O dia em que Amanda Gouveia mastigou a classe-média e matou Carlos Rosenbauer

Aquela coisa amarga tinha um nome. Não, não era a cerveja.

Era você, e aquele cigarro largado em cima do cinzeiro, aquela sua mania irritante de desviar o olhar e fingir que não estava ali. Porra! Você estava ali, não vem fingir que é um fodão que não sente dor como as outras pessoas.

Foi ali, que eu percebi que você me tomava todos os dias, ia comendo; pedacinho por pedacinho. Quando eu te ligava no horário do almoço, você dizia: – Amor, estou ocupado te mastigando! Liga depois!

Eu desligava por que era uma burra, sonsa, inerte, que até para atravessar a rua, dependia da iniciativa de outrem.

E eu sabia que um dia a fome ia acabar, e você ia sair para mastigar outra mulher.

Aqueles amigos seus cheiravam a glicerina e quando eles te encontravam, parecia que a vida para você era boa, mas para mim era uma merda, minha vida ali parecia ruim. Era ruim. E eu não tinha piscina.

Eles diziam que a vida passa rápido. Vamos correr, vamos dançar, vamos beber, fuder, trepar, foda-se. Vamos cheirar aquela carreira de pó com o looping da montanha-russa martelando, martelando, martelando.

Ou que tal brincar de consciência social? Vamos pesar nossas consciências e carreiras na balança do supermercado.

Quem podia odiar gente bacana assim?

Quando você voltou do banheiro, com aquela barba por fazer e sua voz grave, e eu adorava sua voz grave, eu tive vontade de dizer que não restava nada de ninguém naquele lugar. Que aquele lugar todo era uma merda. Que aquilo tudo era forçado. As pessoas se reuníam por medo, medo de si próprias. Covardes do caralho.

–  Garçom, mais uma cerveja!

– Am-or, Virgínia me li-gou, já estão na Fer-rei-ra de Ma-tos.

Aquela maquiagem me deixava como um perdiz; e parecia que eu estava pronta para ser abatida, fudida, morta no alto sem poder reagir.

Podia subir na mesa e cacarejar, mas não sei se perdizes cacarejam; pouco me importa. Não sei se aquela maquiagem que borrou e que deixava meu lábio maior do que realmente era, me fazia uma perdiz; meu pai achava que era um sapo. Boca de sapo! Carinhoso o velho não?

Sete anos de terapia, sete anos meu amor, Já posso entrar no clube dos imbecis?

E neste clube tinha um dia que era o dia para comer. Outro dia o dia do cinema. E tinha o dia de julgar a todos ao som de um grupo acústico do Equador. Havia as semanas que as pessoas iam ao teatro. Outro dia falavam aborrecidamente de si próprias, das suas carreiras, não as de pó, dos seus dilemas fúteis, dos seus gostos aborrecidíssimos, das suas preferências gastronômicas que não importavam a ninguém… Mas fazia parte daquele joguinho aborrecido, falar e ignorar, aborrecer, ignorar e falar: cagar.

Que coisa chata.

E então eles e elas chegaram. Com seus botões. Com o chale, a camiseta-arte-problema, o cabelo-parangolê: tudo tem seu lugar, até o que não está lá.

– Mais uma mesa amigo!, Carlos, sempre o atencioso e médio Carlos.

E começou com o de sempre, com os beijinhos curtos, sem fôlego: é como forçar o Bóris Casói a beijar toda a áfrica sub-sariana. Dos beijinhos parte-se para o desvio do olhar, o momento em que as roupas e os armários se beijam.

Cabides se encontram.

E a arte de se sentar como um horizonte invencível? Afinal, somos todos um quadro do Monet, me admire, me inveje,  me ame, me goza, me violenta com os olhos meu amor, me chama de bi-polar seu puto!

– Tudo bem querida?

– Tudo meu amor. Garçom, mais uma cerveja.

E apresentamos nossas carreiras, nossas conquistas, nossos medos do sequestro, do desemprego, de morar com os pais e vamos abrindo na segunda rodada, a da batata-frita, os subidiomas dos subgrupos de amigos, todos sub meu amor; sub-pop, sub-arte, suburbano, sub-sempre-alguma-coisa.

Coca light sem gelo com limão. Coca zero com gelo e limão. Gim com tônica e amoras. Sushi de cinquenta pratas. Um cone tailandês. Mas que se foda! Qual é a diferença? Vamos morrer, escutem, todos nós VAMOS morrer.

Vontades ocultas… Garçom, refrigerante 2 litros por favor, socializa esses putos com gelo da bica!

Queridas e queridos cadê o amor? Cadê o fôlego da noite? Acabou?

– Vamos dançar?

– Eu não sei dançar.

– E o mestrado?

– Não terminei o segundo grau.

– Tá trabalhando?

– Desemprego estrutural querida. Chique.

Firme e forte continuamos. E em um momento de iluminação Carlos lança a palavra sagrada.

– Tá, vamos para casa.

– Vamos, vamos que eu quero ser mastigada de novo e mais uma vez, e novamente. Cansei de sair assim da uretra, como quem passeia pela cidade fingindo que o céu está dentro do próprio estômago.

– Débito ou crédito? ele perguntou.

– Dinheiro paixão, dinheiro.

– Vamos sair e sair. Tem um martelo embaixo da cama. Vou te martelar até a morte meu amor. Você e a classe média, sussurei.

– Oi querida, o que você disse?

– Te chupar meu amor, te chupar.

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