A Pedra e a Carne – O primeiro dia

Rafael Vendetta

Não tinha ninguém.

Quando eu me sentia frágil, um ninguém, a fragilidade me esmagava como pedra moída na carne, e a fragilidade explodia, ou ia para uma caneca vermelha como se ela fosse dar respostas. Mas naqueles momentos sórdidos a vontade era apenas café. Não era nada demais. Eu protestava a toa.

Aquele tijolo pintado de argamassa, aquela tinta branca (fascista), aquele quarto e situação de merda e era hora de aproximar a fronte do mundo e dizer que eu ia moer o mundo pela manhã, mas era mentira, eu só ia dormir e me afastar, afastar e isto funcionaria nos primeiros segundos. Mas depois era o vazio. Depois nada mudava. Era o motim, a mentira nos jornais, o calor de 37 com sombra, a poesia, não, porra, não tinha nenhuma poesia e o silêncio. Em 1999 eu tinha tudo mas desperdicei minha chance. Eu tinha uma camisa listrada, um tênis velho. Eu tinha amigos, dor no fígado e nenhum piano nas costas. Eu podia ter feito alguma coisa, mas meus amigos só podiam sobreviver e eu segui o que tinha de seguir, e sinto-me honesto, por ter decidido não avançar.

O telefone (hoje) tocou e alguém gritou meu nome. Depois foi só tempo perdido. Palavras de tempo perdido. Menos tempo agora para mais tempo adiante. Tarefas. Era tempo perdido. Um murmurinho de fazer coisas mais pra frente e depois ganhar alguma coisa com essas coisas. Eu não entendia bem. Mas a lógica era perder tempo, para no futuro ter mais tempo e seguir com honestidade, dinheiro ou orgulho nas mãos. Eu não entendia muito, mas isso se aplicava a tudo, ao trabalho, a mudar o mundo, a sair e beber. Ninguém ligava para falar que podíamos sair sem compromisso pelo mundo, sem nos preocupar com o tempo adiante. Ninguém dizia, vamos moer a carne em algum lugar escondido do mundo. Um lugar sujo e feio, mas onde ninguém perde tempo para ganhar mais tempo adiante.

No fundo da cozinha alguém gritou. Eu ouvi pratos e copos quebrando. Mas não era nada. Eu custava acreditar, mas isso sempre acontecia. Era o gato que não existiu, a borboleta que voava, a campainha que não tocou e alguém me chamou, mas eu abri a porta e não tinha ninguém.

Um sofá

https://pseudocontos.wordpress.com

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