Professores fudidos do mundo e a ditadura do temporário

Rafael Vendetta

Estou esperando, como muitos outros fudidos e talvez numa condição muito menos fudida dos que me antecederam ou dos que agora estão aqui, o emprego estável desde 2000 (que me livraria da vida fudida) quando me formei (no início do verão de 1999) no segundo grau. Parei pra pensar e vi que já se passaram 13 anos de ilusões da ditadura do temporário e que já era hora, hoje, depois de uma reunião de seis horas, de encarar a coisa de frente.

Mas que coisa fudida esse mundo.

De lá para cá, só bolsas (algumas escrotamente irrisórias), empregos temporários, contratos de ocasião, bicos ou filhasdaputagem do tipo, “depois disso você vai ter um salário decente e aqui é só uma fase”. Com o diploma de graduação não tive muitas ilusões, porque todos os meus amigos que se formaram em humanas/afins passaram pela via crúcis de ficar desempregados  com o papel na mão durante meses (ou até anos), ou na melhor das hipóteses, vagando entre escolas precarizadas (que infelizmente viraram escolas temporárias para a maioria deles) que não eram o emprego “permanente”. Mas mentira, a gente sempre tem ilusão, porque ilusão é a base do sistema fudido que mói gente como carne no moedor.

Alguns professores decidem fazer mestrado/doutorado, porque segundo o mercado de trabalho, com mais “educação” “agora vai” e alguns vão se iludindo numa compensação meio fudida, onde preferem viver mal mas poder citar mentalmente duas frases de Nietzsche na fila do sacolão. Os que estão em escola particular me falam: “eu quero sair”, o que estão na escola pública, esses fudidos que apanham na rua com borrachadas de alguém que ganha mais para bater do que aquele que apanha para ensinar, tentam melhorar o que sobrou do resto dessa coisa fudida que chamaram de educação. Que vida fudida. Que educação fudida. Que borrachada e gás lacrimogêneo fudido, que dói mais no coração do que no corpo. Que merda de sistema fudido e ruim. Que capitalismo de merda, que protege os ricos, mata os pobres e tortura os que sobrarem.

Nós não somos pessoas vocacionadas. Para o inferno com a vocação, os santos, a visão missionária que nos diz que escolhemos uma “missão” e que temos de aceitar os percalços da escolha. Parceiro, eu não escolhi merda nenhuma. Foi esse sistema que me escolheu. Foi ele que escolheu fuder os/as professores/as, os camelôs, os sem-teto, os sem-terra e todo/a aquele que se revolta. E eu, nesses treze anos entre empregos fudidos, desempregos fudidos e militância fudida, participando de reuniões de fudidos/as esperando tudo melhorar, mas os canalhas trabalham em ritmo industrial e nós, as desgraçadas e  desgraçados do mundo somos obrigados a fazer a vida e a luta em ritmo artesanal.

Meus amigos que estão na pós-graduação e não compactuam com esse sistema fudido vão seguindo passando por percalços típicos de fudidos, mas falta-lhes, que pena, a boina, o martelo e a mão suja de graxa, ainda que sejam uns explorados de merda, que produzem números para um país de fudidos, para um governo fudido, produzindo teses de fudidos que ninguém vai ler. E ainda assim, tem uns fudidos que resolvem chamar a gente de privilegiado, academicista, pequeno-burguês e tudo o que é certo por um lado, se pensarmos nos fudidos que fecham fileiras com os inimigos e os bajulam com verbetes acadêmicos, mas por outro lado é errado, pois não sabem, ou fingem não saber, que hoje o sistema passa por cima de você de maneiras e com ilusões diferentes. Mas o rolo compressor está lá, vindo para nós.

O conhecimento acadêmico até é bonitinho na sala de jantar da família durante aquela festa de natal, mas mal paga contas, não dá FGTS, não dá férias, não tem direito trabalhista e não protege de assédio moral. Somos precários/as, somos fudidos/as, assumamos esse fato, tal como, um gole de café amanhã de manhã.

imagesO que motiva essa galera fudida de continuar na ilusão de que o fudido vai passar é aquele emprego duradouro de relação candidato-vaga de  97 temporários para 1 permanente que se acotovelam esperando sua vez de serem permanentes-fudidos, mas sabendo, como eu agora sei, que o temporário e o fudido são permanentes num mundo de gente fudida como eu e você.

O fudido é uma condição do mundo que só vai sumir quando os fudidos se organizarem e pararem de ter ilusões sobre sua condição. Não vai melhorar amanhã, nem depois de amanhã. Eu pensei isso em 1999, 2000 e 2001 e nos anos seguintes. E ano após ano falavam que tudo ia mudar, mas porra, não mudou nada e se você está lendo isso aqui, saiba que daqui a 13 anos pode ser você, aqui, no meu lugar. E daqui a pouco eu morro com a mesma ilusão de merda sendo jogada com as flores no caixão, de ter uma coisa permanente num mundo de gente que trabalha para o precário virar regra.

Às barricadas da luta fazer da vida uma coisa menos insossa e fudida para tentar fuder aqueles que passam por cima da gente, nos vandalizam, nos depredam e nos aterrorizam todos os dias. A revolução não vai ser semana que vem, mas é hora dos/as fudidos/as pararem de perder tempo e ir direto ao essencial. É hora de encarar a coisa de frente.

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2 pensamentos sobre “Professores fudidos do mundo e a ditadura do temporário

  1. katonigra disse:

    Belo desabafo… fudido.

  2. Giulianoquase disse:

    Coisa fina, meu chapa. Manda ver nas letras, aí!

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