Ana Cristina queimou Hélio Oiticica


- Depois de queimar as obras de Hélio Oiticica você desceu. Por onde você desceu?, inquiriu Nélio.

- Querido, eu não sei, pois no exato momento que eu olhei a chama crescer, eu tropecei na garrafa de abscinto, oitenta reais jogados fora, e aí minha memória se esvaiu com o líquido verde e os culhões do Hélio ali, largados na calçada.

- Quem te dava apoio? O motorista do carro que te pegou, fale sobre ele.

- Amor, eu estava com uma música incessante do Young Marble Giants na cabeça. A coisa se repetia, se repetia e batia forte nos tímpanos, e aí alguma voz me disse, queima tudo, queima aquela merda toda! Bota fogo nesse pós-modernismo de quinta! Era quase como uma rave.

Pausa. Olharam juntos a caneca vermelha, tudo naquela delegacia parecia arte-noveau. A latrina da 14 Dp então, virou Warhol sem vírgulas, sem línguas.

Soares,  sensível e compenetrado oferece água para Ana. Ela bebe de sopetão, no fundo dois ou três observadores, mas na cabeça havia dire straits, iogurte natural e aquele calor, aquele calor que crescia junto com a memória e com aquela vontade de voltar lá e repetir tudo novamente.

- No mínimo quinze anos se você não colaborar. Quinze. Facilita. Diz logo pra mim que a gente encerra tudo, falou Soares, ressaltando a voz com uma ênfase que agradaria seus professores de literatura brasileira.

- É bem provável que você consiga pagar fiança ainda hoje. Vai dormir em casa Aninha, pontua o major, infantilizando-se freudianamente.

- Não tenho dinheiro Soares. Sua farda de merda não me faria ter dignidade suficiente para me obrigar a te responder. Cansei disso tudo; se você quer respostas filho, procura um psicanalista, minto, psicoterapeuta jungiano ou faz prova pra PM de novo meu amor: ainda há tempo.

- Por enquanto, só posso dizer que queimei aquela merda toda por que alguma coisa me disse, Aninha, Aninha, queima aquela merda, queima logo, antes do Natal; mas eu não tinha como adivinhar que a coisa ia ser tão fácil assim, meu querido.

Com o corpo cabisbaixo, ela respira e levanta metade do corpo. Um sorriso estridente toma conta do lugar, ela pede o isqueiro, Soares permite, mesmo com o medo daquele símbolo da BIC que se avolumava diante da proporção dos fatos. Ela acende, traga, e decide falar, cuspindo a fumaça, e lembrando do vestido vermelho que esqueceu na corda, molhado.

- Se eu fosse organizada, te provaria, que Hélinho, dois anos antes de morrer deixou um documento escrito com sêmen e sangue de puta, me permitindo queimar a obra dele toda se o mundo virasse um parangolê gigante. Como sou uma filha da puta desorganizada, estou aqui dentro, jogando papo fora, papo torto e me punindo por não ter guardado aquela merda toda.

- Na verdade eu fumei o documento cinco meses depois.

O oficial colocou as mãos nos bolsos, estava desistindo, apesar da valentia.

- Você não quer colaborar, vou ter de te levar.

- Soares?

- Diga.

- Anota essa merda aí: queimei aquilo tudo, porque eu sempre odiei os patrões.

- Patrões?

- Sim porra. Os que moram no Jardim Botânico, teus patrões. Detesto aquele bairro maldito.

- Me dá agora mais um cigarro, e me diz que me ama seu puto, me chama de parangolesa. Me chama de Hélia Oiticica meu menino pirofágico – e começou a rir para o ócio daqueles policiais militares que nunca escutaram falar de Zélio Oititica na vida, como bem tinha relatado o escrivão.

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