Hotel São Francisco

Hotel São Francisco.

Que lugar imundo, odiava aquele lugar miserável.

Aquelas pessoaszinhas miseráveis cujo lixo na porta do prédio ninguém limpava.

Não tinha Coltrane por que não havia música. Havia um rádio relógio e cachorros na porta.

E em pleno centro da cidade, não era mais possível conviver com cães.

Despertavam humanidade nos cachorros de cinza, por isto a emenda 79 proibiu a circulação dos cães na rua.

No meu limite, eu pedia uma cerveja, ou doze cigarros, dependia do dia anterior, normalmente eu ficava na varanda fumando e olhando aquelas luzes medíocres; nem eram boas luzes. Mas eu olhava mesmo assim.

E quando diziam, assine seu nome aqui, eu saía do Hotel, nenhum hotel sério poderia me exigir isso com cachorros na porta, já tinha falado mais de uma vez: se desrespeita a emenda 79, me recuso a assinar. Mas no Hotel São Francisco isto não acontecia, o balconista se calava e dizia “tranquilo”, “pode subir”.

O que eu realmente odiava eram aqueles cães acompanhados de humanos que comiam lixo e me revoltavam. Mas o pior cenário era o daquela gente se flagelando, já bastava meu flagelo de existir.

E eu Ana Cristina, insensível, me odiava. Mas sempre guardava o ódio no lado esquerdo do peito. E era aí que eu queimava ou apedrejava um carro importado, para perdoar o imperdoável, apesar de saber que aqueles cães acompanhados de gente continuariam a me revoltar. E nunca fui pega.

Mas na maior parte eu ficava calada e me sentia medíocre, por que eu era medíocre e ainda não era crime ser medíocre naquele país tão cheio de cachorros e cachorras fantasiadas.

Aquela gente feliz que escutava jazz. E jazz é música de gente neurótica.

Chorar na terapia, sorrir no trabalho, cadê a vida de merda dessas pessoas, pelamordedeus?!

Até na merda tem de ser chic meu bem? Larga este cigarro e esta pose de cú enrugado. Tira a roupa de vinil menininha? Cú não tem acento? Tem? Tá bom, que se foda, o importante é que você tem de sentir que você não causa mais minha querida. Já foi, passou, tá velha, vai morrer logo, espera a maquiagem borrar, e borra rápido meu bem! Borra rápido, vai aproveitando o teatrinho dos merdas!

Quando eu me lembrava das festas que eu tive de ir, e que agora não mais, mas ainda faziam parte da minha memória, eu lembrava que aquilo tudo se retroalimentava. Adorava essa palavra retro-alimentava; só perdia para circuito recursivo. Esse termo, eu usava quando estava sóbria, ou queria agradar alguém.

O fato é que vestir fantasias retroalimentava a porra toda. Eu ia para uma festinha vestida de puta ou de princesa, dependida da ocasião. No final eu sempre mentia. E tinha que voltar fantasiada, por que a fantasia não saía. Não saía com a maquiagem. E porra, que festas de merda grande. Que festas de merda grande. Eram grandes pra caralho. Reconhecia-se todo mundo pela facilidade de andar, de fuder ou de escrever artigos de 70 laudas.

Quando eu saí desse mecanismo de merda, quando eu entendi que aquilo era um circuito recursivo, eu pensei que tinha achado o segredo da felicidade, mas não tem segredo porra nenhuma. Acender o fogão sem se queimar tem segredo, escrever romance tem segredo, beber cerveja tem segredo, mas felicidade, não, felicidade não tem segredo. Felicidade só tem fantasia, e fantasia que desbota logo com o sol.

Quando eu comecei a entender o mecanismo me senti iluminada. Foi um momento ruim. As festas se mudaram, e eu ao invés de correr atrás das festas, voltei a ir para o Hotel São Francisco. E cada vez iam menos pessoas naquelas festas, até que teve um dia que o porteiro falou:

– Ana Cristina não tem ninguém lá em cima. A festa foi cancelada. Não vão mais fazer. Parece que a chuva inundou a cidade e ninguém conseguiu chegar.

– Como ninguém porra. Eu cheguei! E molhada pra caralho.

– Pois é, mas não tem nem cerveja.

– Não importa, eu trouxe vodka, me deixa subir zé.

– Tá bom, sobe e desce quando a chuva baixar.

E não baixou. E o lixo boiou. E eu bebi vodka, olhei para as luzes, fumei cigarro, fiz tudo o que sempre fiz. E era como fazer a mesma coisa, só que com menos barulho e fedor. Aquela gente não me fez falta, como os cães da emenda 79. Tanto fazia.

Continuei voltando, o porteiro sempre me recebia. Eu pagava a entrada como de costume e como de costume ele dizia: “tranquilo”.

E aquelas pessoaszinhas miseráveis cuja sujeira na porta do prédio ninguém limpava, foram para outro lugar, rodear as luzes, borrar maquiagens, beber vodka, fumar cigaro, olhar as luzes e me deixa subir zé, me deixa subir que na emenda 80, eles falaram é que vão proibir a circulação das pessoas e deixar os cães soltos na rua.

Hotel São Francisco.

Que lugar imundo, odiava aquele lugar miserável.

Aquelas pessoaszinhas miseráveis cujo lixo na porta do prédio ninguém limpava.

Não tinha Coltrane por que não havia música. Havia um rádio relógio e cachorros na porta.

E em pleno centro da cidade, não era mais possível conviver com cães.

Despertavam humanidade nos cachorros de cinza, por isto a emenda 79 proibiu a circulação dos cães na rua.

No meu limite, eu pedia uma cerveja, ou doze cigarros, dependia do dia anterior, normalmente eu ficava na varanda fumando e olhando aquelas luzes medíocres; nem eram boas luzes. Mas eu olhava mesmo assim.

E quando diziam, assine seu nome aqui, eu saía do Hotel, nenhum hotel sério poderia me exigir isso com cachorros na porta, já tinha falado mais de uma vez: se desrespeita a emenda 79, me recuso a assinar. O balconista calava-se ou dizia “tranquilo”, pode subir.

O que eu realmente odiava eram aqueles cães acompanhados de humanos que comiam lixo e me revoltavam. Mas o pior cenário era o daquela gente se flagelando, já bastava meu flagelo de existir.

E eu Ana Cristina, insensível, me odiava. Mas sempre guardava o ódio no lado esquerdo do peito. E era aí que eu queimava ou apedrejava um carro importado, para perdoar o imperdoável, apesar de saber que aqueles cães acompanhados de gente continuariam a me revoltar. E nunca fui pega.

Mas na maior parte eu ficava calada e me sentia medíocre, por que eu era medíocre e ainda não era crime ser medíocre naquele país tão cheio de cachorros e cachorras fantasiadas.

Aquela gente feliz que escutava jazz. E jazz é música de gente neurótica.

Chorar na terapia, sorrir no trabalho, cadê a vida de merda dessas pessoas, pelamordedeus?!

Até na merda tem de ser chic meu bem? Larga este cigarro e esta pose de cú enrugado. Tira a roupa de vinil menininha? Cú não tem acento? Tem? Tá bom, que se foda, o importante é que você tem de sentir que você não causa mais minha querida. Já foi, passou, tá velha, vai morrer logo, espera a maquiagem borrar, e borra rápido meu bem! Borra rápido, vai aproveitando o teatrinho dos merdas!

Quando eu me lembrava das festas que eu tive de ir, e que agora não mais, mas ainda faziam parte da minha memória, eu lembrava que aquilo tudo se retroalimentava. Adorava essa palavra retro-alimentava; só perdia para circuito recursivo. Esse termo, eu usava quando estava sóbria, ou queria agradar alguém.

O fato é que vestir fantasias retroalimentava a porra toda. Eu ia para uma festinha vestida de puta ou de princesa, dependida da ocasião. No final eu sempre mentia. E tinha que voltar fantasiada, por que a fantasia não saía. Não saía com a maquiagem.

Quando eu saí desse mecanismo de merda, quando eu entendi que aquela merda era um circuito recursivo, eu pensei que tinha achado o segredo da felicidade, mas não tem segredo porra nenhuma. Acender o fogão sem se queimar tem segredo, escrever romance tem segredo, beber cerveja tem segredo, mas felicidade, não, felicidade não tem segredo. Felicidade só tem fantasia, e fantasia merda que desbota logo com o sol.

Quando eu comecei a entender o mecanismo me senti iluminada. Foi um momento de merda. As festas se mudaram, e eu ao invés de correr atrás das festas, voltei a ir para o Hotel São Francisco. E cada vez iam menos pessoas, até que teve um dia que o porteiro falou:

– Ana Cristina não tem ninguém lá em cima. A festa foi cancelada. Não vão mais fazer. Parece que a chuva inundou a cidade e ninguém conseguiu chegar.

– Como ninguém porra. Eu cheguei! E molhada pra caralho.

– Pois é, mas não tem nem cerveja.

– Não importa, eu trouxe vodka, me deixa subir zé.

– Tá bom, sobe e desce quando a chuva baixar.

E não baixou. E as merdas boiaram.

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