Família fella-feelings

Rafael Vendetta

Deslocado e quem haveria de ser? O posto era meu e eu ocupei sem escândalo. Ninguém me colocou nessa posição pelas minhas crises de choro na festa do Tio Lauro, não, eu nunca chorei publicamente, isso é coisa dos filmes. Não, eu não quebrei pratos, não fui para a reabilitação (mas conheço gente que foi) e tampouco fugi com meia dúzia de mudas de roupa para a Alemanha oriental. Eu segui como de costume e meu maior atrevimento foi ser o que eu sou. De ir além do que era preciso, porque o que era preciso era ficar restrito ao que todo mundo achava que eu era. Depois disso, alguém percebeu e foi assim, que tudo começou, tudo, sem muito alarde.

É na segunda metade da vida que a gente aprende a negar, escolher, optar. Em algum momento eu resolvi escolher o que eu queria, mas dei o azar de ser o esquerdo da família. Todo mundo dá um azar no mundo, esse foi meu azar. De nascer esquerda ou esquerdo. E me lembro bem, pois bem, nunca se esquece quando se ganha a consciência de ser esquerdo. E foi numa nobre ocasião, onde a quadrilha de festa julina, feita por demagogas do jardim de infância, pretendia me cultivar como um cacto, até que resolvi estragar a expectativa feliz da tia Cláudia e resolvi não dançar. Não dançar tia Cláudia. Não dançar. Estraguei tudo tia Cláudia. E só tinha seis anos. E todos e todas dançando e bailando, enquanto a tia Cláudia quebrava um lápis com a força dos dedos e da tradição e as demagogas formadas no amor às flores que ainda não desabrocharam, me deixaram lá, assistindo tudo, impassível. Eu, heróico-esquerdo, jovem esquerdo, com apenas seis anos, sentado, de braços cruzados, olhando a festa da primavera, digo, a quadrilha, para lá e para cá, bailando como a Luftawaffe nos céus de Paris. Depois disso foi como se eu tivesse chamado o mundo para a briga.

1024px-August-Landmesser-Almanya-1936Eu esperava uma oposição irredutível. Esperava alguém gritar, apontar o dedo, me combater. Esperava ser deserdado, ter meu direito negado na divisão do pavê de final de ano, ou até mesmo, alguém fechar a cara quando eu entrasse com aquela blusa em homenagem aos pretos e pretas que derrotaram com armas na mão o regime colonial francês. Mas não.

O funcionamento interno seguiu outro caminho. Eles sorriam e apertavam minhas mãos. Eles me serviam bolo de baunilha e até lembravam de mim quando aquela reportagem na Tv a Cabo mostrava meia dúzia de esquerdos no Egito ou no Paquistão.

No primeiro jantar ninguém ligou: menino das letras! No segundo, nenhuma reclamação, “ele tem  opiniões diferentes” e no terceiro ou quarto reveillon eu já era parte do teatro (esse garoto é muito inteligente sempre frisavam), junto com o alface e as piadas recalcadas no fundo da sala. A ovelha contrariada tem seu lugar no presépio de fim de ano, ao lado do Papai Noel. Alguém até fingia uma polêmica, apesar de tudo não durar mais do que cinco ou sete minutos. Eles me serviam e até davam aquele tapa nas costas ensaiado. Eu também tinha meu lugar na mesa e quando a polêmica surgia, depois de cinco minutos, as oposições pacificavam-se com guaraná e fotos familiares. E passava-se a conversação monocórdica, com as cortinas, o sorriso dos cunhados perfeitos e os genros que agiam como os genros deveriam agir. Pois os genros bons eram os genros que agiam como os genros deveriam ser: magnifique. Fella-Feelings rapaz.

Sim, tudo acabava bem. Encantador. Esplêndido. Perfeito. Tudo alinhado, junto com os astros e os aniversários de junho, julho e agosto. Sim, tudo no caminho: filhos, faculdade, cortinas e meninos de um lado, meninas de outro. Tragam o molho rosê e a aspirinas do tio Joel. Que menino inteligente frisavam! Nossa, como é inteligente! Tia Cláudia, eu ainda estou aqui, mas não há mais lápis quebrados. Você agora pode sorrir e fingir alívio quando eu entrar. Você quer dizer tia, mas não consegue, a música está tocando, eu posso sentir. Eu só escuto os ruídos do telefone e  os atos falhos do intervalo do guaraná.

Que violência.

https://pseudocontos.wordpress.com

* A foto é de um comício nazista. August Landmesser em destaque é o nosso herói.

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