Filed under desastres que renderam prosas

Origami Emocional

Vou lhe mostrar como fazer um origami emocional meu amor.

Você acha que a questão é simples querida?

Acha que é só você pegar aquele pedaço de gente e amassar? Não meu amor! Não é só amassar!  Amassar por amassar é coisa de gente amadora, garota! Você deve dobrar. Deve dobrar pouquinho por pouquinho, pedacinho por pedacinho.

Ninguém desconfia de alguém que dobra né? A gente desconfia de gente que amassa. Gente que amassa conta de luz; gente que amassa guardanapo e joga no chão, gente que amassa aquele dinheiro de raiva! Dessa gente a gente desconfia, não meu amor? Pessoas mal educadas amassam as coisas todos os dias! Até carta de amor!

Nós não querida. Gente da nossa estirpe não amassa… A gente dobra! Vai dobrando pedacinho por pedacinho; filminho, teatrinho, sushizinho, piadinha-internazinha-grupinho-bacaninha; vai dobrando.

Mas não é dobrar por dobrar não gatona. Não vale dobrar sem objetivo. Toda dobra é calculada. Dois anos? Dois meses? Dois dias? Você escolhe. Polissemia, poligamia, polifagia… É tudo no plural!

Primeiro você faz um sapinho bonitinho. Quando acabar, que tal uma raposa? Se pode ser o leãozinho, o pavão e o urinol do Duschamps? Se vale? Claro po-de-ro-sa! Va-le tu-do! Leva ele na exposição dos medíocres. Convence que o instante é que é o eterno amor, e que o eterno, o eterno não existe, passou, passou como um instante.

Liberdade é ser como você querida, ter um belo e rosado coração de papel! De papel! Mas vale cartolina e até aquela coisa, como chamam? Papel-crepom!

Você tem estilo!

Pode desdobrar tudo quando terminar! Desdobra tudo, coloca a entranha dele pra fora. Embrulha ele com celofone!

Depois dobra  de novo. Dobra de novo.

E não esquece que o papel rasga, papel rasga mesmo meu amor. Pode ser na boate, na fila do caixa ou até com a mãe dele presente, papel RAS-GA. E nessa hora a gente tem de se prevenir!

E quando rasgar, você pega outro papel, pega outro papel e vai dobrando, vai dobrando minha filha; cuidado para não se dobrar junto com o origami.

Cuidado, por que aí filhinha, aí eu vou ser obrigada a dizer que você se meteu numa caretice daquelas meu amor e o édipo pode vir junto.

Esqueceu como é que dobra? Nossa meu amor! Nossa!

Tenho que te dizer; vai, é só uma desconfiança boba…

Mas eu que acho que te dobraram! E tem gente que dobra e engole!

Supermercado ou safári de final de semana?

Não adianta amor.

Não adianta.

Chega um momento que a gente, até mesmo o grupinho que tem esmalte da mesma cor, tem de vomitar e jogar tudo lá na cerâmica de casa.

Não tem mais a empregada preta pra limpar, não tem mais amor. A gente se proletarizou. Acabou a escravidão. Limpa você para variar.

Mentira querida, mentirinha, a gente tem o instrumento querida, a gente tem aquele instrumento; aquele pênis de ambição no meio das pernas, mesmo nas meninas, que poderiam currar um gerente nível dois a noite inteira, a gente tem amor, tem sazon, é só usar. E falamos duas línguas, mas só conseguimos meter no rabo uma, que é pra não gastar demais nosso cú classe média.

Dois aninhos sem empregada-negra-escrava e você já sofre querida? Dois meses sem tv a cabo e você morreu? Com é o nome do seriado? Aquele que ao invés de TH se fala com o “F” ? Fde Fudeu. Gente, eu nunca entendi falar TH com F de Fudeu! Isso é um desrespeito com a palavra foda-se, que é a palavra mais bonita da língua portuguesa!

Eu no supermercado, comprando aquela vodka vagabunda e miojo,.vai me chama de ressentida, eu deixo… E na minha frente uma morena de quadris largos, tatuagem no pulmão, iogurte anti-rugas. Ai que gente feliz, 600 reais numa compra de mês! Gozei, quase foi no balcão!

Paga no crédito. Barcelona no ano que vem?

E a maquininha apitava, apitava, apitava. E no meio da avenida, digo da entrada daquele templo, um morenaço alto, forte e com cara de pobre, entrou com tudo e botou pra fuder.

Chega um momento que não estão mais lá.

Tudo sumiu.

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Quando tudo está bagunçado

Quando minha cabeça está bagunçada.

Minha casa fica bagunçada.

Quando minha casa fica bagunçada.

Minha cabeça fica bagunçada.

Aprendi a ficar com a casa bagunçada quando minha cabeça fica bagunçada.

Aprendi a ficar com a cabeça bagunçada quando minha casa fica bagunçada.

Eu me bagunço, a casa se bagunça.

A casa se bagunça, eu me bagunço.

Eu bagunço a casa,  a casa me bagunça.

A casa me bagunça, eu bagunço a casa.

Mas que violência.

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Varão

Posso fazer todas as coisas que papai fazia.

Dirigir, beber, bater em alguém.

Posso fazer todas as coisas.

Trepar. Xingar, mandar mamãe lavar os pratos.

A única coisa que não consigo fazer.

É ter aquele emprego estável.

E sobreviver a revolução sexual.

Então: mato a revolução sexual. Má, feia, boba!

Bato em Eloísa. Ridicularizo Neide. Castigo Rita.

E quando o quintal está cheio de brinquedos.

Enterro Vanessa no quintal.

Papai me ama.

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Voando

Já tenho sua música e sua magia.

Não preciso mais de você.

Naquele canto de mundo áspero, fingia elevadores.

Só ele percebeu, aquele cachorro de pelos ásperos mas sinceros, que só estava ali por interesse, interesse da comida.

Egoísta.

Só ele percebeu, que Alice, com aquele vestido roxo, era a única viva, que dançava para si próprio, mas seduzia-o, por que aquelas coxas, aqueles lábios plurais, aquela face que ignorava o mundo ao seu redor, fazia-se plena como uma intimação ou um grito de corredor. Maravilhosa.

Só ele percebeu, mas dos doze convidados, nove o perseguiram sem saber, dos nove, havia quatro que o odiaram à primeira impressão, desses quatro, uns dois possuíam provas, e desses dois, um sentia medo, sentia medo, pois havia abismos que se comunicavam e alguém dizia em segredo: futuro amor frustrado!, frustrado!

Só ele percebeu, que aquele mundo era perfeito, perfeito demais, com todas as peças se encaixando, com todos os deslizes se tornando grandes felicidades, com todas as tragédias que viravam filhas felizes ou beijos no canto da boca, com aquele sorriso de vitória na língua que contornava aquela cerveja gelada, aquele vento no rosto, aquela janela aberta que o impelia a voar.

Só ele percebeu, mas ele era o único que não fingiu, e por isso teve de voltar pra casa, perguntando ao motorista qual era o ônibus que passava na Joaquim Nabuco.

Só ele percebeu, mas no final, quando ele subia o elevador, ele ia subindo, e o destino, ou tristeza, chame do que quiser os que não fracassam, ia descendo, e em algum momento ele não fingia mais, não fingia mais, por que no final de toda aquela vergonha ele era apenas humano.

Fingia os elevadores naquele canto do mundo.

Áspero, sincero, humano.

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