A Altura do silêncio

Foi de um dia para outro, pois de fato tudo muda de um dia para o outro e não o inverso, que as coisas precipitaram em silêncio.

Primeiro o volume baixou; a coisa já diminuíra sorrateiramente ao longo da vida, mas de uma hora para outra, alguém puxou o botão para baixo e tudo se calou em trevas.

Com o volume baixo, percebeu que a velocidade era definida pelo barulho, quanto mais alto, quanto mais vozes, mais frenético se comportava.

Calou uma voz atrás da outra, até que tudo chegara à um limite indispensável. As vozes eram agora sussuros, os gritos, conversas, e seguindo aquela lógica, alguém resolveu chamá-lo de monge, mas na verdade era um quase surdo. Não era religião nem fé, mas algum defeito congênito ou trauma natural: vontade implícita de comer destino.

Diagnosticá-lo era impossível, estava profundamente feliz com aquele acontecimento mágico e inesperado. Não precisava pedir por repetições de frase, escutava tudo de forma completa, mas apenas mais baixo, mais baixo, como se removessem o eco e os ruídos, toda vez que algo ou alguém falasse.

Da clareza de som brotou a clareza de espírito, e tudo permanecia tranquilo: era como caminhar todos os dias num jardim de inverno japonês.

As folhas, o ônibus, os caixas-eletrônicos moviam-se mais lentamente; ele, este pedaço de coisa rápida que parecia uma folha branca pré-desenho, passou de estrondo à ponto final: sem ruídos das latinhas, dos passos trôpegos, daquela tv de si mesmo que chamava espelho nos finais de semana; tudo assim, como um passarinho na mata.

Completo silêncio. Puxou o botão para baixo e calou-se em trevas, de um dia para outro, o barulho negado.

E aquilo tudo, aqueles lábios, os desencontros, pareciam chistes sonoros, exceções, de uma vida ruim, que jazia calada naquele peito silencioso, que alguns barulhentos chamavam de coração.

Mas era silêncio que corria naquelas veias, aquele sangue era silêncio, era aquela coisa muda e calada que chamava de vida, e um ou outro insistia em dizer que era uma pessoa “difícil, difícil, dificílima de se lidar…”.

Mas no fundo, não entendiam o silêncio, por que sempre fizeram barulho demais, e as coisas precisam se precipitar da altura do silêncio de vez em quando.

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2 pensamentos sobre “A Altura do silêncio

  1. paz ou silêncio gritante?

  2. Aliceloide disse:

    sangue de silêncio, que a humanidade não é capaz de entender.

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