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Instruções para evacuação de um trem na via

Os homens devem vestir gravatas rosas, as mulheres vestidos amarelos com bolas pretas.

Os casais apaixonados devem sair rodopiando abraçados uns aos outros, ao final da saída, uma coreografia do balé bolshoi deve ser executada na parte central da plataforma. Não haverá área V.I.P.

Os religiosos, os crentes, e os indecisos com culpa, devem rezar para salvar todos os demais passageiros.

Aqueles que não acreditam em deus devem permanecer sentados no banco preferencial aos ateus.

As contas a pagar podem ser queimadas na presença de um agente de segurança.

Os livros do Neruda podem ser reembolsados nas bilheterias das estações. Não aceitaremos rosas como devoluções.

Ana Cristina, a resiliente

Fui naquela exposição, mas não consegui olhar nada minha querida. Por que? Pelas pessoas muito perfeitinhas. Corte de cabelo quadrado, roupinhas, brinquinhos, xadrez, e aquela coisa toda. Gente que não tem problema. Como assim? Está surpresa?

Escolher sanduíche é problema? Perder a vaga no curso de alemão é problema? Sujar o vestido de bolinhas é problema?

Não pudia olhar para os quadros, nem para as telas, nem para aquele parangolê gigante feito de silício, por que para apreciar a arte e a burrice alheia filhinha, é preciso se despir de tudo. De tudo minha filha.

Da dor no pescoço. Da ordem de despejo. De dormir num colchão inflável sobre os tacos de madeira. Do processo de seis laudas. De não ter toalha para se enxugar.

Sobreviver sem analgésicos e alargadores filha, não é para amadores.

Segue Sônia e a Insônia.

Sônia, não, você não pode dançar assim.

Olha teu quadril que lascivo. não provoca assim. Assim é demais.

Sônia, para de ligar, para de mandar cartas, para de telefonar, para de dizer a ele o que ele tem de fazer.

Sônia. Para.

Olha teu vestido Sônia, olha teu umbigo, olha teu céu Sônia. Olha teu universo como ficou pequeno quando ele te guardou no bolso.

Sônia. Muda tua religião, coloca o remendo no fundo da meia. Tá na hora de aprender menina. Com vinte e quatro eu já sabia fuder psicólogos.

Olha. Não se abaixa. Não deixa ele te pisar. Não paga na mesma moeda. Só seja Sônia, Sônia. Veste tua roupa. Cadê tua coragem Sônia, cadê.

Deixa a insônia pra ele. Deixa.

Sônia. Deixa de ser idiota.

Deixa de ser sônia Sônia. Deixa de ser sônia sua songa-monga.

Você fode ele quando quiser.

Meus objetivos incompreensíveis de vida

1) Fumar cigarros num enterro.

2) Abraçar uma ovelha.

3) Ser Janusz Korczak.

 

Supermercado ou safári de final de semana?

Não adianta amor.

Não adianta.

Chega um momento que a gente, até mesmo o grupinho que tem esmalte da mesma cor, tem de vomitar e jogar tudo lá na cerâmica de casa.

Não tem mais a empregada preta pra limpar, não tem mais amor. A gente se proletarizou. Acabou a escravidão. Limpa você para variar.

Mentira querida, mentirinha, a gente tem o instrumento querida, a gente tem aquele instrumento; aquele pênis de ambição no meio das pernas, mesmo nas meninas, que poderiam currar um gerente nível dois a noite inteira, a gente tem amor, tem sazon, é só usar. E falamos duas línguas, mas só conseguimos meter no rabo uma, que é pra não gastar demais nosso cú classe média.

Dois aninhos sem empregada-negra-escrava e você já sofre querida? Dois meses sem tv a cabo e você morreu? Com é o nome do seriado? Aquele que ao invés de TH se fala com o “F” ? Fde Fudeu. Gente, eu nunca entendi falar TH com F de Fudeu! Isso é um desrespeito com a palavra foda-se, que é a palavra mais bonita da língua portuguesa!

Eu no supermercado, comprando aquela vodka vagabunda e miojo,.vai me chama de ressentida, eu deixo… E na minha frente uma morena de quadris largos, tatuagem no pulmão, iogurte anti-rugas. Ai que gente feliz, 600 reais numa compra de mês! Gozei, quase foi no balcão!

Paga no crédito. Barcelona no ano que vem?

E a maquininha apitava, apitava, apitava. E no meio da avenida, digo da entrada daquele templo, um morenaço alto, forte e com cara de pobre, entrou com tudo e botou pra fuder.

Chega um momento que não estão mais lá.

Tudo sumiu.

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Distonia Paroxistica Noturna

Era o nome do meu cão.

Dormia aos meus pés todas as noites.

No amor não se contam glórias

No amor não se contam as glórias, mas se realçam os desperdícios e as tragédias, pequenas, mas importantes demais para a memória ceder.

Ruiva, quando eu te encontrei , naquela primeira vez, que parecia única, e que momento por momento tornou-se singular, as coisas caíram, caíram ruiva.

Quero algo singular para amanhã. Quero ter o singular nas mãos. Quero criar algo que rompa minha rotina. Chamarei de silêncio, mas pode ser outra coisa. De qualquer forma sei que o singular que eu criei é um chamariz para que algo aconteça, qualquer coisa aconteça, mas nada acontece ruiva. Tudo se repete. O café, o edredom, a rotina, o trabalho, as decepções, tudo se renova ruiva.

Quero um amor rubro ruiva. Quero um amor ruivo. Quero sentir-me novamente com aquela esperança no peito, mas, por favor, por favor, peça aos seus deuses ruiva, peça a eles, que façam durar mais do que três meses.

Peça ruiva.

Quando você lembrar-se de mim ruiva, escreva para seus amigos deuses, escreva para eles, e peça para cuidarem melhor de mim.

Peça para que eu morra antes de fracassar novamente.

Não compactua com meu atual estado de espírito monográfico – sublimação e terapia na velocidade cinco: mas  é fato que qualquer hora volto aqui.

Quando tudo está bagunçado

Quando minha cabeça está bagunçada.

Minha casa fica bagunçada.

Quando minha casa fica bagunçada.

Minha cabeça fica bagunçada.

Aprendi a ficar com a casa bagunçada quando minha cabeça fica bagunçada.

Aprendi a ficar com a cabeça bagunçada quando minha casa fica bagunçada.

Eu me bagunço, a casa se bagunça.

A casa se bagunça, eu me bagunço.

Eu bagunço a casa,  a casa me bagunça.

A casa me bagunça, eu bagunço a casa.

Mas que violência.

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Dos farelos da memória

Acordei e escovei os dentes.

O mais difícil era acordar. Gostava mesmo era de dormir.

E aquela ferrugem nas mãos, aquele gosto de sal na boca, aqueles lábios ressecados e aquela taquicardia crônica agravada pela memória do olfato.

E a ruiva onde estava?

Mais uma carta devolvida. Mais um endereço errado. Mais uma desesperança que chegava sempre na hora do café. Foi-se. Perdeu-se no mundo.

Enlouquecer era fácil, morrer também; mas viver, viver era para os mestres, ou para os estetas.

E os farelos de pão sobre a mesa.  Mais um envelope rasgado.

Agora chega, hoje eu não saio de casa.

Gostava mesmo era de dormir.

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