A Pedra e a Carne – O Cotidiano

Rafael Vendetta

Quando eu disse que viver com o atrito entre os dentes e a realidade não era fácil, metade da sala riu (neuroticamente), a outra metade ficou em silêncio. Havia um mal estar no ar que não combinava com a decoração daquela firma. As paredes salmão, o café e os biscoitos na mesa. Tudo escondia a negação que ia explodir a qualquer hora. Podia ser o Joel entrando com uma metralhadora no setor de RH. Ou, a firma poderia sofrer o vandalismo do mercado financeiro na próxima primavera, pois uma declaração infeliz do subsecretário de assuntos estratégicos da ONU no Oriente Médio poria tudo a perder.

Outra opção eram os chineses, comprando mais ferro e coragem do que podiam. Mas tudo poderia seguir como sempre foi e algum dia, a verdade estouraria na cara daquela gente, no fim da tarde, ou no meio do almoço. Não faria diferença. Eu avisei uma ou duas vezes, mas o que mantinha aqueles elos da corrente unidos, era uma aposta perdida no futuro: tudo ia melhorar. “Aqui é temporário”, diziam. “Com a experiência adquirida aqui, posso concorrer a gerência no ano que vem”. Eu sempre dizia que não se devia esperar o que não se pode agarrar com os dedos, mas ninguém, ninguém me escutava. Eu dizia que era tudo areia fina, escorrendo nos dedos. E todos continuavam a andar em círculos até os feriados que antecediam o natal.

Mas no meio da tarde, um passarinho resolvia voar diferente e os outros resolviam segui-lo, por hobbie. Ou podia ser uma explosão emocional no fim da tarde, que colocaria combustível no meio da rua, até que centenas de pessoas indignadas, marchariam até a delegacia de polícia local, exigindo que os carniceiros saíssem do bairro.

Logo se via as chamas no fundo da avenida. E a beleza das vidraças quebradas contrastava com a harmonia do silêncio. No meio da tarde um beijo e uma greve.

A pedra e a carne se encontravam. Nas pedras voavam os sonhos. Na carne a utopia do desejo e a fuga do destino da máquina.

E o futuro?, perguntavam na saída do emprego.

O futuro eu não sei respondi, mas morrer com um escritório na cabeça e nos braços não é digno de alguém que não sabe onde começa a pedra e onde termina a carne.

https://pseudocontos.wordpress.com

A Pedra e a Carne - cotidiano

A Pedra e a Carne – cotidiano

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