1074 amigos na internet

Rafael Vendetta

Roberto tem 1074 amigos virtuais nas redes sociais. Que mentira. Roberto não tem ninguém. Quanta pessoas dessas visitaram Roberto em sua casa? Com quantos Roberto trocou mais palavras que mensagens no celular? Quem foi visitar Roberto? Quem o olhou nos olhos com o feed desligado? Qual deles comeu, cozinhou e conversou com Roberto sob a luz do luar? Quem ouviu suas súplicas pessoalmente e com o computador em mudo? Quem o ajudou a superar o insuperável e tardio espírito da noite e da insônia?

Quantos dos amigos virtuais visitaram Roberto quando ele adoeceu? Quantos levaram remédios? Quantos visitaram-no por amá-lo, não por obrigação? Quem ajudou Roberto quando ele cortou os pulsos (e ninguém comentou)?

Quem lamentou sem postar seu lamento como um troféu, uma placa para si próprio? Quem fez propaganda no testamento de Roberto? Quem disputou likes, quando transferiram #roberto para o instagram do hospital?

Quantos postaram selfies na UTI com Roberto? Quantos marcaram sua localização no velório de Roberto? Quantos carregaram seus celulares no caixão e mantiveram seus egos desligados?

Quantos desgraçados, por fim, perceberam que Roberto morreu por um post no face-truque.

Quantas pessoas virtuais excluíram Roberto do nosso mundo?

2016-03-15_56e87d20ed354_Diego_Brambilla_01-670x893

Quem o olhou nos olhos com o feed desligado?

https://pseudocontos.wordpress.com/

 

Há dias que são outonos

Rafael Vendetta

Não sei como começar a falar de um outono, a não ser deixando minhas folhas e palavras caírem, como uma árvore que deixou de ser e vai perdendo folhas (e fica nua), como você um dia vai perder (ore aos céus para não cair o caule meu amor). Vou deixar cair folha a folha, no meu tempo, para ver se você, que não passa por um outono, compreenda: há dias que são outonos. (Anote isto na sua caderneta de final de semana, aproveita e anota meu nome <<se lembrar>>) 

Pare de dizer que você se preocupa, quando essa palavra, para você significa mais uma oportunidade de tomar distância e ainda lavar a consciência. Não lave a consciência comigo. Tenha mais respeito. Se pensar em fazer isso, desligue o seu telefone e finja que está dormindo; é melhor (eu faço isso). Eu estou vivendo um outono. Não me ligue. Viver um outono é algo sério. Muito sério. Eu não quero receber alguém, com chá e torradas, que simplesmente espera a vez de falar. Isso já foi feito, muitas e muitas vezes. Não faça isso de novo. Tenha outonoriedade. Me respeita porra.

Sim, eu sei, você vai me ligar. Vai insistir (uma parte). Vai me mandar uma mensagem. Sim, eu sei, talvez até com muito esforço (como você é generoso/a não?), você irá marcar uma conversa, vai me marcar. Mas não. Eu não quero: não dessa forma. Se você não fez antes porque fará agora? Não faz sentido. Agora é meu outono. Você deveria ter chegado no verão ou na primavera… Viver um outono é se proteger. Eu estou me protegendo. Quando você se proteger eu juro, farei a mesma coisa para lhe privar da decepção. Mas por ora pare.

Eu vou fazer café. Vai ser muito difícil. Eu vou acordar. Vai ser terrível. Eu vou dormir, depois de protelar, protelar, protelar. E você? Você vai me procurar. Mas quando você fizer isso, eu já terei passado as piores fases do meu outono. E não é qualquer um que vive um outono pensando em levantar no dia seguinte.

Traga-me vodka e coca-cola. Traga-me uma fita vhs de 1999. Mande um disco do Nirvana pelos correios. Mas por favor, não finja que vai me ajudar no meu outono. Você não vai fazer isso. Se fizer vai fazer tudo errado. Por exemplo, entrando no timing errado. E se mesmo assim acertar, eu creio que você vai esperar sua vez para falar e seguir. É assim que todas e todos fazem. Porque os outonos não se encontram. A vida é assim. Pare de fingir amizade.

Foto: Neil da Costa in IGNANT (adapted to Black and White). http://www.ignant.de/

Foto: Neil da Costa in IGNANT (adapted to Black and White). http://www.ignant.de/

https://pseudocontos.wordpress.com/

O dia em que o cachorro amarelo fugiu

Rafael Vendetta

Tudo começou quando o amarelo fugiu. Haviam coisas mais importantes para fazer, mas o cachorro fugira e parte do sindicato se mobilizou porque aquela parte, uma parte sensível, acreditava que ele também era parte de tudo aquilo e não tínhamos de esperar a revolução mundial da oitava sinfonia internacional para mudar o que estava errado ali, naquele momento. O amarelo era tão digno como qualquer outro e outra, apesar de dizerem e fazerem o contrário. A sede do sindicato tornou-se um ponto de encontro e não foi pela revolução. Aquilo de fato, não nasceu do nada. Tampouco fora o cachorro que criou aquela situação. Cada grama de açúcar contribuíra ao seu modo para aquela mobilização, espontânea e planejada, planejada mas espontânea. Haviam relações de anos ali. Tomara-se litros e litros de café, que poderiam encher um pequeno riacho de solidariedade, até que à tarde, Alaiana se moveu, com quilos de açúcar no bolso, pegou o guarda-chuva e disse com a força nos dentes que lhe era característica: vamos procurar o amarelo!

À partir daí uma rede de solidariedade tecida por anos a fio, foi cobrindo o bairro, com pontos frágeis porém honestos, que alcançavam cada um ao seu modo, espaços do cotidiano, hora por hora, como um radar sensível a cada movimento do bairro, onde aquela rede que começou com Alaiana (a mais ativa), foi se reproduzindo e ganhou os cantos e quinas mais escondidos. 

Alguém sugeriu que pusesse um cartaz e uma recompensa. O cartaz foi aprovado, já a recompensa virou alvo de debate acalorado que tomou uma assembleia semi-lotada no fim da noite. No fundo, existia a questão de uma suposta natureza humana, apesar de se tratar de um cão. Havia a questão se o cachorro iria ser encontrado por Rosseau ou por Hobbes, até que uma companheira disse em sua lucidez que isso não era fundamental. O velho Pepe sublinhou em alto e bom som:

– Botem o dinheiro que for, isso não importa, só acharemos o amarelo com apoio mútuo e solidariedade e terminou com um soco na mesa, sob aplausos e algumas pessoas chorando.

Pronto, a pendenga se resolvera à favor de Kropotkin, pois o que faltava não era definir a natureza do problema, mas a ação. Depois de alguns meses, já no meu limite crítico de introversão, onde eu me fechava numa concha (apesar de temer o mar) resolvi entrar naquilo de cabeça. 

Depois de três dias de muito trabalho, eu fui encontrar Melina e os demais, até que me disseram que o cachorro se perdera por um descuido coletivo. Meu mundo começou a girar. E tive vontade de despejar minhas frustrações na assembleia (quem nunca teve?), mas me contive e aguardei o desenrolar das coisas. Confiei no instinto de transformação do mundo e me entreguei (apesar de pessoalmente disparar impropérios ao mundo sempre que possível). E lembrei do dia em que o amarelo chegou ali. Cambaleante, frágil e acuado com toda a reação do mundo. O mundo lhe parecia hostil. O mundo tinha lhe dado apenas amarguras e violências cotidianas. O amarelo respondia na sintonia que lhe cabia. Mas isso foi mudando, dia após dia, a solidariedade foi convertendo o amarelo num bom ouvinte, num bom companheiro. Era a ação concreta das pessoas (não uma suposta intenção, que tudo absolve) que o fazia reencontrar-se.

Semanas antes nada tinha mudado. Eu estava lá, no mesmo lugar. Olhei para o amarelo e senti que ele estava triste. Mexeu a cabeça e girou os olhos para baixo. Falei com o velho: – O amarelo está apático Pepe?

E parecendo dialogar conosco, o amarelo olhou para o nada, apático, moveu o pescoço e dormiu. Pepe dizia que os cães eram assim mesmo, que também precisavam ter seus próprios abismos e que a vida era assim, talvez nenhuma revolução mude isso, sublinhou com o saco de café nas mãos. Seguiu-se um debate acalorado onde o velho tremia a colher em riste e alguém perguntando em espanhol se a revolução fecharia ou não os abismos. Mas de fato, o resultado era inóspito.

Comecei a me sentir culpado. Até que o amarelo, alguns segundos depois, começou a se coçar vigorosamente para desespero da teoria do velho. Lambeu os lábios e pôs se a espreguiçar nos meus pés, simulando felicidade enquanto eu dizia que Pepe estava errado e alguém lhe deu um apertão nas bochechas. Ali percebi que apesar da comemoração de fora para dentro, quem estava triste era eu e que Pepe falava, sem saber, de mim. 

– Ele me olha com tristeza, veja Pepe. O cachoro sonda algum abismo do mundo.

– Pare de falar besteira estrangeiro, o cachorro está cansado, como eu, porque é velho.

O amarelo dormia e eu ficava acordado. Ele sonhava ou gania durante o sono e quando eu encostava minhas mãos no seu pelo ele se movia abruptamente. Era um cachorro angustiado, tal como eu e passei a insistir nessa tese sempre que via o velho. 

– Pepe, o cachorro é meio angustiado…

– Ele só está cansado estrangeiro, ele correu por todo o quintal. Vá para a gráfica, pare de inventar essas histórias e batia na mesa com rudeza e um sorriso que fechava o meu dia.

A análise de Pepe e a minha virou um caso de esgrima pessoal. Alguns embates se seguiram, sem nenhum vencedor.

E quando eu dizia isto a outros do sindicato, riam ou não acreditavam que era possível existir um cachorro angustiado. “Pare de projetar no cachorro suas emoções, diziam, é só um cachorro”. Mas eu respondia, falando que não. Eu não projetava nada. Quem duvida que pode haver um cachorro angustiado no mundo? Vocês estão errados e não vêem nada. Só vêem o que querem ver: um cachorro que segue sua natureza. Mas e se esse não seguisse? 

Mas o mundo seguia. As vizinhas e vizinhos procuravam o cachorro dia após dia e nisso eu me deprimia, apesar de para o mundo, parecer ativo, altivo, quase que invencível com a marcha da utopia nos ombros. Mas no fundo não conseguia me mover. Estava paralisado. Tudo parecia lento e silencioso apesar de acreditar na transformação e na procura do amarelo de maneira decidida, cada passo doía enormemente… Com isso passei a ignorar a luta, a organização, os piquetes, o café e até mesmo as tarefas do cotidiano: varrer, cozinhar, fazer a barba. Nada fazia sentido. Até que um dia tive uma crise. Um cão cinza mordeu minhas costas. Tomei analgésico por três dias e a dor não passou. O cão cinza latiu dentro do vagão do metrô. Latia até tirar meu ar. Eu não aguentei e saí. Procurei o ar e sentei no banco verde. O cão cinza deitou do meu lado e dormiu.

Saí, sentia que ele me perseguia e arfava dentro da minha cabeça. O amarelo ausente, já não era capaz de me dar certo horário, apesar de eu nunca ter tido nenhum. Passei a ficar ausente de tudo. E um dia, na noite, lembrei de Boris Wladimirovich, um russo-ucraniano que exilou-se na Argentina. Falecida sua companheira, foi viver de vodka e anarquismo em outro país. Acabou num sanatório, não porque era louco (e quem não era?), mas porque ao se fingir de louco tomou a atitude mais sã da Argentina dos anos 20: executar o carrasco da Liga Patriótica que matou Kurt Wilckens, outro angustiado, que por viver a angústia de ter assistido o fuzilamento de mais de 1500 trabalhadores pelo comandante Varela, não se aguentou. Largou seu pacifismo e justiçou o assassino em massa, Varela. Virou um herói do povo, mas foi morto por um membro da Liga Patriótica dentro da prisão, que para se safar, fingiu-se de louco e foi internado num sanatório. Só não contava com as angústias de Germán Boris Wladimirovich. Aquele russo introspectivo que decidido, sob seu cinza particular, resolveu não só as suas angústias, mas a de toda a classe trabalhadora argentina numa única jogada, com um revólver dado a outro preso.

E eu, não sei porque diabos, passei a pensar em Boris junto a um cachorro amarelo e um cinza. Em cima de seu féretro. Mas aí voltava a realidade. O cachorro amarelo não estava lá. Tinha se perdido. “É só um cachorro diziam”. A Revolução é o mais importante. Mas a revolução não chegava nunca. E ainda assim, eu tinha angústias a resolver, tal como Wladimirovich. Deprimido passei a odiar o mundo, mas vi que odiava apenas a forma com que parte do mundo estava organizado. O problema não era com a humanidade, mas com certos limites construídos, certas barreiras que atingiam mulheres e homens, certas violências cotidianas e estruturais. Eu não odiava o mundo, odiava a maneira com que o organizavam à força, as instituições e as relações.

Eu passei a ficar amargo como o café que Pepe passava no fim da tarde. Minha vontade era irritar-me com as/os demais, mas me lembrei que o cão cinza pode chegar pra todo mundo e eu teria de me acalmar e seguir. Ainda tenho a revolução, pensei. No fundo de minha alma, agarrava-me a utopia, como o único pilar, capaz de sustentar a incerteza do meu ser. Nos dias mais terríveis, perdia-me num cinza constante e era tragado pela tormenta dos dias, mas ainda tinha uma aposta no acaso. No fundo no fundo, não tinha nada. Mas sabia que iria deixar esse nada, essa esperança no possível, semear o solo para os próximos estrangeiros e estrangeiras. Minha dúvida era saber se sentiriam o mesmo que senti e se esses panfletos e promessas, conseguiriam cobrir seus abismos.

Num domingo de sol forte, o que me deixava ainda mais nervoso, pois eu sentia, tal como um estrangeiro que definitivamente aquele não era meu lugar, Melina entrou com lágrimas, ainda que contidas, nos olhos. “Encontraram o amarelo”, ela me disse apertando gentilmente uma das pálpebras. Nos abraçamos como se a revolução tivesse a caminho e eu corri, com vontade de chorar, em direção a ele. Sentia no entanto, que algo cinza me acompanhou. Aquilo me mudara, talvez a todos e todas ali, nunca saberei, porque só tinha a minha medida. Com problemas de saúde, amarelo passou a dormir na minha casa e pronto, minha vida mudou. Diziam que tinha um problema incurável, talvez no coração. Num misto de pena e deliberação coletiva, mandaram o amarelo para a minha casa.

Mal sabiam que o cão cinza, nesse período, passou a latir quando as pessoas falavam comigo. Eu passei a não entender mais o que elas diziam. Eu me esforçava, mas ele latia mais alto. E aí eu fingia que estava interessado e saía, até ele se aquietar e lamber minhas mãos. O cachorro cinza aparecia na ausência do amarelo (quando ele dormia no banheiro por causa do calor) e eu tinha de inventar desculpas pra todo mundo. Dizia que tive um problema ou que fiquei doente (nunca dizia qual era a doença, eu não tinha coragem) e faltava as reuniões sistematicamente. Era culpa do cinza. Eu inventava uma desculpa que as pessoas aceitavam, porque elas me viam de maneira distorcida e isto ajudava elas próprias a não receberem a visita do seu próprio cachorro cinza. 

Quando perguntavam do amarelo dizia que ele estava bem (e estava mesmo). Ele comia, andava e dormia. Talvez amarelo sentisse falta de Pepe e de Melina, ou tivesse uma tristeza habitual, mas no fundo ficava feliz em receber as saudações de um ou de outra no final do dia, sempre por cartas. Mas quando perguntavam sobre ele, sentia que eu lembrava um pouco de mim. Não sabia onde eu terminava e ele começava. Tinha também vontade de me perder como o amarelo, sair sem entender o mundo. Talvez tenha sido por isso que o amarelo fugiu. Aquele lugar não lhe bastava. Ele precisava se perder e recomeçar. Para depois recomeçar, como fez Boris.

A espiral de estranhamento voltava. Vez ou outra, pensei que tinha a superado e o cão cinza tinha partido e só o amarelo tinha ficado. Mas tal como um mecanismo incerto, sentia arrebatar meu peito, cindir-me em pedaços de mim que digladiavam-se pelo meu controle. Nessas horas nada havia a fazer. Nada me emocionava mais do que olhar para uma paisagem e sentir que o estranhamento tinha escapado; ainda que por um momento breve. Era a consciência dessa incerteza, que me fazia amar as paisagens. Olhava-as, como se olhasse para uma esperança, que apesar de nada me dizer, me confortava com as linha sinuosas do céu verde e do azul.

Ah sim, eu ainda tinha o amarelo a lamber minhas mãos e a empurrar a pata como se me abraçasse, isso me fazia esquecer o cinza do mundo, por um breve (e importante) momento. Talvez ele olhasse a paisagem e se angustiara um pouco. Quando falei disso, ninguém acreditou. 

– Veja Melina, o amarelo olha para paisagem como se tivesse um problema existencial…

Todos riram. E eu falava sério. Como numa conexão íntima com o amarelo e o cachorro cinza (este último aparecia quando queria) passei a olhar para o mundo. Tal como Wladimirovich, tomado de vodka e utopia transbordando seu esôfago, entreguei-me a angústia do mundo esperando o momento onde eu deveria cumprir meu papel. Fazia-o com o ar sombrio e constante de sempre. Mas não era preciso ser triste para ser militante?

https://pseudocontos.wordpress.com

cachorros_esperando_fotos-24

Não era preciso ser triste para ser militante?

INTERTEXTOS (ADAPTAÇÃO À PÁTRIA EDUCADORA)

Primeiro deixaram de pagar os terceirizados
Mas não me importei com isso
Eu não era terceirizado
 
Em seguida fecharam as escolas
Mas não me importei com isso
Eu já era formado
 
Depois cortaram as bolsas da graduação
Mas não me importei com isso
Porque eu já sou graduado
 
Depois cortaram as bolsas dos pós-graduandos
Mas como sou estatutário
Também não me importei
 
Agora estão me precarizando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
 
Rafael Vendetta

1989, o início

Rafael Vendetta

Um balão subiu com uma faixa verde e amarela pendurada. Nela se liam com letras garrafais: 1989. Essa foi uma das minhas memórias mais antigas. Eu devia ter seis, não mais do que sete anos (não me lembro o mês exato).

Minha primeira lembrança de 1989 se dá num domingo de manhã. Eu acordei cedo pra ver o pessoal da rua da minha avó soltar um balão. Eu me lembro da minha avó acordando cedo e fazendo café. Na época aquilo não era considerado incorreto (soltar o balão). Na época eu achava bonito (eu tinha 7 anos). A rua da minha avó não tinha asfalto. A casa dela era muito simples. Ela fazia uns bolinhos de chuva (na verdade, rosquinhas) quando íamos lá no domingo porque era barato.

A ideia de um grupo de gente simples fazer algo subir ao céu com tecnologia precária me fascinava. Sim. Os pobres também podiam tocar o céu. Apesar de criminalizarem anos depois essa prática. Podiam tocar céu. As pessoas podiam nos ver.  E enquanto isso, os que não nos viam faziam as eleições. Eram as primeiras eleições diretas no Brasil, desde 1960.

O Collor e o Lula iam para o segundo turno. Apesar de ter pouca idade, posso dizer que 1989 foi o ano que me trouxe a política. Eu assistia as propagandas eleitorais. Ouvia a família debater. Eram debates acalorados. E eu opinava caoticamente. Eles deixavam opinar. Não era uma assembleia. Não tinha inscrição. Era caótico. Todo mundo falava ao mesmo tempo. Mas se discutia política (mesmo que fosse eleitoral). Fui um filho das diretas e das consequências mais tardias da abertura, mas não sabia o que isso significava. Apesar de anos depois entender o que estava em jogo.

A nave robótica norte-americana Voyager 2 passava perto do planeta Neptuno. O presidente dos EUA, George H. W. Bush (o pai) anunciava o fim da guerra fria com Gorbachev e na China, um corajoso rebelde se punha na frente de uma coluna de tanques, diante o que viria a ser o massacre da praça da paz celestial. O muro de Berlim caía e a rua da minha vó continuava sem asfalto. Mas eu estaria mentindo, se dissesse que me lembro disso tudo. A memória mais marcante foi aquela rua, os bolinhos de chuva da minha vó e o balão. Eu me lembro também que tinha uma bicicleta e que quando eu andei pela primeira vez, aquilo foi muito mais importante que a queda do muro de Berlim.

https://pseudocontos.wordpress.com

Alemanha_Futebol-Muro-de-Berlim

Insônia medieval

Rafael Vendetta

Os pombos e a insônia voltaram. Como a peste negra.

Que grudou nas minhas pernas e eu acordei medieval, almoçando sem garfos e facas,

comendo um pedaço de mim, barbaramente, até que me descobri,

cheio de sentimentos feudais, cuspindo o antigo regime pelas línguas do destino,

esperando o mundo acabar em 2001.

Os números primos me agradavam, pitagoricamente me agradavam,

com aquela inquisição de facebook a me comer os três estados

pela beirada da germânia dos comentários.

Até que um dia, cansado,

resolvi crescer e me guilhotinei emocionalmente num post bárbaro

com o vagalhão que pedia a cabeça do rei de 56 k, enquanto

eu crescia no mundo contemporâneo de mim mesmo

até, discutir, se era o meu sol que rodava em torno da terra, ou

se a terra cansava, e trazia-me em meu sol do meu perfil

[use protetor solar]

É difícil falar do 1990 vermelho

 

Rafael Vendetta

Não sei mais falar de você ruiva. Muitas coisas passaram, mudaram e é difícil falar do mesmo sonho sempre. Se fosse nos anos 90 falaria com muitos detalhes. Mas agora não consigo mais. Não me lembro tanto. Era fácil antigamente. Eu me lembrava e escrevia. Agora é tudo mais difícil. Eu lembrava do dia em que te conheci, sentada num banco de madeira, perto daquele pedaço de lama. Estava quente, depois nos encontramos, brincamos com as formigas naquele gramado, embaixo da árvore que ligava o mundo ao desejo. Alguém passou tocando flauta. Dormimos abraçados. Eu acordei com um sol invencível. E a única coisa que eu me lembrava era você com aquele vestido cheio de flores. Muitas coisas sem sentido aconteceram naquele dia, eu constelei tudo ao redor de você, mesmo depois sabendo que o que deu sentido aquilo tudo fomos nós.

Eu lembrava do dia do almoço. Quando a gente reclamou que tinha morte em tudo ao nosso redor e nos atenderam. E a gente só queria um legume ou outra coisa. Não queríamos morte ao nosso lado nem em nosso prato. De noite fazia um frio brutal. A gente dormiu com jornal no chão, nos amamos, sorrimos. Nos beijamos. E voltamos, com as esperanças nas mãos. Viajamos de trem. Dormimos no chão. Não nos importávamos. Tínhamos um ao outro.

No outro dia, ou outro mês, eu fui te ver. Te encontrei por acaso. Mas na real planejamos. Você tentou me impressionar. Levou-me em tudo o que pode.  Eram dias diferentes, com pôr do sol, a ponte, de noite iluminada, comida vegetariana, beijos no elevador. A gente viveu. Era isso que a gente queria (e quem não quer?). Encontrar um cantinho, amar e viver. Mesmo assim a gente se fazia de durão (e quem não faz). O que a gente queria era dizer que esse problema já foi resolvido (do amor) . Tal como os outros problemas da vida.

Aí eu voltei. Tudo se distanciou. Não encontrava mais você, ruiva. Não mais. Não pela guerra. Mas pelas dúvidas. Foram dois anos de exílio. Você me abandonou. Eu não insisti. E por eu não insistir, você achou que eu lhe abandonei. Era assim que funcionava. Nossa gramática, tão próxima de nossos corpos, desapareceu. O telefone tocou poucas vezes. Perdemos aquele momento (que nunca soubemos qual era). Mas eu segui, porque me disseram às dezenas que era para seguir e que tudo ia passar (mas não passou).

Gostava da ruiva pois era uma estrangeira. Não se adaptara a nenhum lugar. Não se encaixava. Viveu numa diáspora afetiva, tal como eu. Nossos estranhamentos combinavam. Sempre combinavam. A gente falava sem falar. Mas sua imagem começou a ficar cada vez mais distante e imprecisa. Era como tentar lembrar de um sonho e falhar. Eu ficava calado. A sorte é que ninguém percebia. Eu ainda podia olhar sua foto, tomar café e seguir. Era o que eu fui treinado para fazer. Era o que todos diziam: você vai encontrar alguém. Mas eu só tive desencontros.

O tempo passou rápido. A ruiva desapareceu. Aí você quer ser alguma coisa mas não sabe bem o quê (quem não teve essa dúvida). Você passa a terceirizar o que você será para o tempo. Mas o tempo é um mal funcionário, um funcionário rebelde. Você pensa que é o tempo que vai dizer. Mas ele nunca vai te dizer o que tu é. Ele vai seguir, sempre em silêncio. E você vai ser isso aí: uma coisa esperando o tempo passar e dizer. Mas ele não diz. O tempo só cala. E a ruiva assim, ficou pra trás. E eu não sei mais. Não sei mais a fórmula (nunca soube). Não procuro mais.

Sinto-me um estrangeiro.

11160440_444631795706152_17

Estrangeiro

 http://www.pseudocontos.wordpress.com

 

O amor se constrói ou é construído?

 Rafael Vendetta

Parecia-nos que nosso momento já tinha passado. E por mais que nos esforçássemos para tentar repetir aquele momento mágico de quando nos conhecemos e de quando nossos olhos brilhavam, parecia impossível viver e sentir a mesma coisa. Fazia anos que não nos encontrávamos. Já estávamos demasiadamente duros, como um casco de navio cheio de cracas emocionais, mas cujo capitão, ainda crê que o navio é novo e as águas são tranquilas. Mas vivíamos numa tormenta, apesar de aparentar tranquilidade. O mundo tinha pisado em cima de nós.

A vontade era reviver um tempo que já passou, mas nada voltava do mesmo modo e nenhum de nós podia dizer que havia o mesmo jeito de amar, chorar, viver.

Eu chorei quando ela disse que sempre se lembraria de mim, porque percebi numa análise rápida de discurso que ela falava no pretérito. Eu já tinha passado. E eu a entendia. Pois quando a coisa passa, vamos arquitetando internamente as nossas respostas do porquê não ter dado certo. Vamos tecendo fio por fio, até formarmos algo que cubra aquele abismo aberto de mais uma decepção. É um mecanismo de proteção. Mas tal proteção é frágil. É um vestido que tem a concretude de uma obstinação, mas obstinações vem e vão e podem se romper quando a gente encontra a vontade vermelha assim, num domingo, num sábado, numa sexta, ou num dia de semana por acaso. E aí o vestido vai se rompendo, vai ficando frágil, enferruja ou apodrece. E os abismos passam a ser cobertos com band-aids. E passa a doer a beça. Dói demais.

É aí que uma parte de você, uma parte verde, pensa em recomeçar. Em acreditar de novo e de novo.

Ela continuava a falar, minha parte verde resistia e quando subitamente deixei meu outono sair, as lágrimas rolaram até encontrá-la em meus braços. Depois o que se deu foi como um mecanismo interno de negação do absurdo: tiramos parte da roupa – como se estivéssemos de férias na praia (do nosso passado) – ficamos abraçados dançando, tomando cerveja e beijando um ao outro como se aquele passado tão bonito pudesse voltar. Ela disse que eu a atraía. Eu disse que ela estava linda.

Esquecemos tudo. Éramos apenas duas pessoas.

Liguei o abajour vermelho e ela tocou minhas costas com a ponta dos dedos ; eu fazia uma confusão dos diabos e esperava um sinal da vida dizendo: “fique tranquilo que sua hora chegou”. Mas nada chegava, pois as coisas tinham nome mas não davam ordens, apenas chegavam e chegavam sem pedir licença ao mundo e sem ao menos dizer com que propósito vieram. Alguns achavam que tudo podia vir depois de algum mecanismo desconhecido. Imaginavam que o amor chegava depois de sete ou oito fracassos (algumas pessoas contavam em números pares, outras em números ímpares, primos, cada um tinha sua regra). Existiam aquelas que acreditavam que seria uma viagem, ou o fim de um ciclo que resolveria tudo, mas para pessoas como nós, estrangeiros emocionais, os ciclos eram sempre repetitivos, nunca acabavam: esse era nosso tormento. O que dizer daquela gente que pensava que a sua vez tinha chegado por que as coincidências coincidiam e buscavam nas revistas, na música, nos rodapés das conversas ou na forma de fazer alguma coisa, um sentido que dissesse: essa é a pessoa certa? E havia? Uns pensavam de modo mais caótico: era um sentido que parecia não ter sentido, mas tinha. “Amanhã eu me formarei: terei meu amor? Hoje fiz 29 anos: terei meu amor? Mudei de alimentação, religião, de hábito ou de vida: terei meu amor? Hoje acordei desse modo, sonhei desse jeito, pensei daquela forma: terei meu amor?”.

Mas para as estrangeiras e os estrangeiros o sentido não era dado de antemão. E eu não fazia ideia de como iria organizar aquilo tudo, jogado, como um quebra-cabeças emocional sobre a mesa. Invejava quem via sentido em tudo. Quem pegava o sentido já construído, como se pega uma fruta no pé e dizia: agarro isso com toda a minha vontade, esse é meu destino afetivo. No meu caso não. Achava sempre que o sentido era construído, como um jogo de armar ou um lego emocional. O problema é que as peças raramente se encaixavam e eu não sabia geralmente, nem onde tinha guardado as peças. Não conseguia construir nenhum amor e ficava sofrendo o atrito entre construir um ou esperar ser construído por ele.

E mesmo assim, dormímos abraçados e esquecemos parte do mundo. Isso não impedia a vida de passar. As perguntas ficavam sem respostas. E no outro dia, assim, quando ela se fora, eu vivia os dias como um pedaço cinza oscilando entre o verde o vermelho. Esperava alguma coisa decidir por mim. Mas nada nem ninguém decidia. Sempre fora assim. Eu tinha todas as contradições do mundo. E ao fim do dia eu não pensava, mas um pedaço de mim dizia, como ferrugem corroendo meus dentes: O amor se constrói ou é construído?

esperava-alguma-coisa-decidir-por-mim.

esperava-alguma-coisa-decidir-por-mim.

 https://pseudocontos.wordpress.com

Como fazer um café com o pó do absurdo

 Rafael Vendetta

Acorde. Lembre dos seus sonhos. Lave o rosto. Pense em anotar seus sonhos.

Esqueça seus sonhos.

Pegue o pó do café. Misture com o que restou de si mesmo. Esquente a água. Pode sentar. Pode andar pela casa. Pode fingir que está fazendo algo para si próprio ou pra casa. Pode até varrer a casa. Pode pensar no dia anterior.

Faça o que fizer, o tempo é curto e se mede sempre pela água. Pode sentar, acender um cigarro, olhar para o sol nascendo. Ele nasce laranja porque tem sujeira no ar. Se ele nascer amarelo é porque o dia vai ser quente. Se ele nascer cinza, o café vai ter um gosto muito bom. Espera a água esquentar. Se a água esquentar e você esquecer é porque alguma coisa aconteceu. Foi o sonho, foi o dia anterior, foi a carta que ela não enviou, foi o esquecimento, foi a falta de sentido. Alguma coisa sempre ocorre quando se esquece a água do café e ela seca sozinha (como você). Se isso acontecer deve-se adotar atitudes emergenciais: deixar o café para o próximo dia ou esquentar a água e o sentido de novo.

Com o café pronto, você enche a caneca da vida e pensa na semana, nos meses, nos anos. Você bebe. Você finge que há um plano para o dia (não há nenhum). Quando estiver quente você bebe. Bebe e esvazia o sentido. Canta aquela música. Olha no espelho. Amarra o cabelo. Se tiver um gato, fale com o gato. Se tiver uma planta, molhe a planta (de água, não de café). Pegue um copo. Esvazie o cinzeiro da noite anterior. Pode esticar as pernas com a camisa de flanela cobrindo o erro da noite anterior. Coloque as meias.

Você pode sair. Você pode voltar (talvez não possa). Inspire. Expire. 

Quando parar de pensar, o que sobrar é você, segurando uma caneca e bebendo café.

tumblr_llvg7ipcU21qhkinko1_500_large

otempoécurtoesemedepelaágua