Do diálogo de Ana Cristina consigo mesma

Para que acordar, se amanhã repete-se a mesma coisa? O devir é devir para a natureza, para nós chama-se ócio, rotina, absoluta mesmice.

De noite eu digo: para que dormir? De manhã afirmo: para que acordar Ana Cristina? E essa ferrugem nas suas mãos?

A semelhança gira em torno das luzes e das pessoas. De dia há luz e pessoas demais. Pessoas demais, como mariposas, mas com vozes, muitas vozes e algo ainda pior e mais comovente: problemas.

Não que esbarrar com problemas seja de todo mal, o real problema, digo a real questão, por que os problemas são todos mundanos, e não merecem títulos reais ou semelhantes nobres titulações; é que os problemas dos outros me afetam. Não todos, por que entre rasos problemas pululam rasas criaturas; e criaturas rasas não esbarram por você, nem por mim, nem por ninguém, elas grudam, e aí a gente não consegue captar, pois tem de remover aquilo do corpo. É como uma sujeira de pombo que mesmo já espatifada no teu colo, você pensa que deve limpar rápido, pois quanto mais rápido você tirar aquilo menos infeccionada você está. Pessoas rasas são assim, infecções de cortes de cabelo triangulares.

O problema que há problemas grandes que grudam. Esse são bons, fazem a gente se sentir sem cabeças e cabelos triangulares. Gente fudida como eu e você não vem com teflon.

E aí vem aquela coisa menina, que está fora de moda, tem um nome gordo como um peru assado no natal, mas sem as tias católicas ou a cantoria da pequena pastorinha, é um negócio que se chama empatia. Não é apatia meu amor. É empatia. Você e seu batom são difíceis de captar hein?!

A empatia fodeu nossas vidas num bolo chamado sociedade, as castanhas são a insônia. Tira para usar filhinha, tira pra usar, tira, quando for usar tua libido naquela noite vazia da Farme de Amoedo, tira ela pra usar. Usa com gosto, mas lembra que o que você veste é um sentimentozinho miserável que eu ainda não consigo escrever o nome. Não é empatia.

Esse sentimentozinho miserável por enquanto eu só posso chamar de sentimentozinho miserável mesmo, pois eu só consigo enxergar, ainda não escrevi. Por enquanto a gente pode chamar de “esperar a vez pra falar” meu amor. Esperar a vez pra falar não é empatia não minha filha.

Isso é vergonha de ser humano.

É por isso que de manhã eu falo pra mim mesma: Ana Cristina, volta a dormir, que dentro dessa cabecinha dorme um mundo muito mais bonitinho, volta a dormir que os abismos não estão aí dentro, estão lá fora andando de pênis motorizado e comprando lacoste. E tem aquelas menininhas com os sapatinhos apertadinhos como a alma, pressionando o próprio coração, comprimidinho atrás daquele corpete americano, fingindo ser a rainha do baile, ai que menininhas lindas, tons pastéis, que podem se vestir de brilho e matar metade da áfrica sub-sariana de inveja!

Ai que coragem menina.

Por isso, a noite eu fico aqui no meu mundinho, estreito, pequeno, empático.

E quando bate a tontura eu falo para mim mesma: Para que acordar Ana Cristina? Para que acordar? E essa ferrugem nas suas mãos? E essas luzes lá fora? E esses problemas? Volta a dormir Ana Cristina, volta a dormir, guarda a empatia no travesseiro, por que lá vem outro dia-repetição, e cheio de luzes.

Outra de Ana Cristina: a niilista.

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2 pensamentos sobre “Do diálogo de Ana Cristina consigo mesma

  1. Tainá disse:

    muito bom. às vezes a gente lê pra escrever… como esperando a vez pra falar. aqui, pra mim, isso não se aplica.

    E que puta oração!

  2. Isabella disse:

    Nasce uma nova Lygia Fagundes Telles…

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