Foi na segunda cerveja que aquele milagre aconteceu.
- Tem cigarro?
- Não eu não fumo, falei.
- Tem isqueiro?
- Tenho, mas pra quê isqueiro se você não tem cigarro, sorri bebendo a cerveja.
- E pra que ter um isqueiro se você não fuma?, ela falou.
- Pra poder ser atencioso, prestativo, repliquei. Gosto de ser prestativo.
- Cruz Vermelha ou exército da salvação? ela falou sorrindo brevemente e tirando um cigarro do bolso.
- Nenhum dos dois, divisão dos prazeres, segundo setor.
- Entendi, a lógica é chegar a um denominador comum: gostos em comum. Já adianto que nunca vi Laranja Mecânica. E achei Amélie Poulain um porre.
- Que bom. De clichê já basta uma pessoa, costurei.
Nesse momento achei que tudo ia acabar aí; e se acabasse não seria mágico, mas seria terrível, seria terrível como readmitir um mundo que estava prestes a acabar.
- Você é aquela ruiva que gostava de jazz e bebia cerveja importada não é?
- Quase isso, agora eu sou morena e má. Também não gosto mais de jazz; eu prefiro dançar. Gosto de tinta de cabelo.
- Odeio dançar.
- Eu sei, ela emendou laconicamente.
(Percebi que aquele desastre me conhecia.)
- E agora?
- Agora você me beija.
- E a minha dor?
- Guarda do outro lado do peito.
- Ruiva?, falei com aquele formigamento e rouquidão invadindo minha garganta e meus poros.
- Fala, ela disse ronronando com nossos lábios impositivos se tocando; e foi nessa hora que achei-a frágil demais, muito mais frágil do que eu, na primeira vez que nos encontramos.
- Eu não te esqueci. Por todos esses anos. Eu não te esqueci… soltei.
- Nem eu herr Durden, nem eu, ela disse, com aquela voz sussurada no infinito dos nossos corpos nos tocando. E seus dedos tocavam nos meus, nos acariciávamos completamente entregues, apesar de que a cada palavra havia mais a descortinar, a descobrir, a se devassar.
A última frase soara tão amorosa, mas pensei que talvez a gente visse apenas o que quisesse ver, e foi assim que agarrei a lata de cerveja e amassei na mão tamanha minha fragilidade e fé. Aquilo tudo passou na minha cabeça de uma vez. Até que comecei a falar.
- Depois de você conheci algumas pessoas.
- Eu sei, eu imaginei, ela disse passando as mãos por sob a minha camisa.
- Depois de você eu resolvi pintar, escrever. Eu resolvi TENTAR. Tentei demais. Umas vinte ou trinta vezes.
- Eu sei. Ela sussurrava, gemendo, beijando e acariciando meu peito; eu não ligo, ela disse, enquanto mordiscava meu ventre e meu ego.
Aquela respiração que ficava pesada me impelia à ação, eu não desejei falar mais nada, mas alguma parte de mim reclamou controle: havia fome de mundo.
- Você é um farsa ruiva.
- Sou? Ela falou fingindo choro e apertando meu cabelo com força.
- É sim. Você é uma estrela. Estrelas brilham mas já morreram. Morreram há muitos anos atrás.
- É bom ser imortal, ela falou, erguendo os joelhos e me beijando como se tivesse finalizado um ritual, já feliz e recuperada.
- É. Você é uma supernova. Queima como um cigarro, mas é algo mais violento.
- Cigarros acabam, falei, sem acreditar muito nas próprias convicções.
- Amores também, ela complementou, corretíssima.
Virei as costas para acender o primeiro cigarro da noite, e tudo sumiu, a ruiva, o isqueiro, o copo de cerveja, o bar. Foi como se eu estivese me respirando.
Só me sobrara o ônibus e aquela música, que dizia que o que me fazia feliz e me salvava era apenas um punhado de rosas sem sentido.
E aquela esperança retornava sempre vermelha: supernova,supernova, la roja, la roja, eu delirava…
- Ruiva, ainda vamos nos encontrar novamente.
- Vamos sim Durden.
Neste ponto, me despedi e bebi toda aquela cerveja miserável do destino.