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Realpolitik do amor

Ruiva, prendi você numa caixinha em formato de coração. Enterrei bem fundo, bem fundo, ruiva. Cavei muitos buracos, e chovia. Cavei para esquecer onde enterrei. Onde enterrei teu coração.

Aí te acompanhava de longe. Era uma carta, era uma poesia. Uma notícia distante, uma carta. Era eu aqui, cheirando e beijando outra pessoa, pensando em você. Cheirando tuas cartas.

Quando tudo se aquietou eu lembrei quer era permitido sonhar. Num sonho, ruiva, eu desenterrava a caixinha, mas não encontrava nada dentro. As caixinhas estavam vazias. E alguém me dizia que na verdadeira, estava meu coração, não o teu. Ruiva, não consigo mais escrever. Perdi você e as letras. Enterrei meu coração e não sei onde está ruiva.

Você vai correr e se esquecer de mim. Eu vou envelhecer, morrer, sonhar. Não importa. O fato é que não nos encontraremos mais por que ambos somos covardes. Eu vou envelhecer e me arrepender; pois é isso que fazem os covardes.

Tentar viver uma ilusão é necessário. A realpolitik do amor é o presente, e o presente não voa como você voava, assim, num susto de verão.

Estou bem ruiva, mas falta-me uma dose de acaso, de você, da tua pele branca e do teu cheiro vermelho assim, espalhado no quarto depois do sexo. Falta aquela mordida, aquela recusa, e por que não dizer; que falta você tão instável, fazendo-me escrever repetidamente sobre algo que não se pode mais cavar, por que está enterrado num lugar que eu definitivamente já esqueci.

Não tenho mais pá, por que cavar a si próprio dói demais.

Dos farelos da memória

Acordei e escovei os dentes.

O mais difícil era acordar. Gostava mesmo era de dormir.

E aquela ferrugem nas mãos, aquele gosto de sal na boca, aqueles lábios ressecados e aquela taquicardia crônica agravada pela memória do olfato.

E a ruiva onde estava?

Mais uma carta devolvida. Mais um endereço errado. Mais uma desesperança que chegava sempre na hora do café. Foi-se. Perdeu-se no mundo.

Enlouquecer era fácil, morrer também; mas viver, viver era para os mestres, ou para os estetas.

E os farelos de pão sobre a mesa.  Mais um envelope rasgado.

Agora chega, hoje eu não saio de casa.

Gostava mesmo era de dormir.

Voando

Já tenho sua música e sua magia.

Não preciso mais de você.

Toco teu lábio ruiva

Toco teu nome com o lábio de minhas palavras.

Digo sussurrando, quase com medo: Roja, roja, roja.

Deslizo meus dedos por entre tuas vírgulas.

Tuas formas, mentirosas, esquivas.

Aquelas partes tuas inacessíveis parecem me amplas e infinitas. O tempo não passa, fica.

Teus pés; meus pés se tocam. Tocam o infinito.

Entrelaçamo-nos. Sentimo-nos. Trocamos cheiros. Construímos nossos castelos. Montamos e desmontamos tudo: você também nega.

Vez ou outra você me caça. Eu adoro. Mentimos juntos.

Te beijo. Imaginando outra. É amor.

Amor é toque. Não me sinto culpado.

No final de tudo fugimos, fugimos, fugimos.

E o nó no coração continua lá, continua lá nos tornando iguais.

Universo Vermelho

Foi na segunda cerveja que aquele milagre aconteceu.

- Tem cigarro?

- Não eu não fumo, falei.

- Tem isqueiro?

- Tenho, mas pra quê isqueiro se você não tem cigarro, sorri bebendo a cerveja.

- E pra que ter um isqueiro se você não fuma?, ela falou.

- Pra poder ser atencioso, prestativo, repliquei. Gosto de ser prestativo.

- Cruz Vermelha ou exército da salvação? ela falou sorrindo brevemente e tirando um cigarro do bolso.

- Nenhum dos dois, divisão dos prazeres, segundo setor.

- Entendi, a lógica é chegar a um denominador comum: gostos em comum. Já adianto que nunca vi Laranja Mecânica. E achei Amélie Poulain um porre.

- Que bom. De clichê já basta uma pessoa, costurei.

Nesse momento achei que tudo ia acabar aí; e se acabasse não seria mágico, mas seria terrível, seria terrível como readmitir um mundo que estava prestes a acabar.

- Você é aquela ruiva que gostava de jazz e bebia cerveja importada não é?

- Quase isso, agora eu sou morena e má. Também não gosto mais de jazz; eu prefiro dançar. Gosto de tinta de cabelo.

- Odeio dançar.

- Eu sei, ela emendou laconicamente. 

(Percebi que aquele desastre me conhecia.)

- E agora?

- Agora você me beija.

- E a minha dor?

- Guarda do outro lado do peito.

- Ruiva?, falei com aquele formigamento e rouquidão invadindo minha garganta e meus poros.

- Fala, ela disse ronronando com nossos lábios impositivos se tocando; e foi nessa hora que achei-a frágil demais, muito mais frágil do que eu, na primeira vez que nos encontramos.

- Eu não te esqueci. Por todos esses anos. Eu não te esqueci… soltei.

- Nem eu herr Durden, nem eu, ela disse, com aquela voz sussurada no infinito dos nossos corpos nos tocando. E seus dedos tocavam nos meus, nos acariciávamos completamente entregues, apesar de que a cada palavra havia mais a descortinar, a descobrir, a se devassar.

A última frase soara tão amorosa, mas pensei que talvez a gente visse apenas o que quisesse ver, e foi assim que agarrei a lata de cerveja e amassei na mão tamanha minha fragilidade e fé. Aquilo tudo passou na minha cabeça de uma vez. Até que comecei a falar.

- Depois de você conheci algumas pessoas.

- Eu sei, eu imaginei, ela disse passando as mãos por sob a minha camisa.

- Depois de você eu resolvi pintar, escrever. Eu resolvi TENTAR. Tentei demais. Umas vinte ou trinta vezes.

- Eu sei. Ela sussurrava, gemendo, beijando e acariciando meu peito; eu não ligo, ela disse, enquanto mordiscava meu ventre e meu ego.

Aquela respiração que ficava pesada me impelia à ação, eu não desejei falar mais nada, mas alguma parte de mim reclamou controle: havia fome de mundo.

- Você é um farsa ruiva.

- Sou? Ela falou fingindo choro e apertando meu cabelo com força.

- É sim. Você é uma estrela. Estrelas brilham mas já morreram. Morreram há muitos anos atrás.

- É bom ser imortal, ela falou, erguendo os joelhos e me beijando como se tivesse finalizado um ritual, já feliz e recuperada.

- É. Você é uma supernova. Queima como um cigarro, mas é algo mais violento.

- Cigarros acabam, falei, sem acreditar muito nas próprias convicções.

- Amores também, ela complementou, corretíssima.

Virei as costas para acender o primeiro cigarro da noite, e tudo sumiu, a ruiva, o isqueiro, o copo de cerveja, o bar. Foi como se eu estivese me respirando.

Só me sobrara o ônibus e aquela música, que dizia que o que me fazia feliz e me salvava era apenas um punhado de rosas sem sentido.

E aquela esperança retornava sempre vermelha: supernova,supernova, la roja, la roja, eu delirava…

- Ruiva, ainda vamos nos encontrar novamente.

- Vamos sim Durden.

 Neste ponto, me despedi e bebi toda aquela cerveja miserável do destino.

Sobre as lembranças que retornam com força

navegantesQuatro horas da manhã e foi assim, de repente, que eu me lembrei de você.

E por que eu não lutei por você? Por que eu passei por cima do meu desejo com minhas morais libertinas, morais libertárias, que me diziam, respeite o desejo do outro, da outra! E foi assim que eu te respeitei, mas o que você queria era alguém abusado pra romper aquele seu mundo cinza, alguém que não respeitasse aquela promessa vazia que você fez exatamente para ser quebrada.

Mas agora, eu estou aqui; bebendo cerveja e morrendo.

É neste exato momento que eu posso sentir aquelas emoções, apesar de não sentir nada na maioria das vezes.

É por isto que eu estou aqui, às quatro horas da manhã fingindo que a poesia me salva do medíocre mundo que eu inventei para mim e que você definitivamente consolidou no meu coração de madrugada.

(R. Vendetta Soto Mayor fala sobre o amor que ele perdeu)

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