Filed under prosa poética

Manifestação Legítima

Há pouquíssimo tempo, uma novidade atrai a curiosidade dos frequentadores do centro do Rio de Janeiro. Vestindo uniformes e portando megafones, pequenos grupos de trabalhadores interferem na rotina frenética da cidade. Espalhados em diferentes locais, esses guerrilheiros da propaganda atuam diretamente no cotidiano dos transeuntes, disseminando energicamente seus discursos inflamados. “Da primeira vez que vi, confesso que achei que era um grupo de esquerda, até porque ouvi a palavra liberdade umas duas vezes, durante o pronunciamento público da moça que portava o megafone”, revelou um amigo.

Os “manifestantes” na verdade são trabalhadores mal-remunerados, assalariados. São contratados pelas empresas de telefonia para venderem, aos berros, os chips de suas operadoras aos transeuntes dia após dia. “Curiosa manifestação.” Pensei alto. “E veja, esta liberdade não é proibida.”

Esta pequena prosa poética de minha autoria foi publicada na seção Flagrantes delitos, do site Passapalavra.

http://passapalavra.info/?p=38875

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Quando tudo arrebenta e até a poesia é permitida

Amor não me traga para cima.

Há uma represa dentro de nós.

Veja, as paredes estão arrebentando. E nós, estamos correndo, correndo, correndo, antes que a água nos pegue.

A cachoeira, fujamos da cachoeira.

Vamos para um lugar alto. Onde podemos brincar de deus.

Vamos correr. Olhe os paralelepípedos amarelos. Olhe todos eles. Jogue os farelos. Vamos fazer nossa trilha e voltar, voltar, voltar.

Circulemos a árvore grande. Há uma entraga velha e oca. Todos podem entrar.

Meu coração e o seu, guardado numa caixinha. Guardemos no pinheiro.

Vamos correr.

Vamos voltar, e nos atirar do alto do penhasco, junto com a água corrente.

Vamos amor.

Vamos ser cachoeira.

Só mais uma carta de amor

Contexto: Resgatei isto do meu email sem querer. Foi uma carta que eu enviei (na verdade um email) para uma paixonite há algum tempo atrás.   Acho-a bela, mas como diria Fernando Pessoa, toda carta de amor é meio ridícula; pois bem.

Resolvi publicá-la pois paixão perdida bem cicatrizada jamais  cria problema.  E que venham outros amores, dores e humores.

É engraçado como eu, um cara que sempre acreditou que sua vocação para montanha-russa emocional não permitia tecer mais do que trinta e seis linhas sem iniciar uma longa discussão interna com parte da multidão de vozes que carrego em mim, consiga agora (talvez até impulsionado pelo looping da montanha-russa, devo assumir, sendo que uma parte de mim discorda disto totalmente) tranqüilamente plantar alguns quilos de parágrafos em meio a horta de coisas da vida.

Sem nenhuma dúvida, a tripulação interna de contradições que navega em meu peito não pode me julgar de não ser transparente e viral, o que produz alguns desconfortos de ordem literária, mas não há como negar que é a sinceridade que me motiva neste momento (por que um dos piratas diz que o impulso pode salvar o marujo da prancha ou pode jogá-lo no mar).

O capitão razão sempre diz que o timoneiro limpou o convés, cortou as batatas e subiu no mastro antes de pilotar o navio… E eu não deveria fugir à regra, mas como bom teimoso que sou atrevo-me a dar algumas escapulidas para o timão antes de limpar o convés e descascar as tais batatas do tempo.

O pirata pode ser um tipo impulsivo que prefere não seguir a escala do convés-batatas-timão mas sabe que quando a vela enche-se de sopro de alegria ele deve esquecer essa tal hierarquia do tempo e olhar somente para a origem do vento, e não há como negar que você já faz parte do sopro que impele a minha vontade-esquadra e a minha esquadra-vontade a desbravar os mares da vida.

Eu estou me esforçando para não me expor como um romântico bobo, (afinal, em nossa tecnocrática sociedade o romantismo está sempre ligado a infância como se fosse um sinal de fraqueza ou de imaturidade emocional) mas a verdade é que estes últimos dias foram tão bons, que eu resolvi concretizar parte do que eu sinto (só uma parte… também não pense que vou jogar todos os meus barris agora, assim de mão beijada… estragaria futuras surpresas…) neste textículo infantil (sim, a infância é uma fase tão espontânea, tão livre, por que não utilizá-la agora com denotações positivas?).

Sinceramente não me importo com o destino, aprendi muito a viver o presente e talvez isso tenha me prejudicado em certos momentos, o futuro pra mim é saudade, ampulhetas de areia que lentamente atrasam nossos encontros… o passado é um grande tesouro que mesmo nesses poucos dias que nos encontramos, só me traz recordações e sentimentos bons, que me levam a guardar e enterrá-los bem fundo em alguma ilha deserta para eu manter o mapa do tesouro só para mim…

Na verdade foram grandes dias, intensos, prazeirosos, cheios de cor que posso dizer sem medos, que se meu navio viesse a pique hoje, não me preocuparia com os redemoinhos jocosos do destino…

Enfim, gastei uma nau inteira de metáforas para te dizer coisas óbvias… estar com você é muito, muito bom… (e por que é que eu não falei isto no início do texto? por que estragaria TODAS as minhas torpes pretensões poéticas… )

E deixemos as correntes marítimas carregarem nossos navios sem que as expectativas os soçobrem nas dúvidas… parafraseando uma velha frase… não há navegação… há o navegar… há navegantes!

Beijos, beijos, beijos, não vejo a hora de jogar minha âncora e de te encontrar…

“As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens nem aventuras nem novas descobertas.
(Voltaire)

Beijão!

Paradoxo do sucesso

E me diga se há alguém ou algum fracassado que falhou em falhar?

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No amor não se contam glórias

No amor não se contam as glórias, mas se realçam os desperdícios e as tragédias, pequenas, mas importantes demais para a memória ceder.

Ruiva, quando eu te encontrei , naquela primeira vez, que parecia única, e que momento por momento tornou-se singular, as coisas caíram, caíram ruiva.

Quero algo singular para amanhã. Quero ter o singular nas mãos. Quero criar algo que rompa minha rotina. Chamarei de silêncio, mas pode ser outra coisa. De qualquer forma sei que o singular que eu criei é um chamariz para que algo aconteça, qualquer coisa aconteça, mas nada acontece ruiva. Tudo se repete. O café, o edredom, a rotina, o trabalho, as decepções, tudo se renova ruiva.

Quero um amor rubro ruiva. Quero um amor ruivo. Quero sentir-me novamente com aquela esperança no peito, mas, por favor, por favor, peça aos seus deuses ruiva, peça a eles, que façam durar mais do que três meses.

Peça ruiva.

Quando você lembrar-se de mim ruiva, escreva para seus amigos deuses, escreva para eles, e peça para cuidarem melhor de mim.

Peça para que eu morra antes de fracassar novamente.

Não compactua com meu atual estado de espírito monográfico – sublimação e terapia na velocidade cinco: mas  é fato que qualquer hora volto aqui.

Um poeta na rede

Sérgio Vaz, interessantíssimo. Inspirou-me profundamente.

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Voando

Já tenho sua música e sua magia.

Não preciso mais de você.

Entrelinhas de um horizonte

Aquela baía que não me deixava mais ler.

Aquele mar que me fazia analfabeto.

Que nas entrelinhas, dos barquinhos pontuados por aquele verde-azul-negro oceano,  resplandecia e voltava prateado por sob a luz, de volta ao meu ônibus incandescente.

E eu que nas entrelinhas daquele texto-horizonte, começava a imaginar que o dono do barquinho, que o dono daquele barco, e seus funcionários, seu salário, seu combustível, seu barco grande e gigantes custos de ter aquela coisa cara, era assim de forma estúpida parte do meu horizonte barato, que voltava para mim.

E eu, encerrado naquele dilema, preferia perceber que os horizontes não se percebem, nem se lêem. Horizontes e baías se sentem.

Ou a gente sente tudo, ou morre racionalizando.

Racionalizamos o prateado do mar e matamos a paisagem e a nós próprios.

Toco teu lábio ruiva

Toco teu nome com o lábio de minhas palavras.

Digo sussurrando, quase com medo: Roja, roja, roja.

Deslizo meus dedos por entre tuas vírgulas.

Tuas formas, mentirosas, esquivas.

Aquelas partes tuas inacessíveis parecem me amplas e infinitas. O tempo não passa, fica.

Teus pés; meus pés se tocam. Tocam o infinito.

Entrelaçamo-nos. Sentimo-nos. Trocamos cheiros. Construímos nossos castelos. Montamos e desmontamos tudo: você também nega.

Vez ou outra você me caça. Eu adoro. Mentimos juntos.

Te beijo. Imaginando outra. É amor.

Amor é toque. Não me sinto culpado.

No final de tudo fugimos, fugimos, fugimos.

E o nó no coração continua lá, continua lá nos tornando iguais.

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