Pessoas Descartáveis

Há pessoas descartáveis.

Como Rosa, que na pausa do almoço de Fred, ouvira que “o problema não era com ela”, mas sim com ele. E que tudo iria ficar bem. Que ela podia voltar para casa, que as coisas se ajeitariam. Seriam bons amigos daqui para frente. Bons amigos.

E rosa, já em nome minúsculo, pois já estava diminuída com a maquiagem borrando diante de Fred, encolhia as pontas dos pés repetidamente; pois era assim que sustentara o equilíbrio de um coração prestes a sair pela boca e  que podia cair pulsando bem no meio do Largo da Carioca.

Há pessoas descartáveis. Como Aílton. Vinte anos de firma não são suficientes para impedir um gerente novo e viril de flexibilizar o quadro de funcionários. Um vigoroso cortador de testículos cuja ambição é reduzir em números os descartáveis. Aquele homem sabia transformar hemorróidas em qualidades.

Todo pênis tem suas metas.

Há pessoas que são descartáveis. Como Jorge, o garçom que não conhece nada de Sísifo, mas tem de servir, servir e servir, até não poder mais. E aí, volta a servir novamente, e novamente.

Catarina, sua esposa hidrofóbica repete em casa o velho mantra: Jorge você não serve pra nada!

O pastor pentecostal diz que Jorge tem de servir a humanidade! O gerente  adiposo diz a mesma coisa, mas troca cristãos por  “fregueses”.

E surpreso, no meio da tarde, entre um jogo do Avaí e do Fluminense, alguém pergunta pra Jorge: esse pedaço de cano serve Jorge?

Não, não serve. Ele responde. Hesitante; pois sempre que Jorge serve as pessoas, jorge acha que não serve pra nada.

Como Lousada. Sargento do BOPE, Lousada passeia de farda pra cá e pra lá; em cima do seu cavalo preto; parece o demônio a galope. Lousada desfila, fecha, muda a expressão. A vagabundagem teme Lousada. Lousada é o fodão.

Na casa da mamãe, muita abóbora com agrião.  Não pega esse peso Dona Marli! Eu vou prender a sra!, ri balançando os braços e coçando as orelhas com uma ternura expansiva e natural.

No campo de batalha Lousada é um animal. Mata um, mata três. Emburaca quatro. Saco de plástico na cabeça, facada no pulmão, metralhadora no paredão.

Toda vez que Lousada visita Dona Marli, ou come Manoela, sua pica encolhe seis centímetros.

Algumas pessoas, são descartáveis. Deveriam nascer mortas. Bandidos de merda, cospe Lousada!

E Veridiana? Veridiana acha que suas amigas não servem. E está sempre as trocando. Pois Veridiana tem um medo terrível do apego. Ela não sabe, mas Veridiana é uma zen-budista de propaganda de guaraná. E Veridiana vai trocando de amigas e amigos. Cada vez mais rápido. Entre um fast-food e outro, Veridiana vai trocando. E suas exigências vão subindo. E ela vai amassando as pessoas e colocando na lata do lixo. Não dá tempo de fazer origamis, pois Veridiana é rápida demais. Ela amassa e joga fora.Rápida como seu gozo de mili-segundos.  Des-car-ta essa gente meu a-mor, desscarta, ela diz.

Limpa os lábios Paris Hilton, limpa os lábios com o lenço umedecido.

E qual é a marca querida?

Eu só uso o mundo descartável meu amor.

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Um pensamento sobre “Pessoas Descartáveis

  1. Tainá disse:

    Rafael! Como foi no dia 25? Queria avisar sobre minha ausência mas não sabia que não iria até a véspera. A minha internet está bem ruim mas a gente vai se falando. Gostei demais desses contos. Até.

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