Esculpir modelos: talhar a si mesmo como pedra

Papai e mamãe fizeram modelos que muita gente celebrou como os definitivos da vida. Bolinho, casamento, festa de 1 ano e voilá, um cadeado com a família inteira, segurando cinismo e explosivos no estômago do tio júlio, que irá morrer de câncer ano que vem.

Os amiguinhos mimados e as anacristinas descoladas que dançam ao som de Bob Dylan e usam vestidos dos anos 50 como se estivessem no mundo a passeio fizeram modelos que muita gente celebrou como definitivos. Eram anti-modelos costurados na faculdade de moda em Frankfurt ou numa viagem a passeio no Canadá, ou pode ser na Bolívia, para parecer um importante-crítico.  Parecia simples, pisar em alguns calos, subir na carreira, viver a vida intensamente até o pulmão e os olhos encontrarem algum psicoativo com nome de banda londrina e algemar-se ao próprio umbigo para o resto da vida. Chamava-se isto de coração ou apenas paralelepípedo. Eu não sei o que acontece com essas pessoas. Eu não vejo o futuro dessa gente, não sou cigano nem astrólogo e não gosto de mirar o passado sem um plano bem amarrado.

Nesse mundo novo, admirável e feliz, de anti-modelos e modelos, a consciência brinca com os tolos de jogo de armar. Cigarro e cinismo vem e vão, junto com as passagens de metrô ou os cursinhos de pós-graduação. Eu só sigo meu  estômago quando o coração diz que é hora de parar. E só respondo meu coração quando o estômago diz que é hora de prosseguir.

Eu desci a Rua da Carioca com isso na cabeça, mas eu não pretendia pensar mais em nada. Eu apenas fumei cigarro, como meia dúzia de tolos e tomei uma cerveja. O dinheiro acabou. Eu voltei pra casa, peguei mais grana e desci. Bebi mais cerveja e cantei sozinho.

Voltei pra casa e bebi água. Comprei pão (que coração de paralelepípedo compra pão num domingo? eu deveria estar fumando haxixe ou comendo aquelas comidas japonesas que não sei dizer bem o nome).

Aí fui seguindo. Parecia simples. Era apenas boa música, um caneca de água gelada. Eu olhava para os trilhos do trem, passava por cima da passarela, andava pela rua pensando naquela iluminação toda e o povo na semana anterior, fantasiado de modelos e anti-modelos, e ia seguindo.

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Eu lembrava daquele banco que eu dormi, de madeira, de um pináculo que levava a um coração abaixo e a esquerda, no centro da cidade e pronto, explodiam-se as diferenças de classe, os hábitos, os absurdos cotidianos, tudo mudava de repente… Era esperar o mundo acordar amanhã, planejar o dia e a semana, viver, sentir aquele cinza invadir novamente as mesmas ruas, e eu ir colorindo tudo, devagar, como quem tivesse perdido os modelo da cabeça.  Mas um dia resolvi ficar rico de desgosto e de alegria, tudo junto e ao mesmo tempo.

Catei paralelepípedos soltos e comecei a pintá-los com giz de cera. No outro dia, decidi comprar uma talha e fui esculpindo e marcando os corações. Coloquei num parapeito e aí, muita gente começou a aparecer. Todo dia alguém trocava seu coração por um paralelepípedo pintado de giz. Eu não fazia a cirurgia, essa eu deixava para o mundo. E os pombos voavam longe daquilo tudo, felizes por não terem de carregar os paralelepípedos. Aí fui seguindo, fui seguindo. Fui seguindo, distribuindo corações de paralelepípedo ao mundo e nunca mais reclamei dos modelos e anti-modelos: no fim era tudo igual. Era tudo a mesma coisa.

No final de semana eu respirava aquele ar todo, rico de alegria e de desgosto, mas nunca triste, pois não se pode ser triste num mundo que precisa talhar a si mesmo todos os dias.

Não se pode jamais ter o privilégio de fracassar com o que o estômago e o coração dizem pra gente. Não se pode errar consigo. Deve-se repetir máximas morais para agradar os dois lados, ainda que  arrancar um pedaço de pedra não é um hobbie, nem uma arte, é apenas um esporte de combate.

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