Sentido contrário

Rafael Vendetta

Eu resolvi mexer em papéis velhos escondidos lá no fundo do armário e da cabeça. Comecei a jogar tudo fora para a outra geração poder chegar e usar o espaço que lhe cabia. Pessoas mais jovens, mais rápidas, mais espertas e com uma fome de poder precoce que mereciam um espaço-premium na minha cabeça.

Tudo delas era realmente mais bonito e florido, os sonhos, as paixões, as viagens e até as camisas de flanela, pareciam mais jovens e interessantes e em breve iriam comer meus rins no happy-hour. Eu já era passado.

E não podia fazer mais nada do alto das minhas três décadas e meia, quase quatro, a não ser fingir experiência, quando o que eu tinha era uma vontade de involuir, regredir, voltar aos dezessete ou aos dezoito e tentar competir de novo com aquela gente que já tinha doutorado ou uma revolução nas mãos com vinte e seis anos e culhões de tungstênio importados da Europa. Eu não, eu era muito mais lento e pesado. Era como um cessna velho que voa com dificuldade gralhando como um pato e batendo as asas no final da pista até morrer e sorrir, explodindo no canteiro central.

Eu era um pato-de-foto. Abatido naquela competição de estadounidenses fortes, sulistas, com plantações de algodão, rotinas e rifles na mão.

Essas pessoas agressivas que andavam com um Nietzsche ereto no meio das pernas, prontas a sodomizar os passageiros no trem da história diziam em bom e alto som que chegariam a Lua em mais alguns anos e eu aqui, dando voltas no quintal de casa, jogando videogame com o liquidificador. Esses jovens fingiam falar português, mas cagavam em dinamarquês, neozelandês e quando queriam, ofendiam em esperanto.

Era uma geração muito faminta e suficiente que sempre apertava os botões certos. Não havia nada que não soubessem ou não tivessem opinião: da teoria dos fractais na República Dominicana a perestroika na literatura polonesa, essa sim era uma juventude farta de si mesmo, que moía o passado com os olhos sem expressão. E para isso precisavam moer, moer o passado, como mármore cheia de desprezo. O passado para aquela juventude era uma coisa terrivelmente injusta, pois no passado só há erro e traição.

Em pouco tempo iriam despedaçar você com a retórica nas mãos e fariam você correr até estourar os joelhos. Mas foi aí que eu resolvi parar. Foi na esquina, quando as bandeiras e os botões passaram, eu sentei no paralelepípedo bebi água e vi o horizonte se abrir. O sol se pondo e eu olhando para as pedras e para o mar. Eu voltei e andei ao contrário, mas eles já tinha me carregado, eles já tinham me levado para o fim da história e eu só pude, esperar e morrer sem direito a opinião, pois já tinha me enferrujado demais. Em algum momento que eu não me lembro, eu resolvi andar no sentido contrário.

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