibus de final de semana, como manchete da próxima edição!

Justiça tinha o nome de fuzil. Liberdade era comprada em doze parcelas, mas podia ser esmagada num poste com quatro amigos simples e descartáveis de final de semana. A igualdade possuía quatro princípios fundamentais, mas só se conheciam um ou dois (dinheiro e cartão), por que tempo era fundamental para a reprodução da reprodução.

Mas esta era a vida média. E a vida média não pode ser vista como todas as vidas. É apenas uma parte entre dois extremos que ainda não arrebentou, mas vive pressionada. E a pressão estourava nos ombros dos incautos, infelizes incautos, como Ana Cristina, que costurava aquela sociedade nos dentes e as gengivas sangrando; mas esta sabia fugir, sabia correr, sabia andar e flanquear como um rato e por isto era feliz com sua miséria pessoal.

E podiam me encontrar margeando daquele mecanismo perfeito fingindo adaptação, mas quando sorriam e se matavam aos poucos, e me chamavam ao baile de máscaras eu sempre dizia que estava esperando morrer.

Niilista, pessimista, ridículo, horrível! De tudo escutei. Poucos me deram tempo para explicar, mas mesmo assim, não entendiam, afinal o horror não se explica.

O estranhamento é pessoal, nasce nos pâncreas, mesmo que eu não saiba e não queria saber para que serve um pâncreas – além de doutorar doutores, sei que um pâncreas não serve para nada que me interesse. Mas a morte serve.

A morte serve horrores; serve-os em bandejas. E o pessimista que me acusavam, ia para os arrabaldes daquela cidade, por que não era possível aceitar a morte quando todos ao meu redor fingiam vida. Era preciso se esconder ou fingir normalidade.

Viver naquele pesadelo era constranger-se cotidianamente. Um dia um cadáver num carrinho de supermercado, outra semana ocupação permanente com força policial: seiscentos homens armados, cerco militar clássico, execução rápida e limpa, nenhum ferido, dezenove mortos. Matavam os negros e comemoravam o fim da escravatura na Assembléia Municipal.

 E eu acabava na margem, esmigalhado na periferia pelo centro, eu caminhava até o centro, onde novas periferias surgiam, até que eu me tornava periférico a todos ao meu redor.

Não sabia andar como rato, não fazia como Ana Cristina cujo estranhamento era resolvido sem maquiagens e normalmente conseguia dizer aquela gente toda, que aquela cidade iria matar todos nós: e faria isto sorrindo, gentilmente.

Hotel São Francisco

Hotel São Francisco.

Que lugar imundo, odiava aquele lugar miserável.

Aquelas pessoaszinhas miseráveis cujo lixo na porta do prédio ninguém limpava.

Não tinha Coltrane por que não havia música. Havia um rádio relógio e cachorros na porta.

E em pleno centro da cidade, não era mais possível conviver com cães.

Despertavam humanidade nos cachorros de cinza, por isto a emenda 79 proibiu a circulação dos cães na rua.

No meu limite, eu pedia uma cerveja, ou doze cigarros, dependia do dia anterior, normalmente eu ficava na varanda fumando e olhando aquelas luzes medíocres; nem eram boas luzes. Mas eu olhava mesmo assim.

E quando diziam, assine seu nome aqui, eu saía do Hotel, nenhum hotel sério poderia me exigir isso com cachorros na porta, já tinha falado mais de uma vez: se desrespeita a emenda 79, me recuso a assinar. Mas no Hotel São Francisco isto não acontecia, o balconista se calava e dizia “tranquilo”, “pode subir”.

O que eu realmente odiava eram aqueles cães acompanhados de humanos que comiam lixo e me revoltavam. Mas o pior cenário era o daquela gente se flagelando, já bastava meu flagelo de existir.

E eu Ana Cristina, insensível, me odiava. Mas sempre guardava o ódio no lado esquerdo do peito. E era aí que eu queimava ou apedrejava um carro importado, para perdoar o imperdoável, apesar de saber que aqueles cães acompanhados de gente continuariam a me revoltar. E nunca fui pega.

Mas na maior parte eu ficava calada e me sentia medíocre, por que eu era medíocre e ainda não era crime ser medíocre naquele país tão cheio de cachorros e cachorras fantasiadas.

Aquela gente feliz que escutava jazz. E jazz é música de gente neurótica.

Chorar na terapia, sorrir no trabalho, cadê a vida de merda dessas pessoas, pelamordedeus?!

Até na merda tem de ser chic meu bem? Larga este cigarro e esta pose de cú enrugado. Tira a roupa de vinil menininha? Cú não tem acento? Tem? Tá bom, que se foda, o importante é que você tem de sentir que você não causa mais minha querida. Já foi, passou, tá velha, vai morrer logo, espera a maquiagem borrar, e borra rápido meu bem! Borra rápido, vai aproveitando o teatrinho dos merdas!

Quando eu me lembrava das festas que eu tive de ir, e que agora não mais, mas ainda faziam parte da minha memória, eu lembrava que aquilo tudo se retroalimentava. Adorava essa palavra retro-alimentava; só perdia para circuito recursivo. Esse termo, eu usava quando estava sóbria, ou queria agradar alguém.

O fato é que vestir fantasias retroalimentava a porra toda. Eu ia para uma festinha vestida de puta ou de princesa, dependida da ocasião. No final eu sempre mentia. E tinha que voltar fantasiada, por que a fantasia não saía. Não saía com a maquiagem. E porra, que festas de merda grande. Que festas de merda grande. Eram grandes pra caralho. Reconhecia-se todo mundo pela facilidade de andar, de fuder ou de escrever artigos de 70 laudas.

Quando eu saí desse mecanismo de merda, quando eu entendi que aquilo era um circuito recursivo, eu pensei que tinha achado o segredo da felicidade, mas não tem segredo porra nenhuma. Acender o fogão sem se queimar tem segredo, escrever romance tem segredo, beber cerveja tem segredo, mas felicidade, não, felicidade não tem segredo. Felicidade só tem fantasia, e fantasia que desbota logo com o sol.

Quando eu comecei a entender o mecanismo me senti iluminada. Foi um momento ruim. As festas se mudaram, e eu ao invés de correr atrás das festas, voltei a ir para o Hotel São Francisco. E cada vez iam menos pessoas naquelas festas, até que teve um dia que o porteiro falou:

- Ana Cristina não tem ninguém lá em cima. A festa foi cancelada. Não vão mais fazer. Parece que a chuva inundou a cidade e ninguém conseguiu chegar.

- Como ninguém porra. Eu cheguei! E molhada pra caralho.

- Pois é, mas não tem nem cerveja.

- Não importa, eu trouxe vodka, me deixa subir zé.

- Tá bom, sobe e desce quando a chuva baixar.

E não baixou. E o lixo boiou. E eu bebi vodka, olhei para as luzes, fumei cigarro, fiz tudo o que sempre fiz. E era como fazer a mesma coisa, só que com menos barulho e fedor. Aquela gente não me fez falta, como os cães da emenda 79. Tanto fazia.

Continuei voltando, o porteiro sempre me recebia. Eu pagava a entrada como de costume e como de costume ele dizia: “tranquilo”.

E aquelas pessoaszinhas miseráveis cuja sujeira na porta do prédio ninguém limpava, foram para outro lugar, rodear as luzes, borrar maquiagens, beber vodka, fumar cigaro, olhar as luzes e me deixa subir zé, me deixa subir que na emenda 80, eles falaram é que vão proibir a circulação das pessoas e deixar os cães soltos na rua.

Hotel São Francisco.

Que lugar imundo, odiava aquele lugar miserável.

Aquelas pessoaszinhas miseráveis cujo lixo na porta do prédio ninguém limpava.

Não tinha Coltrane por que não havia música. Havia um rádio relógio e cachorros na porta.

E em pleno centro da cidade, não era mais possível conviver com cães.

Despertavam humanidade nos cachorros de cinza, por isto a emenda 79 proibiu a circulação dos cães na rua.

No meu limite, eu pedia uma cerveja, ou doze cigarros, dependia do dia anterior, normalmente eu ficava na varanda fumando e olhando aquelas luzes medíocres; nem eram boas luzes. Mas eu olhava mesmo assim.

E quando diziam, assine seu nome aqui, eu saía do Hotel, nenhum hotel sério poderia me exigir isso com cachorros na porta, já tinha falado mais de uma vez: se desrespeita a emenda 79, me recuso a assinar. O balconista calava-se ou dizia “tranquilo”, pode subir.

O que eu realmente odiava eram aqueles cães acompanhados de humanos que comiam lixo e me revoltavam. Mas o pior cenário era o daquela gente se flagelando, já bastava meu flagelo de existir.

E eu Ana Cristina, insensível, me odiava. Mas sempre guardava o ódio no lado esquerdo do peito. E era aí que eu queimava ou apedrejava um carro importado, para perdoar o imperdoável, apesar de saber que aqueles cães acompanhados de gente continuariam a me revoltar. E nunca fui pega.

Mas na maior parte eu ficava calada e me sentia medíocre, por que eu era medíocre e ainda não era crime ser medíocre naquele país tão cheio de cachorros e cachorras fantasiadas.

Aquela gente feliz que escutava jazz. E jazz é música de gente neurótica.

Chorar na terapia, sorrir no trabalho, cadê a vida de merda dessas pessoas, pelamordedeus?!

Até na merda tem de ser chic meu bem? Larga este cigarro e esta pose de cú enrugado. Tira a roupa de vinil menininha? Cú não tem acento? Tem? Tá bom, que se foda, o importante é que você tem de sentir que você não causa mais minha querida. Já foi, passou, tá velha, vai morrer logo, espera a maquiagem borrar, e borra rápido meu bem! Borra rápido, vai aproveitando o teatrinho dos merdas!

Quando eu me lembrava das festas que eu tive de ir, e que agora não mais, mas ainda faziam parte da minha memória, eu lembrava que aquilo tudo se retroalimentava. Adorava essa palavra retro-alimentava; só perdia para circuito recursivo. Esse termo, eu usava quando estava sóbria, ou queria agradar alguém.

O fato é que vestir fantasias retroalimentava a porra toda. Eu ia para uma festinha vestida de puta ou de princesa, dependida da ocasião. No final eu sempre mentia. E tinha que voltar fantasiada, por que a fantasia não saía. Não saía com a maquiagem.

Quando eu saí desse mecanismo de merda, quando eu entendi que aquela merda era um circuito recursivo, eu pensei que tinha achado o segredo da felicidade, mas não tem segredo porra nenhuma. Acender o fogão sem se queimar tem segredo, escrever romance tem segredo, beber cerveja tem segredo, mas felicidade, não, felicidade não tem segredo. Felicidade só tem fantasia, e fantasia merda que desbota logo com o sol.

Quando eu comecei a entender o mecanismo me senti iluminada. Foi um momento de merda. As festas se mudaram, e eu ao invés de correr atrás das festas, voltei a ir para o Hotel São Francisco. E cada vez iam menos pessoas, até que teve um dia que o porteiro falou:

- Ana Cristina não tem ninguém lá em cima. A festa foi cancelada. Não vão mais fazer. Parece que a chuva inundou a cidade e ninguém conseguiu chegar.

- Como ninguém porra. Eu cheguei! E molhada pra caralho.

- Pois é, mas não tem nem cerveja.

- Não importa, eu trouxe vodka, me deixa subir zé.

- Tá bom, sobe e desce quando a chuva baixar.

E não baixou. E as merdas boiaram.

Do diálogo de Ana Cristina consigo mesma

Para que acordar, se amanhã repete-se a mesma coisa? O devir é devir para a natureza, para nós chama-se ócio, rotina, absoluta mesmice.

De noite eu digo: para que dormir? De manhã afirmo: para que acordar Ana Cristina? E essa ferrugem nas suas mãos?

A semelhança gira em torno das luzes e das pessoas. De dia há luz e pessoas demais. Pessoas demais, como mariposas, mas com vozes, muitas vozes e algo ainda pior e mais comovente: problemas.

Não que esbarrar com problemas seja de todo mal, o real problema, digo a real questão, por que os problemas são todos mundanos, e não merecem títulos reais ou semelhantes nobres titulações; é que os problemas dos outros me afetam. Não todos, por que entre rasos problemas pululam rasas criaturas; e criaturas rasas não esbarram por você, nem por mim, nem por ninguém, elas grudam, e aí a gente não consegue captar, pois tem de remover aquilo do corpo. É como uma sujeira de pombo que mesmo já espatifada no teu colo, você pensa que deve limpar rápido, pois quanto mais rápido você tirar aquilo menos infeccionada você está. Pessoas rasas são assim, infecções de cortes de cabelo triangulares.

O problema que há problemas grandes que grudam. Esse são bons, fazem a gente se sentir sem cabeças e cabelos triangulares. Gente fudida como eu e você não vem com teflon.

E aí vem aquela coisa menina, que está fora de moda, tem um nome gordo como um peru assado no natal, mas sem as tias católicas ou a cantoria da pequena pastorinha, é um negócio que se chama empatia. Não é apatia meu amor. É empatia. Você e seu batom são difíceis de captar hein?!

A empatia fodeu nossas vidas num bolo chamado sociedade, as castanhas são a insônia. Tira para usar filhinha, tira pra usar, tira, quando for usar tua libido naquela noite vazia da Farme de Amoedo, tira ela pra usar. Usa com gosto, mas lembra que o que você veste é um sentimentozinho miserável que eu ainda não consigo escrever o nome. Não é empatia.

Esse sentimentozinho miserável por enquanto eu só posso chamar de sentimentozinho miserável mesmo, pois eu só consigo enxergar, ainda não escrevi. Por enquanto a gente pode chamar de “esperar a vez pra falar” meu amor. Esperar a vez pra falar não é empatia não minha filha.

Isso é vergonha de ser humano.

É por isso que de manhã eu falo pra mim mesma: Ana Cristina, volta a dormir, que dentro dessa cabecinha dorme um mundo muito mais bonitinho, volta a dormir que os abismos não estão aí dentro, estão lá fora andando de pênis motorizado e comprando lacoste. E tem aquelas menininhas com os sapatinhos apertadinhos como a alma, pressionando o próprio coração, comprimidinho atrás daquele corpete americano, fingindo ser a rainha do baile, ai que menininhas lindas, tons pastéis, que podem se vestir de brilho e matar metade da áfrica sub-sariana de inveja!

Ai que coragem menina.

Por isso, a noite eu fico aqui no meu mundinho, estreito, pequeno, empático.

E quando bate a tontura eu falo para mim mesma: Para que acordar Ana Cristina? Para que acordar? E essa ferrugem nas suas mãos? E essas luzes lá fora? E esses problemas? Volta a dormir Ana Cristina, volta a dormir, guarda a empatia no travesseiro, por que lá vem outro dia-repetição, e cheio de luzes.

Outra de Ana Cristina: a niilista.

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