Nestor, o terrorista.

Talvez o mundo acabe hoje mesmo.

Talvez.  Pode acabar todo dia.

Eu saí com aquela pasta cheia. Era nitroglicerina amor. Nitroglicerina não se compra no supermercado.

É preciso muito mais do que gerentes impotentes para construir um mártir.

Eu caminhei no meio da rodoviária, peguei meu ônibus, desci na avenida principal e mirei a bolsa de valores.

Era ali que eu queria explodir, junto com o povo, como num filme do Gláuber Rocha;  sem cortes, e com aquela musiquinha de fundo tocando, com o som do órgão das freiras de petrópolis tocando, e tocando e tocando.

Eu caminhei firme. Em meu peito gritavam o nome dos mártires. Ravachol, Émile Henry, Spies, Parsons, Neeb, Fischer…  Lembrei da conspiração da pólvora!

O céu estava nublado. Eu me achei displicente por perceber nuvens num momento tão importante. Deixemos para os poetas as poesias pensei. E as bombas para os vingativos.

Já que eu não sou meteorologista e nem poeta, posso me afirmar: eu sou uma vingança,  e sem glutamato monossódico.

Atravessei a rua. Havia o sorveteiro. A loja de conveniência cheia de yuppies malditos. Havia ternos, saias. E uma atmosfera sexual naquela cidade de merda.

O sinal fechou e eu atravessei. Estava meio quente, mas eu descia, deslizando pelo asfalto.

Barba branca. Piercing colorido. Sapato novo. Perfume de 200 reais. Cavanhaque aparado.

Que idiotas. Vão todos morrer, mesmo assim.

A morte é estúpida, e lhe pega assim de soslaio, sem perceber.

Bom dia seu guarda.

Bom dia.

Cheguei na porta do fórum: a hora é essa.

Malditos desembargadores! Justiça burguesa! Vão morrer todos eles.

Apertei o mecanismo. O pavio estava aceso. 20 segundos e todos vão morrer.

Eu sou vingança.  O mecanismo não falha. Eu falho. Só tinha poesia e papel comigo.

Eu esqueci a mochila.

Eu deixei-a no sarau.

E era um sarau no Leblon.

E era um sarau no Leblon organizado por um Buarque de Holanda.

Por que diabos eu esqueci… Foi no meio do discurso à favor dos pobres, enquanto serviam pró-seco e champagne e gritavam contra as remoções.

Spies, Parsons, Lingg… Eu falhei…

Me desculpem por explodir o lugar certo.

 

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3 pensamentos sobre “Nestor, o terrorista.

  1. ki disse:

    E na vida se segue, destruindo alguns mundos e construindo outros.
    A grande questão é fazer “da maneira correta”.
    Aguardo seu msn.
    Beijos

  2. Rayssa disse:

    cadê? não escreve mais ?
    sentimos saudades das coisas q vc escreve !!

  3. Tainá disse:

    Hey, cadê você?

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