E me diga se há alguém ou algum fracassado que falhou em falhar?
E me diga se há alguém ou algum fracassado que falhou em falhar?
Quando a estabilidade abandona o corpo pela porta da frente, diante daquelas cervejas, daquele cigarro amassado na caneca de café vermelha e com aquele gosto de insurreição psíquica varrendo o quarto, a gente se sente como um pedaço de coisa que não se encaixa no mundo, e é aí que vem o que se segue.
O metrô, a literatura, e os ideais da revolução francesa parecem ser uma forma preparada de escárnio, enquanto aquele corpo que já foi e passou pela porta da frente, privou-se de conviver com um espírito bêbado, sôfrego, que no fim da noite coça os cabelos e varre a cozinha em tom de decepção.
Quando sobra algum fôlego, um pedaço de final de semana serve para encaixar o mundo dentro de si; e de forma espúria, começamos a pender como verdadeiros imbecis à procura de um pedaço de mundo que se encaixe conosco.
Mas na verdade as coisas não se encaixam; as vergonhas, a saudade, e até a desilusão amorosa que não é tão amorosa assim quanto rezam os manuais.
Neste ponto, cortamos o pedaço de pão, pegamos o metrô, subimos as escadas, lembramos das mesmas piadas e até nos incomodamos de ler os mesmos livros.
Quando a estabilidade abandona a porta da frente, a gente se sente assim, com vontade de estilhaçar o mundo e comer de manhã, junto com aquela cafeína preparada pela rotina e por aquele absurdo que chamam de tempo, o que faltou de chamarem de humano.
Suicídio ou Reestabelecimento? Reestabelecimento é óbvio. Mas quem disse que reestabelecer-se é retornar ao original?
Não há estado original, tudo se modifica: as células do corpo, o comportamento, os medos, as decepções, as esperanças, o pão de manhã e o modo com que se sorve o café.
Viver é matar-se todos os dias, e isso não é ruim, pois tem dias que a gente mata aquela parte da gente que impede a felicidade de respirar. Mas a felicidade é um pequeno arranjo de uma sinfonia que possui tristeza, cansaço, desilusão; a felicidade é um pequeno solfejo que percorre a melodia. E a gente tem de saber o que quer tocar. Cada um escolhe a música que quer tocar, e cada música pode ter mais felicidade, mais solfejo, mais tristeza.
Mas a gente não escolhe os instrumentos. E tem gente fudida que não ganha nem um tambor; e de um berimbau tem de tirar acordes, que não existem.
Essa parte eles não falam; essa parte eles escondem por trás da cortina e enfiam na cabeça da gente que todo mundo nasceu pra ser violino.
E em determinado momento, as pessoas fingem que a vida está andando.
E para isto casam, resolvem ter filhos, divorciam-se, ou pegam algum papel que diga que depois de quatro anos estão aptas a exercerem uma profissão.
Algumas param de frequentar certos lugares e começam a frequentar outros, vestem-se de outra forma, selecionam as amizades e amores de acordo com determinados padrões que indiquem que só conhecem e andam juntos daqueles que também possuem uma vida que avança: precisam balizar o “movimento” com determinados rituais e ocasiões especialíssimas.
Seria completamente inadequado compartilhar a companhia dos que não fazem a vida andar: aqueles que não tem filhos, os malditos que nunca casaram, os imaturos que continuam a usar as mesmas roupas e frequentar os mesmos lugares; que ainda escutam aquela canção, aquele acorde, e que ainda sentem o mesmo arrepio percorrer aquelas dermes cansadas.
São estes, os miseráveis de barba e vergonha por fazer, que insistem na burrice de não fazerem suas vidas andar, estes tolos, que acabariam nos demonstrando pelo exemplo prático e inoportuno que as vidas jamais andam e isto seria completamente mau.
E à partir de um apelo dolorido e confuso provocado por estas companhias, é que se demonstraria evidente, o fato de nossas vidas também não andarem; teríamos então esta irremediável certeza de saber que nada, nada neste mundo anda, e que tudo é criação, ilusão de nossa vontade de ver algo mudar.
Todas estas ilusões institucionalizadas para fingir movimento, acabariam pela companhia dos bárbaros que não querem que a vida ande, nos dizendo o contrário do que gostaríamos, e chegaríamos à conclusão que o movimento, é apenas o instante, e portanto o instante é a memória, fixa como um pedaço de aço e portanto imóvel, que nós por ilusão e medo da obviedade de nada modificar-se, transformamos em movimento.
No final das contas, sem os casamentos, as crianças, as roupas de adultos e os empregos que fingem maturidade, saberíamos, que a vida, a vida é um instante o tempo todo seu tolos.