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Quando tudo arrebenta e até a poesia é permitida

Amor não me traga para cima.

Há uma represa dentro de nós.

Veja, as paredes estão arrebentando. E nós, estamos correndo, correndo, correndo, antes que a água nos pegue.

A cachoeira, fujamos da cachoeira.

Vamos para um lugar alto. Onde podemos brincar de deus.

Vamos correr. Olhe os paralelepípedos amarelos. Olhe todos eles. Jogue os farelos. Vamos fazer nossa trilha e voltar, voltar, voltar.

Circulemos a árvore grande. Há uma entraga velha e oca. Todos podem entrar.

Meu coração e o seu, guardado numa caixinha. Guardemos no pinheiro.

Vamos correr.

Vamos voltar, e nos atirar do alto do penhasco, junto com a água corrente.

Vamos amor.

Vamos ser cachoeira.

Só mais uma carta de amor

Contexto: Resgatei isto do meu email sem querer. Foi uma carta que eu enviei (na verdade um email) para uma paixonite há algum tempo atrás.   Acho-a bela, mas como diria Fernando Pessoa, toda carta de amor é meio ridícula; pois bem.

Resolvi publicá-la pois paixão perdida bem cicatrizada jamais  cria problema.  E que venham outros amores, dores e humores.

É engraçado como eu, um cara que sempre acreditou que sua vocação para montanha-russa emocional não permitia tecer mais do que trinta e seis linhas sem iniciar uma longa discussão interna com parte da multidão de vozes que carrego em mim, consiga agora (talvez até impulsionado pelo looping da montanha-russa, devo assumir, sendo que uma parte de mim discorda disto totalmente) tranqüilamente plantar alguns quilos de parágrafos em meio a horta de coisas da vida.

Sem nenhuma dúvida, a tripulação interna de contradições que navega em meu peito não pode me julgar de não ser transparente e viral, o que produz alguns desconfortos de ordem literária, mas não há como negar que é a sinceridade que me motiva neste momento (por que um dos piratas diz que o impulso pode salvar o marujo da prancha ou pode jogá-lo no mar).

O capitão razão sempre diz que o timoneiro limpou o convés, cortou as batatas e subiu no mastro antes de pilotar o navio… E eu não deveria fugir à regra, mas como bom teimoso que sou atrevo-me a dar algumas escapulidas para o timão antes de limpar o convés e descascar as tais batatas do tempo.

O pirata pode ser um tipo impulsivo que prefere não seguir a escala do convés-batatas-timão mas sabe que quando a vela enche-se de sopro de alegria ele deve esquecer essa tal hierarquia do tempo e olhar somente para a origem do vento, e não há como negar que você já faz parte do sopro que impele a minha vontade-esquadra e a minha esquadra-vontade a desbravar os mares da vida.

Eu estou me esforçando para não me expor como um romântico bobo, (afinal, em nossa tecnocrática sociedade o romantismo está sempre ligado a infância como se fosse um sinal de fraqueza ou de imaturidade emocional) mas a verdade é que estes últimos dias foram tão bons, que eu resolvi concretizar parte do que eu sinto (só uma parte… também não pense que vou jogar todos os meus barris agora, assim de mão beijada… estragaria futuras surpresas…) neste textículo infantil (sim, a infância é uma fase tão espontânea, tão livre, por que não utilizá-la agora com denotações positivas?).

Sinceramente não me importo com o destino, aprendi muito a viver o presente e talvez isso tenha me prejudicado em certos momentos, o futuro pra mim é saudade, ampulhetas de areia que lentamente atrasam nossos encontros… o passado é um grande tesouro que mesmo nesses poucos dias que nos encontramos, só me traz recordações e sentimentos bons, que me levam a guardar e enterrá-los bem fundo em alguma ilha deserta para eu manter o mapa do tesouro só para mim…

Na verdade foram grandes dias, intensos, prazeirosos, cheios de cor que posso dizer sem medos, que se meu navio viesse a pique hoje, não me preocuparia com os redemoinhos jocosos do destino…

Enfim, gastei uma nau inteira de metáforas para te dizer coisas óbvias… estar com você é muito, muito bom… (e por que é que eu não falei isto no início do texto? por que estragaria TODAS as minhas torpes pretensões poéticas… )

E deixemos as correntes marítimas carregarem nossos navios sem que as expectativas os soçobrem nas dúvidas… parafraseando uma velha frase… não há navegação… há o navegar… há navegantes!

Beijos, beijos, beijos, não vejo a hora de jogar minha âncora e de te encontrar…

“As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens nem aventuras nem novas descobertas.
(Voltaire)

Beijão!

No amor não se contam glórias

No amor não se contam as glórias, mas se realçam os desperdícios e as tragédias, pequenas, mas importantes demais para a memória ceder.

Ruiva, quando eu te encontrei , naquela primeira vez, que parecia única, e que momento por momento tornou-se singular, as coisas caíram, caíram ruiva.

Quero algo singular para amanhã. Quero ter o singular nas mãos. Quero criar algo que rompa minha rotina. Chamarei de silêncio, mas pode ser outra coisa. De qualquer forma sei que o singular que eu criei é um chamariz para que algo aconteça, qualquer coisa aconteça, mas nada acontece ruiva. Tudo se repete. O café, o edredom, a rotina, o trabalho, as decepções, tudo se renova ruiva.

Quero um amor rubro ruiva. Quero um amor ruivo. Quero sentir-me novamente com aquela esperança no peito, mas, por favor, por favor, peça aos seus deuses ruiva, peça a eles, que façam durar mais do que três meses.

Peça ruiva.

Quando você lembrar-se de mim ruiva, escreva para seus amigos deuses, escreva para eles, e peça para cuidarem melhor de mim.

Peça para que eu morra antes de fracassar novamente.

Não compactua com meu atual estado de espírito monográfico – sublimação e terapia na velocidade cinco: mas  é fato que qualquer hora volto aqui.

Voando

Já tenho sua música e sua magia.

Não preciso mais de você.

Toco teu lábio ruiva

Toco teu nome com o lábio de minhas palavras.

Digo sussurrando, quase com medo: Roja, roja, roja.

Deslizo meus dedos por entre tuas vírgulas.

Tuas formas, mentirosas, esquivas.

Aquelas partes tuas inacessíveis parecem me amplas e infinitas. O tempo não passa, fica.

Teus pés; meus pés se tocam. Tocam o infinito.

Entrelaçamo-nos. Sentimo-nos. Trocamos cheiros. Construímos nossos castelos. Montamos e desmontamos tudo: você também nega.

Vez ou outra você me caça. Eu adoro. Mentimos juntos.

Te beijo. Imaginando outra. É amor.

Amor é toque. Não me sinto culpado.

No final de tudo fugimos, fugimos, fugimos.

E o nó no coração continua lá, continua lá nos tornando iguais.

Apaixonada Ação Direta

Foi no meio da manifestação que tudo começou.

- Eu te amo.

Ela sorriu sem graça, talvez não fosse hora para aquilo, refletiu. Mas que maldito incômodo, mas continuou a caminhar, gritando, olhando para as bandeiras, para o chão, colocando as mãos nos bolsos, procurando coragem.

A Tv, a polícia, a confusão, as pedradas na vitrine do banco que ambos odiavam e que fizeram todos correr. Por que dizer eu te amo naquele contexto? Será que ele pensou que iria morrer? O desespero sempre leva o amor, mesmo que seja um ególatra que intenta apaixonar todos aos seu redor no pós-morte; é no fim, um desespero pessoal.

Mas todo apaixonado é um faminto, um desesperado, um necessitado que põe suas vísceras em jogo, mesmo que neste grau, estejam todos reunidos: os sociopatas, os falidos, até os deprimidos, bon vivants e os homicidas de primeiro grau.

Mas bem, se a confusão, o gás lacrimogênio só chegaram depois da declaração, interrompendo a face rubra de Alice, então não havia relação com desespero, o ato foi ou premeditado ou terrivelmente espontâneo.

Vontade de pegar o ônibus e sumir, mas estávamos no fim dos anos 60, a história começava a engatinhar, o mundo novo era uma semente…

Por que? Por que? Em que assembléia ele arquitetou a idéia? Em qual contexto? Seria um chiste, uma piada, uma fraude??? Pequeno-burguês!

Alice já começava a ver naquele romântico idealista revolucionário, a simples loucura. Contra-revolução de fato!

No ponto de encontro estabelecido, ela, rapidamente, mesmo sob efeito retardado da adrenalina, não pode esperar e perguntou com os olhos, e depois com os lábios, que se comunicavam com toda a boca, até o momento que as cordas vocais emitiam o sinal: não entendi o que você disse, sorriu, gritando.

- Eu te amo.

- O que?

- Eu te…

O barulho do carro de som emudecia o amor.

- O que você disse?, ressaltou Alice com os lábios e ouvidos, mas tudo apagou em seguida.

Na segunda confusão, prisões, advogados, cassetetes e pessoas correndo: o carro de som acompanhava os gemidos na rua.

Numa cela, pronta para ser transferida para o hospital, com o tornozelo torcido, Alice quando perguntou o porquê de estar sendo presa, teve de escutar do militar de plantão que ela não amava o país.

- Você não ama o país. É por isso que está sendo presa.

Entendi, disse Alice. Da próxima vez então, os senhores seguram a polícia e aí eu posso dizer se eu o amo ou não. Tirando os cassetetes e o barulho, todo o resto é invenção dos senhores. Inclusive esse codinome ridículo, “país”, onde se viu… Isso não é nome de esquerda, é de fascista! E fascista como os senhores, não amam absolutamente ninguém!!

Universo Vermelho

Foi na segunda cerveja que aquele milagre aconteceu.

- Tem cigarro?

- Não eu não fumo, falei.

- Tem isqueiro?

- Tenho, mas pra quê isqueiro se você não tem cigarro, sorri bebendo a cerveja.

- E pra que ter um isqueiro se você não fuma?, ela falou.

- Pra poder ser atencioso, prestativo, repliquei. Gosto de ser prestativo.

- Cruz Vermelha ou exército da salvação? ela falou sorrindo brevemente e tirando um cigarro do bolso.

- Nenhum dos dois, divisão dos prazeres, segundo setor.

- Entendi, a lógica é chegar a um denominador comum: gostos em comum. Já adianto que nunca vi Laranja Mecânica. E achei Amélie Poulain um porre.

- Que bom. De clichê já basta uma pessoa, costurei.

Nesse momento achei que tudo ia acabar aí; e se acabasse não seria mágico, mas seria terrível, seria terrível como readmitir um mundo que estava prestes a acabar.

- Você é aquela ruiva que gostava de jazz e bebia cerveja importada não é?

- Quase isso, agora eu sou morena e má. Também não gosto mais de jazz; eu prefiro dançar. Gosto de tinta de cabelo.

- Odeio dançar.

- Eu sei, ela emendou laconicamente. 

(Percebi que aquele desastre me conhecia.)

- E agora?

- Agora você me beija.

- E a minha dor?

- Guarda do outro lado do peito.

- Ruiva?, falei com aquele formigamento e rouquidão invadindo minha garganta e meus poros.

- Fala, ela disse ronronando com nossos lábios impositivos se tocando; e foi nessa hora que achei-a frágil demais, muito mais frágil do que eu, na primeira vez que nos encontramos.

- Eu não te esqueci. Por todos esses anos. Eu não te esqueci… soltei.

- Nem eu herr Durden, nem eu, ela disse, com aquela voz sussurada no infinito dos nossos corpos nos tocando. E seus dedos tocavam nos meus, nos acariciávamos completamente entregues, apesar de que a cada palavra havia mais a descortinar, a descobrir, a se devassar.

A última frase soara tão amorosa, mas pensei que talvez a gente visse apenas o que quisesse ver, e foi assim que agarrei a lata de cerveja e amassei na mão tamanha minha fragilidade e fé. Aquilo tudo passou na minha cabeça de uma vez. Até que comecei a falar.

- Depois de você conheci algumas pessoas.

- Eu sei, eu imaginei, ela disse passando as mãos por sob a minha camisa.

- Depois de você eu resolvi pintar, escrever. Eu resolvi TENTAR. Tentei demais. Umas vinte ou trinta vezes.

- Eu sei. Ela sussurrava, gemendo, beijando e acariciando meu peito; eu não ligo, ela disse, enquanto mordiscava meu ventre e meu ego.

Aquela respiração que ficava pesada me impelia à ação, eu não desejei falar mais nada, mas alguma parte de mim reclamou controle: havia fome de mundo.

- Você é um farsa ruiva.

- Sou? Ela falou fingindo choro e apertando meu cabelo com força.

- É sim. Você é uma estrela. Estrelas brilham mas já morreram. Morreram há muitos anos atrás.

- É bom ser imortal, ela falou, erguendo os joelhos e me beijando como se tivesse finalizado um ritual, já feliz e recuperada.

- É. Você é uma supernova. Queima como um cigarro, mas é algo mais violento.

- Cigarros acabam, falei, sem acreditar muito nas próprias convicções.

- Amores também, ela complementou, corretíssima.

Virei as costas para acender o primeiro cigarro da noite, e tudo sumiu, a ruiva, o isqueiro, o copo de cerveja, o bar. Foi como se eu estivese me respirando.

Só me sobrara o ônibus e aquela música, que dizia que o que me fazia feliz e me salvava era apenas um punhado de rosas sem sentido.

E aquela esperança retornava sempre vermelha: supernova,supernova, la roja, la roja, eu delirava…

- Ruiva, ainda vamos nos encontrar novamente.

- Vamos sim Durden.

 Neste ponto, me despedi e bebi toda aquela cerveja miserável do destino.

O que eu gosto

O que eu gosto no teu corpo é aquela mentira chamada amor.

O que eu gosto na tua verdade é quando você faz do amor a parte silenciosa e febril deste teu corpo.

Eu gosto de você por inteira.

Corpos sem Medo

Daquele modo, o mesmo que nunca combinávamos de antemão ou que de nenhuma maneira treinávamos, conseguiámos funcionar maravilhosamente bem, à despeito de em nosso ceticismo cotidiano não acreditarmos bem, como uma coisa que nunca foi treinada ou planejada pode funcionar de forma tão perfeita, tão harmoniosa e tão honesta quanto nossos corpos funcionavam quando encontravam-se.

Mas se algo funciona, funciona normalmente por um objetivo, e nós, iconoclastas natos, não tínhamos nenhum: acariciávamo-nos, beijávamos nossas frontes e empoleirávamos nossas pernas e braços, e dedos, e desejos, e íamos montando toque sobre toque, derme sobre derme, aquele castelinho de cartas que caía como um assoprão à cada orgasmo mais forte. E eram seis ou sete ou onze por noite(acreditem os céticos), mas retornavam com aquela fome mútua que nos permitia esquecer as roupas e as ansiedades no chão; e então voltávamos a buscar mais orgasmos de maneira perfeita e harmônica  e nossos corpos se encontravam novamente naquela penumbra, quando a coisa toda, então deixava de ser uma promessa para virar uma orquestra.

E sim, era aí roja, era aí roja, que a música dos corpos misturava-se à melodia do coração, era aí que o mundo dobrava-se naquele cômodo como uma coisa assim, tão fácil de ser guardada ao lado do coração.

Nos juntávamos como as cartas, e havia um ponto que o cômodo e o baralho de coisas cotidianas que faziam-nos distintamente diferentes traçavam a estrada que apontavam para as distâncias, para os quilômetros de geografias implacáveis, para aquilo tudo que chamavam nos intervalos do metrô de realidade.

E aí advinha aquela lembrança, só nossa, aquele suspiro, aquele olhar, aquele universo inteiro delineado naquele pedaço de mundo que nós chamamos de paixão; mas escute, escute, antes que mais alguma fé resolva calar nossos corpos, aquilo tudo, aquilo tudo era paixão, era uma paixão sem medo, pois paixão com medo a gente chamava na distância, era de rotina.

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