Recorreu ao divino

Eu já me fudi, assim como antes, e era muito corriqueiro, e daí pra frente, adquiri uma capacidade minha de me fuder sempre.

Exponencialmente as desgraças vinham em grau de desimportância, quanto mais desnecessárias mais recorrentes. E quanto mais eu rezava para afastar as desgraças mais elas vinham.

Recorri ao divino, aos orixás, caboclos, espíritos secretos, taradas e tarólogas, cientistas de centro de macumba e ainda assim, continuei a perder ônibus, continuei a me fuder, continuei à depender de deus.

Numa tarde ridícula, e e onde o azar sobrava, um santa, que jazia na mão de um filho da puta crente, mas que eu não sabia e nem desconfiava se tinha ou não a vida melhor do que a minha ou se era um possuidor de azares metafísicos, escorregou, maldosamente escorregou, e caiu, com metade do corpo no paralelepípedo, concreto como um agnosticismo e metade na rua, cuja espalhafatice jogou a cabeça da santa sob um pneu de um opala 79 e separou a fé de deus em pedaços muito pequenos para algo perto do fim.

Eu, eu que não acreditava nem em deus, nem no ponto de ônibus e nem no preço da gasolina que me fez desacreditar aquele opala 79, senti pena daquela imagem moribunda, não pergunte-me por que; mas senti pena, e aí repleto de azar o dono da imagem sorriu, colocou os dedos no bolso, recolheu com mãos de vassoura o que sobrou da santa, e disse que nada daquilo importava, pois deus era maior do que o pneu, a santa, o céu, de todos nós, deste acidente, do opala.

Depois daquele dia cheguei a conclusão: pontos de ônibus, santa e opalas,; não existem.

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3 pensamentos sobre “Recorreu ao divino

  1. Gregor disse:

    Reza forte, meu filho
    Reza como se fossem lhe arrancar os dentes
    Reza porque as algemas lhe apertam e o sangue corre devagar
    Faz como teu velho pai,
    Reza até chegar a morte,
    Porque ela vem mesmo
    E se você rezar…
    Ela vem até mais rápido!!

    Deus há de te ouvir depressa meu filho,
    tu vai chegar ao paraíso
    antes daqueles que não rezam!
    Estes coitados…
    Que pena sinto deles meu filho…
    Quebram as algemas que Deus lhes deu.

    Não rezam!

    Não rezam!

    Como podem ser livres?

    Reza forte meu filho, pois não quero te ver livre.
    Não quero que demore a encontrar o céu

    O reino de Deus meu filho…

  2. Tati disse:

    Alucinação, por causa do sol?

    *Texto arrebatador.

  3. tutameia disse:

    Recortes mudos.
    …o som das batidas de cada rima
    No papel revelam com clareza a agonia dos suspiros silenciados.

    Pálido é o cheiro das palavras mortas.
    E a ausência de gritos sufoca velhos encantos.

    Ao apertar os olhos sinto o orvalho frio enferrujar as rugas talhadas pelo calor infernal dos raios.
    Vejo o gosto do orvalho se destruir ao impactar bruscamente com a terra seca que pesam meus pés.

    Esvaeceu certo prazer de mim pra alguma direção sem sentido algum.

    Vejo-me numa espontaneidade premeditada.
    Onde com leve rispidez meu corpo se fantasia num misterioso esconder de sensações prazerosas.
    Disfarço na multidão verdades somente vistas dentro de paredes vazias de outro alguém.

    A borda de uma terra lotada perde a fértil beleza quando um forte vento leva ao longe as folhas caídas das poucas árvores quaisquer.
    O fogo das matas sufoca o silêncio dos inocentes…
    E aquece meu prazer lascivo em percorrer os dedos e as mãos pela pele macia no meu pensamento.

    Pela janela entra a brisa embaralhando meus recortes…
    Palavras acumuladas de pó como migalhas caídas ao chão.
    Compô-las requer maturação muda.
    Meticulosamente retiro o pó da razão.
    Decompõe-se a emoção.

    Cautelosamente espero a sinceridade penetrar meus seios nus.
    Ler-te as palavras num ritmo de soluçar lhe confundiria a razão.

    Colo pedaços de sol num dia chuvoso…
    As estrelas caducas riscam o céu limpo.
    Ouço o riso da flor que desabrocha sem espinhos.
    Sigo o rastro de aroma da noite…

    Até a iluminação do ambiente parece diferente só pra me provocar.
    O som se torna distante
    Me pego perdido divagando
    E quando tento decifrar meus pensamentos.
    Já se foram. Perderam-se num mundo desconexo sem sentido.
    Mas assim, sinto-me vivo. Pela incerteza da busca por sei lá o que.

    Querer romper as pré-idéias a mim concebidas
    Prisões falsas do passado.
    Padeço a alegria fruto da presença.
    Apego a tristeza oriunda da distância.

    A saudade da criança.

    Como qualquer cão sem coleira.
    Fareja a vida…
    sem rumo nem beira.

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