Esta cidade vai matar todos nós

E o que era a vida naquela cidade miserável que chavam maravilhosa? Fugir, beber, morrer?

Provincianismo maldito, que me fazia encontrar as mesmas pessoas, nas mesmas situações, esperando a cidade envelhecer e matar todos nós!

E onde estava Ana Cristina, talvez em um cabaré no interior do estado, onde a vida fluía sem as felicidades do haxixe, da carreira de pó, da cerveja de final de semana.

Maldita alegoria de cidade feliz, onde tínhamos que sair com os sorrisos esculpidos no rosto, aguardando a morte chegar num noticiário que poderia nos encontrar em um ônibus de final de semana, como manchete da próxima edição!

Justiça tinha o nome de fuzil. Liberdade era comprada em doze parcelas, mas podia ser esmagada num poste com quatro amigos simples e descartáveis de final de semana. A igualdade possuía quatro princípios fundamentais, mas só se conheciam um ou dois (dinheiro e cartão), por que tempo era fundamental para a reprodução da reprodução.

Mas esta era a vida média. E a vida média não pode ser vista como todas as vidas. É apenas uma parte entre dois extremos que ainda não arrebentou, mas vive pressionada. E a pressão estourava nos ombros dos incautos, infelizes incautos, como Ana Cristina, que costurava aquela sociedade nos dentes e as gengivas sangrando; mas esta sabia fugir, sabia correr, sabia andar e flanquear como um rato e por isto era feliz com sua miséria pessoal.

E podiam me encontrar margeando daquele mecanismo perfeito fingindo adaptação, mas quando sorriam e se matavam aos poucos, e me chamavam ao baile de máscaras eu sempre dizia que estava esperando morrer.

Niilista, pessimista, ridículo, horrível! De tudo escutei. Poucos me deram tempo para explicar, mas mesmo assim, não entendiam, afinal o horror não se explica.

O estranhamento é pessoal, nasce nos pâncreas, mesmo que eu não saiba e não queria saber para que serve um pâncreas – além de doutorar doutores, sei que um pâncreas não serve para nada que me interesse. Mas a morte serve.

A morte serve horrores; serve-os em bandejas. E o pessimista que me acusavam, ia para os arrabaldes daquela cidade, por que não era possível aceitar a morte quando todos ao meu redor fingiam vida. Era preciso se esconder ou fingir normalidade.

Viver naquele pesadelo era constranger-se cotidianamente. Um dia um cadáver num carrinho de supermercado, outra semana ocupação permanente com força policial: seiscentos homens armados, cerco militar clássico, execução rápida e limpa, nenhum ferido, dezenove mortos. Matavam os negros e comemoravam o fim da escravatura na Assembléia Municipal.

 E eu acabava na margem, esmigalhado na periferia pelo centro, eu caminhava até o centro, onde novas periferias surgiam, até que eu me tornava periférico a todos ao meu redor.

Não sabia andar como rato, não fazia como Ana Cristina cujo estranhamento era resolvido sem maquiagens e normalmente conseguia dizer aquela gente toda, que aquela cidade iria matar todos nós: e faria isto sorrindo, gentilmente.

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