O dia que a casa de Román Soto Mayor pegou fogo

Foi num dia ordinário e comum que minha vida toda espalhou-se como merda de pombo no chão de concreto de uma calçada sem importância da rua 23, e aí transformou-se em rudimentos, simples rudimentos.

Deixe lhe contar por que e você entenderá leitor. O fato é que minha casa pegou fogo, queimou, não me importa como, por que ou de que forma. O fato é que minha residência pegou fogo como dizem os não-especialistas, pegou fogo e torrou intensamente, e com ela foram-se minhas fotos, meu computador, minhas anotações, meus poemas, toda a minha vida testemunhada.

Havia merda de pombo no granito de entrada, e também pombos, mas até estes, que faziam ninhos no forro do meu telhado, até estes, se foram, e aquele calor infernal que afastou os pombos, conseguiu reunir todos os vizinhos naquele fim de noite, naquele fim de terça-feira. Um fato extraordinário que nem o natal de 1978 conseguiu repetir.

A casa reduzida às cinzas, à simples rudimentos crepitava, e com ela, minhas roupas, meus documentos e convicções, e sob as sirenes, e o incessante diálogo dos grupelhos de fofoqueiros e niilistas que invadiram minha rua, foram-se embora também os meus cartões de crédito; os meus livros, meus móveis, meus tíquetes de metrô, meus mapas e lembranças de outros estados, minha coleção de embalagens de cigarros(internacionais diga-se de passagem)… E foram também os meus livros(estes sim doíam mais do que tudo), livros que com muito esmero consegui reunir mas em nenhum momento que os comprei, imaginava realmente que estava comprando lenha, lenha fresca!

Empilhei e li carvão, li carvão, li Nietzsche, li apenas pólvora! Pólvora que se consumava assim, diante dos meus olhos!

Sobraram-me após a tragédia apenas uma mochila, algumas indagações sem sentido, soluços metafísicos, choros e sorrisos compulsivos espamódicos, e que vinham acompanhados de dois cadernos(um deles com nada escrito), uma escova de dentes, tapinhas nas costas, uma chave que de nada servia, pois abria uma casa que não mais se abria, e por fim um cortador de unhas.

Este objeto odioso, me causou repulsa e ojeriza profunda, pois um cortador de unhas era uma prova cabal da inescrupulosidade divina, uma prova de que deus era um deus de talião raivoso e que ancorava-se num primeiro testamento sangrento e vingativo.

Sobraram-me também umas moedas, que de nada importavam, afinal haviam outras milhares de moedas como àquelas no mundo fora de minha mochila e naquele momento eram cinzas que possuíam personalidade, e eram estes mesmos espólios que estavam ali, sendo molhados por bombeiros inescrupulosos, vis e antes de tudo: burocraticamente lentos.

Dentro da mochila, consegui preservar apenas um livro, chama-se “Los Premios” de Julio Cortázar, fato que sinceramente me contrariou profundamente à ponto de me doer os rins. Preferia eu, já fudido pelo acontecimento, que ao invés deste, tivesse sobrevivido era o maravilhoso romance de Cortázar, “Todos los fuegos el fuego”; não só para manter o tom poético e irônico que eu necessitava para viver, mas a sobrevivência de um item sem sentido como aquele maldito cortador de unhas, me fez usá-lo como um medalhão ou tentativa-chave de explicar a tragédia durante meses, pois era apenas aquele objeto ignóbil, aquele objeto inescrupuloso e profano, o sobrevivente inútil, de uma tragédia terrívelmente sem sentido.

Anúncios

2 pensamentos sobre “O dia que a casa de Román Soto Mayor pegou fogo

  1. Tainá disse:

    Depois de tudo queimado e lamentado: a melhor parte da tragédia, a mais interessante, estúpida e poética.

  2. Gi disse:

    Pô, “sinistro” , como diriam cariocas, esse seu conto, ainda mais depois dos acontecidos…
    Demorei anos pra te achar nesse novo site, não tem nada lá no outro que indique…

    Bjo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: