A arte da guerra e do cotidiano para ineptos

Rafael Vendetta

Amanhã eu vou planejar meu dia. Primeiro acordar cedo, depois conseguir tomar café, sem voltar para cama. Cansei de deixar a água esquentar até evaporar e ter de recomeçar tudo de novo para tomar um café, depois de três ou quatro tentativas de acordar. Eu vou tomar banho e lavar o rosto com aquela coragem da semana anterior.

Quando a comida estiver pronta e eu tiver varrido a casa, virá a ansiedade para tentar me explodir. Será justamente aí, que  eu vou parar tudo e sair de casa para fazer algo que eu gosto. O problema é que eu não sei do que gostar. Eu só sei sentir o mundo, como uma chaleira de café, que esquenta três ou quatro vezes antes de virar café.

Eu vou andar pelos paralelepípedos cinzas, pisando nos corações esculpidos na rua e olhar para a nuvem, mas não há nuvem amanhã, há um sol de 40 graus que não dará espaço para a vida e a poesia.

Eu vou fugir do calor, mas da ansiedade não.  Eu vou dizer para você que está tudo bem, pois é assim que todos fazem quando entram num prédio pela oitava ou sétima vez.

Quando tudo estiver no limite, eu vou parar e respirar como Rafael Barret, que dizia: “Desde que soy desgraciado, amo a los desgraciados, a los caídos, a los pisados” e assim, seguirei, no outro dia, como se nada tivesse acontecido no dia anterior, como se a dor fosse curada com panfletos e cartazes, mas não é. E eu vou seguir, andar, sorrir, por entre os paralelepípedos amarelos ou azuis, tanto faz. De que me importa.

E para os que tem as receitas, os modelos, para os que falam “seja feliz e continue sua vida, aceitando o que vier, adapte-se como um idiota” digo, vão se fuder, me deixem com meus invernos. Fiquem com seus verões, guardem-nos em seus bolsos para os dias frios. Não tenho um espelho em cada passo, e quem tem? Repito e insisto: aos que querem repetir máximas de botequim, vos digo, apenas ouçam, o resto é demais. E todo o demais é desnecessário. Vão escutar, limpar as orelhas e escutar. Não digam isso para mim. Hoje é meu inverno. No inverno só se fala o tempo todo, a vida é assim.

Eu sigo e vou andando. Deixe meu caminho seguro, que eu seguirei sem bengalas e comentários-diamantes. Aos que dizem: você tem de ser mais positivo. Eu vos respondo, quando chegar seu abismo, vai dizer isso para si mesmo, tem certeza?  Se só diz algo para o outro que não vale a si mesmo, de que serve esse lixo? De que serve?

Aos que dizem: escute seus sonhos. E eu respondo: como faço com os pesadelos? De uma maneira ou de outra, amanhã é outro dia. A resposta não está nos bons conselhos, nas frases de efeito. A resposta está no tempo.

Naquele raio de sol que invade meu quarto e diz pra recomeçar. Se o sol vai acabar ou não, não faço ideia. Sei que agora ele é meu ponto de referência mais importante. Deus nunca apareceu para me acordar. Nas duas ou três tentativas é aquele sol covarde que chega e diz: acorda seu imbecil. Se eu fosse um deus eu seria um sol. O sol só faz as pessoas sentirem. Ele não dá conselhos. Não distribui máximas morais. Não faz comentários-diamantes. O sol não explica nada. Ele aquece todo mundo e de uma maneira ou de outra, amanhã será outro dia. Sigo.

Eu tenho o sol ao meu lado. Eu vou dizer para você que está tudo bem, pois é assim que todos fazem. Mas entre um raio solar e outro, eu vou acreditar. E será isso parceiro, será isso que vai me manter vivo.  O resto é perda de tempo. É conversa de imbecis.

je-suis-rotina

 http://www.pseudocontos.wordpress.com

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Um pensamento sobre “A arte da guerra e do cotidiano para ineptos

  1. ela disse:

    os paralelepípidos sempre mudam de cor….
    me lembrou muito essa música: http://www.youtube.com/watch?v=PGX6oR4dxZQ

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