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Adendos emocionais

Lendo muita coisa antiga. Eu percebi que muita coisa ainda dói.

O adendo é que eu ainda tenho a velha capacidade de estragar tudo.

Quando se chega aos trinta anos

Emudeceu.

Calou-se.

Pediram muito.

E ele só queria seguir, sem que alguém o notasse.

Mas aí chegam os vinte, os vinte e cinco, e por fim os trinta, com o café, o desemprego e o horário de regar a horta no fundo da casa alugada.

As prestações não chegaram. Nem as cartas da ruiva. Talvez o cachorro ou o gato, esgueirando nos muros.

Chegou sim o silêncio. A ausência. O perdão antecipado. O erro vencido.

E os pratos quebrados no canto da mesa,  sobram partidos; como se houvesse lugar cativo ou seguro para guardar as próprias ausências.

Ana Cristina, a resiliente

Fui naquela exposição, mas não consegui olhar nada minha querida. Por que? Pelas pessoas muito perfeitinhas. Corte de cabelo quadrado, roupinhas, brinquinhos, xadrez, e aquela coisa toda. Gente que não tem problema. Como assim? Está surpresa?

Escolher sanduíche é problema? Perder a vaga no curso de alemão é problema? Sujar o vestido de bolinhas é problema?

Não pudia olhar para os quadros, nem para as telas, nem para aquele parangolê gigante feito de silício, por que para apreciar a arte e a burrice alheia filhinha, é preciso se despir de tudo. De tudo minha filha.

Da dor no pescoço. Da ordem de despejo. De dormir num colchão inflável sobre os tacos de madeira. Do processo de seis laudas. De não ter toalha para se enxugar.

Sobreviver sem analgésicos e alargadores filha, não é para amadores.

Origami Emocional

Vou lhe mostrar como fazer um origami emocional meu amor.

Você acha que a questão é simples querida?

Acha que é só você pegar aquele pedaço de gente e amassar? Não meu amor! Não é só amassar!  Amassar por amassar é coisa de gente amadora, garota! Você deve dobrar. Deve dobrar pouquinho por pouquinho, pedacinho por pedacinho.

Ninguém desconfia de alguém que dobra né? A gente desconfia de gente que amassa. Gente que amassa conta de luz; gente que amassa guardanapo e joga no chão, gente que amassa aquele dinheiro de raiva! Dessa gente a gente desconfia, não meu amor? Pessoas mal educadas amassam as coisas todos os dias! Até carta de amor!

Nós não querida. Gente da nossa estirpe não amassa… A gente dobra! Vai dobrando pedacinho por pedacinho; filminho, teatrinho, sushizinho, piadinha-internazinha-grupinho-bacaninha; vai dobrando.

Mas não é dobrar por dobrar não gatona. Não vale dobrar sem objetivo. Toda dobra é calculada. Dois anos? Dois meses? Dois dias? Você escolhe. Polissemia, poligamia, polifagia… É tudo no plural!

Primeiro você faz um sapinho bonitinho. Quando acabar, que tal uma raposa? Se pode ser o leãozinho, o pavão e o urinol do Duschamps? Se vale? Claro po-de-ro-sa! Va-le tu-do! Leva ele na exposição dos medíocres. Convence que o instante é que é o eterno amor, e que o eterno, o eterno não existe, passou, passou como um instante.

Liberdade é ser como você querida, ter um belo e rosado coração de papel! De papel! Mas vale cartolina e até aquela coisa, como chamam? Papel-crepom!

Você tem estilo!

Pode desdobrar tudo quando terminar! Desdobra tudo, coloca a entranha dele pra fora. Embrulha ele com celofone!

Depois dobra  de novo. Dobra de novo.

E não esquece que o papel rasga, papel rasga mesmo meu amor. Pode ser na boate, na fila do caixa ou até com a mãe dele presente, papel RAS-GA. E nessa hora a gente tem de se prevenir!

E quando rasgar, você pega outro papel, pega outro papel e vai dobrando, vai dobrando minha filha; cuidado para não se dobrar junto com o origami.

Cuidado, por que aí filhinha, aí eu vou ser obrigada a dizer que você se meteu numa caretice daquelas meu amor e o édipo pode vir junto.

Esqueceu como é que dobra? Nossa meu amor! Nossa!

Tenho que te dizer; vai, é só uma desconfiança boba…

Mas eu que acho que te dobraram! E tem gente que dobra e engole!

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