Apaixonada Ação Direta

Foi no meio da manifestação que tudo começou.

– Eu te amo.

Ela sorriu sem graça, talvez não fosse hora para aquilo, refletiu. Mas que maldito incômodo, mas continuou a caminhar, gritando, olhando para as bandeiras, para o chão, colocando as mãos nos bolsos, procurando coragem.

A Tv, a polícia, a confusão, as pedradas na vitrine do banco que ambos odiavam e que fizeram todos correr. Por que dizer eu te amo naquele contexto? Será que ele pensou que iria morrer? O desespero sempre leva o amor, mesmo que seja um ególatra que intenta apaixonar todos aos seu redor no pós-morte; é no fim, um desespero pessoal.

Mas todo apaixonado é um faminto, um desesperado, um necessitado que põe suas vísceras em jogo, mesmo que neste grau, estejam todos reunidos: os sociopatas, os falidos, até os deprimidos, bon vivants e os homicidas de primeiro grau.

Mas bem, se a confusão, o gás lacrimogênio só chegaram depois da declaração, interrompendo a face rubra de Alice, então não havia relação com desespero, o ato foi ou premeditado ou terrivelmente espontâneo.

Vontade de pegar o ônibus e sumir, mas estávamos no fim dos anos 60, a história começava a engatinhar, o mundo novo era uma semente…

Por que? Por que? Em que assembléia ele arquitetou a idéia? Em qual contexto? Seria um chiste, uma piada, uma fraude??? Pequeno-burguês!

Alice já começava a ver naquele romântico idealista revolucionário, a simples loucura. Contra-revolução de fato!

No ponto de encontro estabelecido, ela, rapidamente, mesmo sob efeito retardado da adrenalina, não pode esperar e perguntou com os olhos, e depois com os lábios, que se comunicavam com toda a boca, até o momento que as cordas vocais emitiam o sinal: não entendi o que você disse, sorriu, gritando.

– Eu te amo.

– O que?

– Eu te…

O barulho do carro de som emudecia o amor.

– O que você disse?, ressaltou Alice com os lábios e ouvidos, mas tudo apagou em seguida.

Na segunda confusão, prisões, advogados, cassetetes e pessoas correndo: o carro de som acompanhava os gemidos na rua.

Numa cela, pronta para ser transferida para o hospital, com o tornozelo torcido, Alice quando perguntou o porquê de estar sendo presa, teve de escutar do militar de plantão que ela não amava o país.

– Você não ama o país. É por isso que está sendo presa.

Entendi, disse Alice. Da próxima vez então, os senhores seguram a polícia e aí eu posso dizer se eu o amo ou não. Tirando os cassetetes e o barulho, todo o resto é invenção dos senhores. Inclusive esse codinome ridículo, “país”, onde se viu… Isso não é nome de esquerda, é de fascista! E fascista como os senhores, não amam absolutamente ninguém!!

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