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Segue Sônia e a Insônia.

Sônia, não, você não pode dançar assim.

Olha teu quadril que lascivo. não provoca assim. Assim é demais.

Sônia, para de ligar, para de mandar cartas, para de telefonar, para de dizer a ele o que ele tem de fazer.

Sônia. Para.

Olha teu vestido Sônia, olha teu umbigo, olha teu céu Sônia. Olha teu universo como ficou pequeno quando ele te guardou no bolso.

Sônia. Muda tua religião, coloca o remendo no fundo da meia. Tá na hora de aprender menina. Com vinte e quatro eu já sabia fuder psicólogos.

Olha. Não se abaixa. Não deixa ele te pisar. Não paga na mesma moeda. Só seja Sônia, Sônia. Veste tua roupa. Cadê tua coragem Sônia, cadê.

Deixa a insônia pra ele. Deixa.

Sônia. Deixa de ser idiota.

Deixa de ser sônia Sônia. Deixa de ser sônia sua songa-monga.

Você fode ele quando quiser.

Meus objetivos incompreensíveis de vida

1) Fumar cigarros num enterro.

2) Abraçar uma ovelha.

3) Ser Janusz Korczak.

 

No amor não se contam glórias

No amor não se contam as glórias, mas se realçam os desperdícios e as tragédias, pequenas, mas importantes demais para a memória ceder.

Ruiva, quando eu te encontrei , naquela primeira vez, que parecia única, e que momento por momento tornou-se singular, as coisas caíram, caíram ruiva.

Quero algo singular para amanhã. Quero ter o singular nas mãos. Quero criar algo que rompa minha rotina. Chamarei de silêncio, mas pode ser outra coisa. De qualquer forma sei que o singular que eu criei é um chamariz para que algo aconteça, qualquer coisa aconteça, mas nada acontece ruiva. Tudo se repete. O café, o edredom, a rotina, o trabalho, as decepções, tudo se renova ruiva.

Quero um amor rubro ruiva. Quero um amor ruivo. Quero sentir-me novamente com aquela esperança no peito, mas, por favor, por favor, peça aos seus deuses ruiva, peça a eles, que façam durar mais do que três meses.

Peça ruiva.

Quando você lembrar-se de mim ruiva, escreva para seus amigos deuses, escreva para eles, e peça para cuidarem melhor de mim.

Peça para que eu morra antes de fracassar novamente.

Não compactua com meu atual estado de espírito monográfico – sublimação e terapia na velocidade cinco: mas  é fato que qualquer hora volto aqui.

Quando tudo está bagunçado

Quando minha cabeça está bagunçada.

Minha casa fica bagunçada.

Quando minha casa fica bagunçada.

Minha cabeça fica bagunçada.

Aprendi a ficar com a casa bagunçada quando minha cabeça fica bagunçada.

Aprendi a ficar com a cabeça bagunçada quando minha casa fica bagunçada.

Eu me bagunço, a casa se bagunça.

A casa se bagunça, eu me bagunço.

Eu bagunço a casa,  a casa me bagunça.

A casa me bagunça, eu bagunço a casa.

Mas que violência.

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Dos farelos da memória

Acordei e escovei os dentes.

O mais difícil era acordar. Gostava mesmo era de dormir.

E aquela ferrugem nas mãos, aquele gosto de sal na boca, aqueles lábios ressecados e aquela taquicardia crônica agravada pela memória do olfato.

E a ruiva onde estava?

Mais uma carta devolvida. Mais um endereço errado. Mais uma desesperança que chegava sempre na hora do café. Foi-se. Perdeu-se no mundo.

Enlouquecer era fácil, morrer também; mas viver, viver era para os mestres, ou para os estetas.

E os farelos de pão sobre a mesa.  Mais um envelope rasgado.

Agora chega, hoje eu não saio de casa.

Gostava mesmo era de dormir.

Estranhamento(s)

Cansei de tudo.

Entrelinhas de um horizonte

Aquela baía que não me deixava mais ler.

Aquele mar que me fazia analfabeto.

Que nas entrelinhas, dos barquinhos pontuados por aquele verde-azul-negro oceano,  resplandecia e voltava prateado por sob a luz, de volta ao meu ônibus incandescente.

E eu que nas entrelinhas daquele texto-horizonte, começava a imaginar que o dono do barquinho, que o dono daquele barco, e seus funcionários, seu salário, seu combustível, seu barco grande e gigantes custos de ter aquela coisa cara, era assim de forma estúpida parte do meu horizonte barato, que voltava para mim.

E eu, encerrado naquele dilema, preferia perceber que os horizontes não se percebem, nem se lêem. Horizontes e baías se sentem.

Ou a gente sente tudo, ou morre racionalizando.

Racionalizamos o prateado do mar e matamos a paisagem e a nós próprios.

Toco teu lábio ruiva

Toco teu nome com o lábio de minhas palavras.

Digo sussurrando, quase com medo: Roja, roja, roja.

Deslizo meus dedos por entre tuas vírgulas.

Tuas formas, mentirosas, esquivas.

Aquelas partes tuas inacessíveis parecem me amplas e infinitas. O tempo não passa, fica.

Teus pés; meus pés se tocam. Tocam o infinito.

Entrelaçamo-nos. Sentimo-nos. Trocamos cheiros. Construímos nossos castelos. Montamos e desmontamos tudo: você também nega.

Vez ou outra você me caça. Eu adoro. Mentimos juntos.

Te beijo. Imaginando outra. É amor.

Amor é toque. Não me sinto culpado.

No final de tudo fugimos, fugimos, fugimos.

E o nó no coração continua lá, continua lá nos tornando iguais.

Diante dos buracos da vida

E diante do mais, o mesmo.

E diante do único, a repetição.

E diante de mim, a falta de criatividade, ou algo morto que o valha.

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