Amar é como um fusível queimado

Rafael Vendetta

Não se morre duas vezes, mas eu duvido que possa se amar mais de uma ou duas.

Há um mecanismo, como um fusível queimado que não te deixa amar mais de uma ou duas vezes. Essa é a meta. Gaste bem seu amor, pois é assim que será. E minha experiência é que não, não sabemos como gastar, gastamos em princípio, logo com uma ou duas pessoas erradas e quando a realidade cai, não se pode mais retornar ao que era antes. E quando a gente quer trocar o fusível, descobre que já saiu de linha.

Não adianta procurar naquele conjunto de lojas simpáticas de eletro-eletrônicos, tampouco pedir para a fábrica enviar, pois as portas e as oportunidades já se fecharam. Você perdeu sua chance.

A solução é perambular pelos sebos, lojas de antiguidade, antiquários e lugares velhos. E foi assim que conheci minha supernova, andando de tiara nos fundos da Praça XV, com aquelas mesinhas desmontáveis e uma coleção de vinis velhos, esperando amor. Ela me perguntou se eu tinha um fusível reserva. Eu disse que já tinha perdido minhas fichas e ela me ensinou a fazer uma ligação direta do coração com o mundo.

– Pode doer na primeira vez. Mas depois que funciona, você não tem mais problema com isso.

– Tem algum efeito colateral, perguntei?

– Comigo apenas um, parei de pisar nas linhas das calçadas.

No primeiro dia eu não acreditei, segui como um rádio antigo, com a supernova nos olhos, tocando Johnny Cash no meu coração até que li um anúncio no jornal, que indicava que havia um fusível vermelho e verde à venda entre o Catete e o Largo do Machado.

Corri pra lá e fui atendido no balcão. Perguntei pelo fusível, disse que era urgente, pois precisava amar de novo. Ele disse que acabou de vender.

– Mas era o último da linha, protestei!

– Eu sei disso, devia ter chegado mais cedo, retrucou.

– O meu ônibus atrasou, dei azar.

– Todo mundo diz isso. O amor também precisa de sorte.

– E quem comprou?

– Uma menina com uma tiara verde na cabeça.

Saí pelo Catete sem rumo. Era um dia nublado e ameaçava chover. Resolvi cortar caminho pelo parque até o horizonte da praia e meu telefone tocou.

– Seu fusível está comigo. Era ela.

– E funciona, questionei?

– Quem sabe?

Desligou.

Fui embora com o peso no coração, mas não era um peso, era um vazio. E quando a chuva caiu eu recomecei a minha procura, mas sabendo – em determinado momento – que procurar era inútil, quando se sabia que um coração que amou uma ou duas vezes era um coração com um fusível queimado.

a-procura-do-coracao

https://pseudocontos.wordpress.com/

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2 pensamentos sobre “Amar é como um fusível queimado

  1. Lydia Cryns Maia disse:

    Parabéns!!! Tocou meu coração! Emocionante!!

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