Proletárias/os do amor e da culpa

Rafael Vendetta

Vou tirar algo do estômago e você não vai gostar.

Eu vou te falar a verdade.

Eu finjo a maior parte do tempo. Se chocou? Então vou falar sua parte da história. Você também meu bem…Acha que meu cinza cai bem com seu marrom e verde por que diabos?

Fingimos juntos porque adoramos o cinza dos nossos corações. A-do-ra-mos.

Tratamos e trabalhamos a massinha de modelar da sociedade no nosso peito. Somos  proletários da culpa.

No meu apartamento há uma rede em todas as janelas. Quando as pessoas entram, eu digo que a rede é para os gatos, mas é mentira, é pra mim. E pra você, pra você não se jogar. Quando você entra, eu escondo as cartelas de rivotril no fundo do armário e os cascos de cerveja na área, onde ninguém pode ver, aquela parte do mundo, aquele esgoto.

Pensa nisso amor. Meu amor. Minha paixão. Enquanto você foge gastando milhas da Eurásia até o Butão, eu estou aqui, jogando War e morrendo. Mas a gente morre todo dia. E no final é igual.

Alguém lê jornal, alguém morre. Enquanto a minha campainha toca, alguém (você) viaja pra França; e eu aqui, olhando tudo com desgosto, e rindo da sua tentativa de trazer sentido para algo que eu juro, nunca teve nenhum sentido.  Pode correr, pode fugir, pode até sorrir e fingir que tudo está bem, que era isso que você queria, mas convenhamos. Convenhamos, na pausa entra a fé e o ceticismo: o castelo de cartas desabou. Nada mudou.

E você aí correndo e fingindo…  Que sempre desejou essa mudança permanente na sua vida. E o sol nasce amanhã, só com lençóis e cheiros diferentes. E eu estou aqui, comprando pão e pensando no imperialismo na Albânia.

Tenho sorte por ter te conhecido. Mas depois, paguei um terapeuta, que ficou quarenta sessões tentando tirar você de dentro de mim. Mas não adiantou. Quando eu achei que você tinha morrido, vi que você estava por sob os escombros. Eu fui colocando camadas por cima de você: Joana, Clarice,  a política, Isabel, o cheiro do mar, minhas traduções, a semiótica e Luana…

E aí depois veio a fase do não saber mais o nome das camadas, camadas de final de semana. E sempre que estas camadas acabavam eu me distraía com álcool ou cigarros.

Passou, e eu fui costurando outros amores, mas eles desmanchavam sempre que a chuva caía.

E sempre que ela caía, eu olhava teus olhos lacrimejarem afago e tristeza; e era neste ponto que eu fazia minha dor encontrar a dor do mundo, apenas por conveniência e sossego de saber que havia mais gente sofrendo muito mais do que eu. Eu andava à esmo pelo centro da cidade. Eu adorava ver os paralelepípedos molhados. Acabou aí a arrogância. Acabava tudo.

Eu comecei a viver de lembranças. E não era  muito justo. Aquele cinema; nunca me esquecerei. Aquela viagem. Aquele passeio. Ainda me lembro de toda aquela rua sabe; com todos os detalhes, com você procurando alguma música numa loja triste, que hoje nem deve mais existir; lembro daqueles livros que eu procurei e não achei, pois eu não procurava nada, eu esperava você. Era tudo teatro. Nunca vi um filme tão chato num cinema tão bom. Tão bom quando você me olhou no meio da sessão e me tocou para saber se eu era parte do filme, ou se algum de nós dormia acordado. Você tocou aquele pedaço de fantasia. Você viveu aquilo, e eu vi, senti, e correspondi. Superficial.

E todos meus amigos me alertaram que era loucura. Eles estavam certos, e por isso erraram todos. Eles não sentiram como eu senti; os pés na areia e aquele teu cheiro invencível. Eles não sentiram aquele som, aquele beijo, aquele encontro casual que parecia infinito como a cerveja no bar que acaba, que desenha o fim.

Eles não sentiram. Teu beijo, teu perfume, tua pproletariat-loveele, tua língua lasciva, e nem te viram acordar tão linda com os olhos que abriam a manhã. Era você no nosso apartamento, só nosso, como quem briga, morre, e nasce no amanhã. Era você que matou todas as outras. Você matou todas as outras e fez nascer um amor em mim que não cabe na mesa.

Na manhã esperava te acordar; se envergonhava.

Doparam-no diziam. Outro disse que era amor. Mas corrigiram-no: amor se planta. Isso é paixão, é paixão de chuva, que dá e some. Acabará rápido, outro comentou.

Tolo, jamais acabou. Jamais acabou, pois seguia de amor em amor, de ilusão em ilusão, de viagem em viagem. E quem ficou viajando perdeu. Perdeu pois só se ganha fingindo e você foi ser sincera, e ser sincera é fingir, e pra fingir precisamo estar certos e você por não estar certa, fugiu, fingiu demais e ficou viajando até morrer, farta de si própria. Você nunca acordou.

Por isso que eu fiz. Por isso que eu fiz e te larguei para o resto da vida e fui viver minha vida nesse meu apartamento, falando as coisas que você não gostava. Foi por isso que cansei de fingir e fui viver com vocês, pois, paixão é chuva que se dá, se planta e se come, e você certa demais de tudo isso, viajou até morrer, farta de si própria, fugiu. Você nunca acordou.

https://pseudocontos.wordpress.com

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: