Uma revolução freudiana

Rafael Vendetta

Eu perdi Justine há dois anos. Ela era minha paciente. Cuidei de Justine durante doze meses. Hoje tomo 90 mg de fluoxetina, mas ainda sinto uma cefaléia crônica que ninguém nunca conseguiu curar. Sinto uma sensação de prazer ao subir no banespão. De lá eu sinto vontade de voar, voar, voar como São Jorge e o Dragão. Algumas pessoas me disseram: vai passar. E eu dizia: e o banespão? Outras me disseram: não, sua dor de cabeça, procure a igreja, pobreza não é de deus. E eu dizia: você tem plano de saúde? E aí ninguém dizia nada. Porque as pessoas sentiam culpa de ver as outras sem plano de saúde.

Mas eu segui, segui com a perda de Justine nos ombros, nos bolsos, onde dava para guardar. A psicóloga me dizia: “É preciso ficar atenta quando a melancolia é frequente ou tem grande impacto no cotidiano, criando dificuldades em fazer as atividades de vida diária, como se relacionar e trabalhar”. E eu dizia: você leu isso com o Goffman? Ela enrubecia e escondia o manual por debaixo da gaveta.

E eu continuava falando: Você quer que eu trabalhe? Eu também quero trabalhar. Mas a tv dizia que a miséria era do diabo e um dia, na Carta Capital eu li que meu pastor tinha 15 milhões guardados e nunca jesuscristou com ninguém seu parco salário de filho de deus. As pessoas abaixavam a cabeça e paravam de falar comigo.

Minha terapeuta, quando confrontada com esses fatos, respondia: você está racionalizando sua dor? O que significa essa sublimação pra você? Eu dizia: só quero saber se seu diploma vale alguma merda e se você se endividou como eu! Fora isso, tudo é teoria freudiana. Ela terminava a consulta e falava pra eu  anotar meus sonhos, mas eu sentia que ela tinha voado como uma borboleta e algum pedaço de mim, tinha grudado no seu pulmão de psicóloga e que ela nunca mais me atenderia do mesmo jeito.

No final do dia alguém dizia na fila do ônibus: revise sua medicação. Eu sussurava: peça para o governo baixar os preços! Mas uma voz na minha cabeça, uma voz gritava: sua cabeça não boa Justine, não tá boa… E eu dizia ao som da internacional: que a fluoxetina seja dada de graça aos pobres. Viva a revolução.

Depois desses dias turvos eu desisti, e fui caminhando por entre os escombros de um maio de 68 qualquer. Segui os jargões. Escrevi em todas as paredes do hospital com giz: “há dias que são cinzentos”.  Um dia um mulher me olhou com ar de reprovação. Era uma enfermeira. Ela questionou: essa frase é do che guevara?

Eu disse, não é do Camus. Ela se calou, deixou cair um termômetro, visivelmente nervosa e disse olhando os cacos: tome sua medicação.

Eu falei: vai ler o Estrangeiro.

Ela emudeceu e começou a chorar.

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