O amor é classista

A maior ilusão do mundo é colar seus sonhos e desejos na roupa das pessoas. A gente faz isso o tempo todo e é um exercício bom e prazeiroso, que alivia o futuro como analgésico, mas num momento específico, os sonhos e desejos das pessoas colam na gente ou não seguem o roteiro previsto. E aí parceiro/a, fudeu.

Eu evito pensar em pesadelos. Mas eles também chegam. Às vezes, aquela estrada de paralelepípedos amarelos acaba no lugar errado ou toma um caminho que não é bem o que o coração do lado esquerdo quer tomar.

temakiA única coisa que eu aprendi, e demorei 30 anos para aprender, foi que a gente sempre acorda no dia seguinte. Quando tudo dá merda, a gente lembra que sempre vai acordar amanhã (e quando não acorda, foda-se, isso não vai fazer diferença). E outra coisa que eu aprendi, foi que você deve evitar gente que vive como se houvesse uma câmera da MTV filmando seu cotidiano. Não tem MTV na quebrada. Não tem MTV às sete horas da manhã. Não tem MTV quando a gente lava a louça do jantar, pega o Tiradentes-Penha às duas da manhã e não tem MTV filmando Vicente de Carvalho.

A dor é universal. Mentira. A dor é maior para quem sofre mais. Universal é a mentira, Universal é a igreja. A dor é específica, de cada um ao que é seu e isso é o que basta. Na única vez que eu pensei que podia dividir Vicente de Carvalho e meus paralelepípedos amarelos cheios de adesivos de expectativas eu caí na maior cilada do mundo. Aquilo lá é só meu e é mais complexo do que a Europa.

Quando disserem pra você que o amor é universal diga que é mentira. Todo iludido sonha com um chifre de unicórnio colorindo a disney dos playboys e entregando o sapatinho da cinderela numa aquarela high-tec da vida, mas a realidade diz o seguinte companheiro/a: há luta de classes até nos romances. Um dia a síntese chega.

Deixa a ilusão para a Europa. Aqui bukowski é boteco, psicólogo é pinga e amor é esquina. O amor nessa terra, resolveu ser classista só para contrariar o idealismo alemão e anglo-saxão do Leblon e da “Grande” Tijuca, aquele amor-isopor com Temaki no final de semana. O amor aqui sai pela porta da frente às sete da manhã com o carteiro entregando a fatura da geladeira. O amor aqui não tem hipocrisia moral invertida e não transforma vício em virtude. O amor aqui chega de trem e não gosta do insosso. O amor aqui é uma grande verdade esfregada na cara. Não finge ser bacana para combinar com a sua coleção de vinis e de sapatos. O amor aqui meu irmão é classista.

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