Clique incessante

são

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A pilha de livros, a nota amassada em cima da mesa. A luminária quebrada.

Absolutamente, nada daquilo possuía relação com o clique incessante que começara há cerca de cinco, ou quinze, ou podia ser até trinta minutos e que me fizera só atenção.

No início tentei achar a fonte do som, mas fui infeliz por que cada cômodo do meu apartamento parecia o emissor; eram poucos cômodos, mas o som era alto e crescia, num rompante, clic-clác, clic-clác, clic-clic-clác.

Procurei três vezes repetidamente, mas creio que na terceira procurei mal, mas o som prosseguiu independente da minha eficácia.

A coisa toda se desenvolveu rapidamente. Pois aquele som não podia ter durado muito. Por que eu me lembro, que depois do som, veio o silêncio.

E o silêncio me enlouqueceu mais do que o som. Falaram dez anos, mas eu nunca soube.

O silêncio me incomodou.

O silêncio tomou todos os cômodos da casa. Não tinha casa.

E cliques; eram cinco ou seis. Clic, clic, clic, CLÁC.

Na terceira batida do clique, que se alternava com o silêncio, eu acendi uma vela, pois achei lógico usar o isqueiro.

O clic-clác-clic continuou. As lembranças da infância surgiam.

E eu comecei a me esfregar na parede. Eu subia na parede. A parede estava branca. Eu batia a cabeça, clic-clác-clác-Clác-cLÁc e CLÁC!!! O sangue jorrou. Cortei-me. Imaginei que fora a marca da cerveja.

Droga, não tomo mais heineken! Nunca mais.

O som do clic parou. O silêncio também. Eu fiquei sentado, encostado na parede, escutando o sangue descer da cabeça para o tórax, e do tórax ia para a perna, e depois que eu levantei tudo se bagunçou, as cervejas, o sangue, a batida, as paredes, as pernas, por que eu resolvi me jogar por cima daquela mesa de vidro.

E eu não escutava mais nada. Quarenta e seis pontos.

E doze meses depois, as pessoas sorriam e falavam que a cena mais engraçada foi quando eu tentei cortar os pulsos com uma faca de plástico meio cega.

E todo dia, falavam a mesma coisa. Que eu tentei cortar os pulsos com um faca de plástico cega.

Hora da visita!

Tentou cortar os pulsos com uma faca de plástico, em pleno Pinel, falavam.

E se repetia, todos os dias. Cortou os pulsos com faca de plástico, clic.

Quarenta e seis pontos, eu lembrava.

Todo dia, CLIC, CLÁC, CLIC, CLÁC, CLIC.

Até que um dia, CLOC, acabou.

Enfermeiro!!!

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