Emigrou

Rafael Vendetta

Maldito mundo novo. Que separa as pessoas por dias ou semanas, e linhas imaginárias. Mais de dois dias e você vira um peixe. Duas semanas e já passou do prazo, e começa a feder.  

No início, o seu sotaque e a cidade do raio-que-o-parta são interessantes na roda de conversa, como um gif de buldogue japonês de língua-azul e que faz parte do enredo dos que tem tempo para lhe escutar. Mas extrapolada a dead-line da novidade ou do abuso, você é só mais um comum que não sabe falar cadeira em búlgaro. E na rotina frenética dos bancos e dos que quebram bancos, ninguém tem tempo para tentar lhe ensinar a falar love-you-tear-us-apart em Cantonês porque empatia é cara meu amor e é paga hoje, em bit-coins. Veja bem. A coisa anda rápido e não espera você se decidir em que mundo vai morar. Ninguém tem mais tempo pra isso. O globo não é mais aquele encontro gentil e desinteressado do século XVI.  O mundo é hostil. É uma distopia do Marck Zuckerberg dirigindo um tanque de guerra movido à curtidas.

Demorei dois meses para aprender a mandar alguém pro inferno. Perguntei a Matias como eu falava e ele me disse: –  Está falando bem estrangeiro.  Mas era mentira.  Matias só estava sendo gentil com alguém de fora da linha. Era assim que tinha de ser. Esse era o papel de  Mathias.

Às vezes só se quer comer doce de leite e se integrar. Mas não é fácil. Isso demora muito. E eu, na apatia crônica do pequeno mundo, decidi mudar a linguagem de programação pra tentar me integrar-entregar. Achei que falar do que deixei para trás ia acabar com as minhas contradições de classe, que idiota. Em duas semanas isso se tornou tedioso  e eu achei que ia quebrar meus dentes apertando uns contra os outros, com tanta força, que achei que a tristeza iria sumir.

Com os dias cinzas passei a não conseguir mais acordar de manhã. Ninguém me ligava porque eu era um estranho. Eu vivia no silêncio e de manhã me silenciava. Tentei melotonina, álcool, efedrina e tarot. Nada me salvou. Passei a dormir quando eles andavam e falavam entre si. Comecei a pensar nas linha imaginárias que guardavam meus dias. Joguei i-ching e torci pela vitória do time de futebol da Albânia. Nada me ajeitou.

Não sabia mais morar no meu mundo. A moeda da vida me quebrou. E ela pedia demais. O banco dos sentimentos andou rápido e cada dia, a cobrança chegava pelo final da tarde.

O mundo era hostil. Não podia pagar. Que me enterrem num lugar onde não consigam ler meu nome. Não sei em que mundo vou morar. Não sei mais falar esse idioma. Desisti de aprender.

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Manifesto do Partido Depressivo – parte I

Rafael Vendetta

Um espectro ronda todas as camas – o espectro da depressão. Todas as potências do velho mundo unem-se numa Santa Aliança para conjurá-la: o psiquiatra e o psicólogo, Diazepam e Vicodin, os hipócritas do bar e os abstêmios dos lares.

Que pessoa com dificuldade de dormir não foi taxada de depressiva pelos que hoje acordam alegremente pela manhã? Qual o matutino que também não lançou contra os vespertinos sistemáticos ou ocasionais o estigma de depressivo?

Onde está o ser humano que não foi vilipendiado pelas suas angústias do cotidiano como depressivo, onde está o ser humano que não tivesse jogado de volta, tanto contra os seus fantasmas internos, a recriminação estigmatizante da depressão?

Duas conclusões decorrem desse fato:

1a. A depressão já é reconhecida como força por todas as potências da Europa;

2.a. É tempo dos depressivos exporem, à face do mundo inteiro, seu modo de ver, seus fins e suas tendências, opondo o inconsciente depressivo à lenda do espectro da depressão. Com este fim, reuniram-se virtualmente, depressivos de várias nacionalidades e redigiram o manifesto seguinte, que será publicado em inglês, francês, alemão, italiano, esperanto e dinamarquês.

[Continuará]

Depressivos de todo o mundo, uni-vos!

 

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Photo: Inka Niclas.

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Acumular amigos

Meus amigos. Cresci mais do que eles. Voei, voei. Como um balão de hélio, subi demais. Quando tentei descer, eles iam no caminho contrário como camelos. E eu fui me enterrando. Bem no fundo. Quanto mais eu me enterrava, mais amigos, virtuais, eu tinha. Quinze, vinte e seis, duzentos e dezenove, mil e cinquenta e três. Quanto mais eu acumulava amigos, menos eu os via. Não conseguia mais falar com eles.

Chegou um tempo em que era difícil saber como se fazia amigos. Chegou um tempo em que eu não falava mais nada e resolvi calar, porque falar era cansativo. E aí eu passava a noite ouvindo música suja com vodka ou jazz. E quanto mais eu me enterrava, parecia voar. Bem no fundo, eu sentia que esperava uma mão para me tirar da lama. A mão nunca chegou. Cinco ou seis minutos. Era o que me restavam. Eu tinha prometido que sobreviria. Sobrevivi a tudo: ao colégio, aos encontros estudantis, aos joelhos dobrarem com Vicodin no fundo. Sobrevivi aos almoços de família.

Pedir piedade era uma saída, mas não, não consegui falar com eles. Eu só queria falar e ouvir. Dignamente. Sem esperar a vez de falar.

Mas eu voava, e me perdia, enterrado, como um balão de hélio: pesado e sem rumo

 

1074 amigos na internet

Rafael Vendetta

Roberto tem 1074 amigos virtuais nas redes sociais. Que mentira. Roberto não tem ninguém. Quanta pessoas dessas visitaram Roberto em sua casa? Com quantos Roberto trocou mais palavras que mensagens no celular? Quem foi visitar Roberto? Quem o olhou nos olhos com o feed desligado? Qual deles comeu, cozinhou e conversou com Roberto sob a luz do luar? Quem ouviu suas súplicas pessoalmente e com o computador em mudo? Quem o ajudou a superar o insuperável e tardio espírito da noite e da insônia?

Quantos dos amigos virtuais visitaram Roberto quando ele adoeceu? Quantos levaram remédios? Quantos visitaram-no por amá-lo, não por obrigação? Quem ajudou Roberto quando ele cortou os pulsos (e ninguém comentou)?

Quem lamentou sem postar seu lamento como um troféu, uma placa para si próprio? Quem fez propaganda no testamento de Roberto? Quem disputou likes, quando transferiram #roberto para o instagram do hospital?

Quantos postaram selfies na UTI com Roberto? Quantos marcaram sua localização no velório de Roberto? Quantos carregaram seus celulares no caixão e mantiveram seus egos desligados?

Quantos desgraçados, por fim, perceberam que Roberto morreu por um post no face-truque.

Quantas pessoas virtuais excluíram Roberto do nosso mundo?

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Quem o olhou nos olhos com o feed desligado?

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Há dias que são outonos

Rafael Vendetta

Não sei como começar a falar de um outono, a não ser deixando minhas folhas e palavras caírem, como uma árvore que deixou de ser e vai perdendo folhas (e fica nua), como você um dia vai perder (ore aos céus para não cair o caule meu amor). Vou deixar cair folha a folha, no meu tempo, para ver se você, que não passa por um outono, compreenda: há dias que são outonos. (Anote isto na sua caderneta de final de semana, aproveita e anota meu nome <<se lembrar>>) 

Pare de dizer que você se preocupa, quando essa palavra, para você significa mais uma oportunidade de tomar distância e ainda lavar a consciência. Não lave a consciência comigo. Tenha mais respeito. Se pensar em fazer isso, desligue o seu telefone e finja que está dormindo; é melhor (eu faço isso). Eu estou vivendo um outono. Não me ligue. Viver um outono é algo sério. Muito sério. Eu não quero receber alguém, com chá e torradas, que simplesmente espera a vez de falar. Isso já foi feito, muitas e muitas vezes. Não faça isso de novo. Tenha outonoriedade. Me respeita porra.

Sim, eu sei, você vai me ligar. Vai insistir (uma parte). Vai me mandar uma mensagem. Sim, eu sei, talvez até com muito esforço (como você é generoso/a não?), você irá marcar uma conversa, vai me marcar. Mas não. Eu não quero: não dessa forma. Se você não fez antes porque fará agora? Não faz sentido. Agora é meu outono. Você deveria ter chegado no verão ou na primavera… Viver um outono é se proteger. Eu estou me protegendo. Quando você se proteger eu juro, farei a mesma coisa para lhe privar da decepção. Mas por ora pare.

Eu vou fazer café. Vai ser muito difícil. Eu vou acordar. Vai ser terrível. Eu vou dormir, depois de protelar, protelar, protelar. E você? Você vai me procurar. Mas quando você fizer isso, eu já terei passado as piores fases do meu outono. E não é qualquer um que vive um outono pensando em levantar no dia seguinte.

Traga-me vodka e coca-cola. Traga-me uma fita vhs de 1999. Mande um disco do Nirvana pelos correios. Mas por favor, não finja que vai me ajudar no meu outono. Você não vai fazer isso. Se fizer vai fazer tudo errado. Por exemplo, entrando no timing errado. E se mesmo assim acertar, eu creio que você vai esperar sua vez para falar e seguir. É assim que todas e todos fazem. Porque os outonos não se encontram. A vida é assim. Pare de fingir amizade.

Foto: Neil da Costa in IGNANT (adapted to Black and White). http://www.ignant.de/

Foto: Neil da Costa in IGNANT (adapted to Black and White). http://www.ignant.de/

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O dia em que o cachorro amarelo fugiu

Rafael Vendetta

Tudo começou quando o amarelo fugiu. Haviam coisas mais importantes para fazer, mas o cachorro fugira e parte do sindicato se mobilizou porque aquela parte, uma parte sensível, acreditava que ele também era parte de tudo aquilo e não tínhamos de esperar a revolução mundial da oitava sinfonia internacional para mudar o que estava errado ali, naquele momento. O amarelo era tão digno como qualquer outro e outra, apesar de dizerem e fazerem o contrário. A sede do sindicato tornou-se um ponto de encontro e não foi pela revolução. Aquilo de fato, não nasceu do nada. Tampouco fora o cachorro que criou aquela situação. Cada grama de açúcar contribuíra ao seu modo para aquela mobilização, espontânea e planejada, planejada mas espontânea. Haviam relações de anos ali. Tomara-se litros e litros de café, que poderiam encher um pequeno riacho de solidariedade, até que à tarde, Alaiana se moveu, com quilos de açúcar no bolso, pegou o guarda-chuva e disse com a força nos dentes que lhe era característica: vamos procurar o amarelo!

À partir daí uma rede de solidariedade tecida por anos a fio, foi cobrindo o bairro, com pontos frágeis porém honestos, que alcançavam cada um ao seu modo, espaços do cotidiano, hora por hora, como um radar sensível a cada movimento do bairro, onde aquela rede que começou com Alaiana (a mais ativa), foi se reproduzindo e ganhou os cantos e quinas mais escondidos. 

Alguém sugeriu que pusesse um cartaz e uma recompensa. O cartaz foi aprovado, já a recompensa virou alvo de debate acalorado que tomou uma assembleia semi-lotada no fim da noite. No fundo, existia a questão de uma suposta natureza humana, apesar de se tratar de um cão. Havia a questão se o cachorro iria ser encontrado por Rosseau ou por Hobbes, até que uma companheira disse em sua lucidez que isso não era fundamental. O velho Pepe sublinhou em alto e bom som:

– Botem o dinheiro que for, isso não importa, só acharemos o amarelo com apoio mútuo e solidariedade e terminou com um soco na mesa, sob aplausos e algumas pessoas chorando.

Pronto, a pendenga se resolvera à favor de Kropotkin, pois o que faltava não era definir a natureza do problema, mas a ação. Depois de alguns meses, já no meu limite crítico de introversão, onde eu me fechava numa concha (apesar de temer o mar) resolvi entrar naquilo de cabeça. 

Depois de três dias de muito trabalho, eu fui encontrar Melina e os demais, até que me disseram que o cachorro se perdera por um descuido coletivo. Meu mundo começou a girar. E tive vontade de despejar minhas frustrações na assembleia (quem nunca teve?), mas me contive e aguardei o desenrolar das coisas. Confiei no instinto de transformação do mundo e me entreguei (apesar de pessoalmente disparar impropérios ao mundo sempre que possível). E lembrei do dia em que o amarelo chegou ali. Cambaleante, frágil e acuado com toda a reação do mundo. O mundo lhe parecia hostil. O mundo tinha lhe dado apenas amarguras e violências cotidianas. O amarelo respondia na sintonia que lhe cabia. Mas isso foi mudando, dia após dia, a solidariedade foi convertendo o amarelo num bom ouvinte, num bom companheiro. Era a ação concreta das pessoas (não uma suposta intenção, que tudo absolve) que o fazia reencontrar-se.

Semanas antes nada tinha mudado. Eu estava lá, no mesmo lugar. Olhei para o amarelo e senti que ele estava triste. Mexeu a cabeça e girou os olhos para baixo. Falei com o velho: – O amarelo está apático Pepe?

E parecendo dialogar conosco, o amarelo olhou para o nada, apático, moveu o pescoço e dormiu. Pepe dizia que os cães eram assim mesmo, que também precisavam ter seus próprios abismos e que a vida era assim, talvez nenhuma revolução mude isso, sublinhou com o saco de café nas mãos. Seguiu-se um debate acalorado onde o velho tremia a colher em riste e alguém perguntando em espanhol se a revolução fecharia ou não os abismos. Mas de fato, o resultado era inóspito.

Comecei a me sentir culpado. Até que o amarelo, alguns segundos depois, começou a se coçar vigorosamente para desespero da teoria do velho. Lambeu os lábios e pôs se a espreguiçar nos meus pés, simulando felicidade enquanto eu dizia que Pepe estava errado e alguém lhe deu um apertão nas bochechas. Ali percebi que apesar da comemoração de fora para dentro, quem estava triste era eu e que Pepe falava, sem saber, de mim. 

– Ele me olha com tristeza, veja Pepe. O cachoro sonda algum abismo do mundo.

– Pare de falar besteira estrangeiro, o cachorro está cansado, como eu, porque é velho.

O amarelo dormia e eu ficava acordado. Ele sonhava ou gania durante o sono e quando eu encostava minhas mãos no seu pelo ele se movia abruptamente. Era um cachorro angustiado, tal como eu e passei a insistir nessa tese sempre que via o velho. 

– Pepe, o cachorro é meio angustiado…

– Ele só está cansado estrangeiro, ele correu por todo o quintal. Vá para a gráfica, pare de inventar essas histórias e batia na mesa com rudeza e um sorriso que fechava o meu dia.

A análise de Pepe e a minha virou um caso de esgrima pessoal. Alguns embates se seguiram, sem nenhum vencedor.

E quando eu dizia isto a outros do sindicato, riam ou não acreditavam que era possível existir um cachorro angustiado. “Pare de projetar no cachorro suas emoções, diziam, é só um cachorro”. Mas eu respondia, falando que não. Eu não projetava nada. Quem duvida que pode haver um cachorro angustiado no mundo? Vocês estão errados e não vêem nada. Só vêem o que querem ver: um cachorro que segue sua natureza. Mas e se esse não seguisse? 

Mas o mundo seguia. As vizinhas e vizinhos procuravam o cachorro dia após dia e nisso eu me deprimia, apesar de para o mundo, parecer ativo, altivo, quase que invencível com a marcha da utopia nos ombros. Mas no fundo não conseguia me mover. Estava paralisado. Tudo parecia lento e silencioso apesar de acreditar na transformação e na procura do amarelo de maneira decidida, cada passo doía enormemente… Com isso passei a ignorar a luta, a organização, os piquetes, o café e até mesmo as tarefas do cotidiano: varrer, cozinhar, fazer a barba. Nada fazia sentido. Até que um dia tive uma crise. Um cão cinza mordeu minhas costas. Tomei analgésico por três dias e a dor não passou. O cão cinza latiu dentro do vagão do metrô. Latia até tirar meu ar. Eu não aguentei e saí. Procurei o ar e sentei no banco verde. O cão cinza deitou do meu lado e dormiu.

Saí, sentia que ele me perseguia e arfava dentro da minha cabeça. O amarelo ausente, já não era capaz de me dar certo horário, apesar de eu nunca ter tido nenhum. Passei a ficar ausente de tudo. E um dia, na noite, lembrei de Boris Wladimirovich, um russo-ucraniano que exilou-se na Argentina. Falecida sua companheira, foi viver de vodka e anarquismo em outro país. Acabou num sanatório, não porque era louco (e quem não era?), mas porque ao se fingir de louco tomou a atitude mais sã da Argentina dos anos 20: executar o carrasco da Liga Patriótica que matou Kurt Wilckens, outro angustiado, que por viver a angústia de ter assistido o fuzilamento de mais de 1500 trabalhadores pelo comandante Varela, não se aguentou. Largou seu pacifismo e justiçou o assassino em massa, Varela. Virou um herói do povo, mas foi morto por um membro da Liga Patriótica dentro da prisão, que para se safar, fingiu-se de louco e foi internado num sanatório. Só não contava com as angústias de Germán Boris Wladimirovich. Aquele russo introspectivo que decidido, sob seu cinza particular, resolveu não só as suas angústias, mas a de toda a classe trabalhadora argentina numa única jogada, com um revólver dado a outro preso.

E eu, não sei porque diabos, passei a pensar em Boris junto a um cachorro amarelo e um cinza. Em cima de seu féretro. Mas aí voltava a realidade. O cachorro amarelo não estava lá. Tinha se perdido. “É só um cachorro diziam”. A Revolução é o mais importante. Mas a revolução não chegava nunca. E ainda assim, eu tinha angústias a resolver, tal como Wladimirovich. Deprimido passei a odiar o mundo, mas vi que odiava apenas a forma com que parte do mundo estava organizado. O problema não era com a humanidade, mas com certos limites construídos, certas barreiras que atingiam mulheres e homens, certas violências cotidianas e estruturais. Eu não odiava o mundo, odiava a maneira com que o organizavam à força, as instituições e as relações.

Eu passei a ficar amargo como o café que Pepe passava no fim da tarde. Minha vontade era irritar-me com as/os demais, mas me lembrei que o cão cinza pode chegar pra todo mundo e eu teria de me acalmar e seguir. Ainda tenho a revolução, pensei. No fundo de minha alma, agarrava-me a utopia, como o único pilar, capaz de sustentar a incerteza do meu ser. Nos dias mais terríveis, perdia-me num cinza constante e era tragado pela tormenta dos dias, mas ainda tinha uma aposta no acaso. No fundo no fundo, não tinha nada. Mas sabia que iria deixar esse nada, essa esperança no possível, semear o solo para os próximos estrangeiros e estrangeiras. Minha dúvida era saber se sentiriam o mesmo que senti e se esses panfletos e promessas, conseguiriam cobrir seus abismos.

Num domingo de sol forte, o que me deixava ainda mais nervoso, pois eu sentia, tal como um estrangeiro que definitivamente aquele não era meu lugar, Melina entrou com lágrimas, ainda que contidas, nos olhos. “Encontraram o amarelo”, ela me disse apertando gentilmente uma das pálpebras. Nos abraçamos como se a revolução tivesse a caminho e eu corri, com vontade de chorar, em direção a ele. Sentia no entanto, que algo cinza me acompanhou. Aquilo me mudara, talvez a todos e todas ali, nunca saberei, porque só tinha a minha medida. Com problemas de saúde, amarelo passou a dormir na minha casa e pronto, minha vida mudou. Diziam que tinha um problema incurável, talvez no coração. Num misto de pena e deliberação coletiva, mandaram o amarelo para a minha casa.

Mal sabiam que o cão cinza, nesse período, passou a latir quando as pessoas falavam comigo. Eu passei a não entender mais o que elas diziam. Eu me esforçava, mas ele latia mais alto. E aí eu fingia que estava interessado e saía, até ele se aquietar e lamber minhas mãos. O cachorro cinza aparecia na ausência do amarelo (quando ele dormia no banheiro por causa do calor) e eu tinha de inventar desculpas pra todo mundo. Dizia que tive um problema ou que fiquei doente (nunca dizia qual era a doença, eu não tinha coragem) e faltava as reuniões sistematicamente. Era culpa do cinza. Eu inventava uma desculpa que as pessoas aceitavam, porque elas me viam de maneira distorcida e isto ajudava elas próprias a não receberem a visita do seu próprio cachorro cinza. 

Quando perguntavam do amarelo dizia que ele estava bem (e estava mesmo). Ele comia, andava e dormia. Talvez amarelo sentisse falta de Pepe e de Melina, ou tivesse uma tristeza habitual, mas no fundo ficava feliz em receber as saudações de um ou de outra no final do dia, sempre por cartas. Mas quando perguntavam sobre ele, sentia que eu lembrava um pouco de mim. Não sabia onde eu terminava e ele começava. Tinha também vontade de me perder como o amarelo, sair sem entender o mundo. Talvez tenha sido por isso que o amarelo fugiu. Aquele lugar não lhe bastava. Ele precisava se perder e recomeçar. Para depois recomeçar, como fez Boris.

A espiral de estranhamento voltava. Vez ou outra, pensei que tinha a superado e o cão cinza tinha partido e só o amarelo tinha ficado. Mas tal como um mecanismo incerto, sentia arrebatar meu peito, cindir-me em pedaços de mim que digladiavam-se pelo meu controle. Nessas horas nada havia a fazer. Nada me emocionava mais do que olhar para uma paisagem e sentir que o estranhamento tinha escapado; ainda que por um momento breve. Era a consciência dessa incerteza, que me fazia amar as paisagens. Olhava-as, como se olhasse para uma esperança, que apesar de nada me dizer, me confortava com as linha sinuosas do céu verde e do azul.

Ah sim, eu ainda tinha o amarelo a lamber minhas mãos e a empurrar a pata como se me abraçasse, isso me fazia esquecer o cinza do mundo, por um breve (e importante) momento. Talvez ele olhasse a paisagem e se angustiara um pouco. Quando falei disso, ninguém acreditou. 

– Veja Melina, o amarelo olha para paisagem como se tivesse um problema existencial…

Todos riram. E eu falava sério. Como numa conexão íntima com o amarelo e o cachorro cinza (este último aparecia quando queria) passei a olhar para o mundo. Tal como Wladimirovich, tomado de vodka e utopia transbordando seu esôfago, entreguei-me a angústia do mundo esperando o momento onde eu deveria cumprir meu papel. Fazia-o com o ar sombrio e constante de sempre. Mas não era preciso ser triste para ser militante?

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Não era preciso ser triste para ser militante?

INTERTEXTOS (ADAPTAÇÃO À PÁTRIA EDUCADORA)

Primeiro deixaram de pagar os terceirizados
Mas não me importei com isso
Eu não era terceirizado
 
Em seguida fecharam as escolas
Mas não me importei com isso
Eu já era formado
 
Depois cortaram as bolsas da graduação
Mas não me importei com isso
Porque eu já sou graduado
 
Depois cortaram as bolsas dos pós-graduandos
Mas como sou estatutário
Também não me importei
 
Agora estão me precarizando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
 
Rafael Vendetta

1989, o início

Rafael Vendetta

Um balão subiu com uma faixa verde e amarela pendurada. Nela se liam com letras garrafais: 1989. Essa foi uma das minhas memórias mais antigas. Eu devia ter seis, não mais do que sete anos (não me lembro o mês exato).

Minha primeira lembrança de 1989 se dá num domingo de manhã. Eu acordei cedo pra ver o pessoal da rua da minha avó soltar um balão. Eu me lembro da minha avó acordando cedo e fazendo café. Na época aquilo não era considerado incorreto (soltar o balão). Na época eu achava bonito (eu tinha 7 anos). A rua da minha avó não tinha asfalto. A casa dela era muito simples. Ela fazia uns bolinhos de chuva (na verdade, rosquinhas) quando íamos lá no domingo porque era barato.

A ideia de um grupo de gente simples fazer algo subir ao céu com tecnologia precária me fascinava. Sim. Os pobres também podiam tocar o céu. Apesar de criminalizarem anos depois essa prática. Podiam tocar céu. As pessoas podiam nos ver.  E enquanto isso, os que não nos viam faziam as eleições. Eram as primeiras eleições diretas no Brasil, desde 1960.

O Collor e o Lula iam para o segundo turno. Apesar de ter pouca idade, posso dizer que 1989 foi o ano que me trouxe a política. Eu assistia as propagandas eleitorais. Ouvia a família debater. Eram debates acalorados. E eu opinava caoticamente. Eles deixavam opinar. Não era uma assembleia. Não tinha inscrição. Era caótico. Todo mundo falava ao mesmo tempo. Mas se discutia política (mesmo que fosse eleitoral). Fui um filho das diretas e das consequências mais tardias da abertura, mas não sabia o que isso significava. Apesar de anos depois entender o que estava em jogo.

A nave robótica norte-americana Voyager 2 passava perto do planeta Neptuno. O presidente dos EUA, George H. W. Bush (o pai) anunciava o fim da guerra fria com Gorbachev e na China, um corajoso rebelde se punha na frente de uma coluna de tanques, diante o que viria a ser o massacre da praça da paz celestial. O muro de Berlim caía e a rua da minha vó continuava sem asfalto. Mas eu estaria mentindo, se dissesse que me lembro disso tudo. A memória mais marcante foi aquela rua, os bolinhos de chuva da minha vó e o balão. Eu me lembro também que tinha uma bicicleta e que quando eu andei pela primeira vez, aquilo foi muito mais importante que a queda do muro de Berlim.

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Alemanha_Futebol-Muro-de-Berlim

Insônia medieval

Rafael Vendetta

Os pombos e a insônia voltaram. Como a peste negra.

Que grudou nas minhas pernas e eu acordei medieval, almoçando sem garfos e facas,

comendo um pedaço de mim, barbaramente, até que me descobri,

cheio de sentimentos feudais, cuspindo o antigo regime pelas línguas do destino,

esperando o mundo acabar em 2001.

Os números primos me agradavam, pitagoricamente me agradavam,

com aquela inquisição de facebook a me comer os três estados

pela beirada da germânia dos comentários.

Até que um dia, cansado,

resolvi crescer e me guilhotinei emocionalmente num post bárbaro

com o vagalhão que pedia a cabeça do rei de 56 k, enquanto

eu crescia no mundo contemporâneo de mim mesmo

até, discutir, se era o meu sol que rodava em torno da terra, ou

se a terra cansava, e trazia-me em meu sol do meu perfil

[use protetor solar]