Revide

Rafael Vendetta

A capacidade de não se importar. Aprendi cedo. Sim, eu não me importo com você. Você e suas opiniões venenosas. Você e sua brincadeira de bar homofóbica que me comeu metade do fígado e no fim das contas, resolvi chorar, mas você não viu. Você era um racista de merda, mas nem sabia.

Eu não ligo mais pra você; aquele seu passado sujo. Quando você, ria de mim, entrando na sala de aula assustado. Lembra? Eu carregava uma pasta feia, preta, e entrava – como você mesmo dizia – assustado, olhando todo mundo antes de sentar. Eu era uma aberração pra vocês. Eu não tinha o que vocês tinham. Eu não tinha glamour e a luta de classes era o tênis que a gente usava ou não usava. Eu me assustava porque você, vocês, vocês sua turminha de gente bem sucedida e feliz, que hoje declama aos filhos “paz para a classe média de quatro anos de idade” e caga aos sobrinhos, a importância de fazer o bem, fazia o que sempre fez: me fudia. Eu aprendi a ser fudido desde cedo. E sei que muita gente também aprendeu com a gargalhada estridente vindo de lá, do fundo da sala.

Agora olhe pra mim, sim olhe pra mim. Eu estou aqui fora fudendo gente como você. Eu aprendi com a vida. E sei que você tem medo de gente como eu, gente que não tem nada a perder, e vez ou outra, aparece na TV com a raiva nos dentes, com a ferrugem na vida, enquanto você diz: “que gente maluca, mãe, eles são terroristas, vândalos!!”

Mas pense bem. Foi você que me criou. Baderneiro, filho da puta, sim, aparentemente sou eu. Eu não sei, mas na minha vida atual, uma vidinha pequena, como o respeito que vocês tinham por mim, eu não fiz questão de ganhar nenhum troféu. Eu apenas cultivei a resiliência. Eu treinei pra sobreviver. E eu sobrevivi a vocês e sei fazer isso bem, muy bien.

E eu fiz isso, na sexta, na sétima, na oitava série, e depois mais um ou dois anos, até eu me cansar de vocês (depois descobri que vocês eram tigres de papel).

Eu te aviso parceiro. Eu sou mais difícil de matar que na oitava série, porque eu resolvi  sobreviver a tudo o que vocês me fizeram. Eu só cheguei até aqui, porque você souberam me pisar. Eu não sabia o que era capitalismo. Eu só conhecia vocês. Vocês davam as regras. Era assim que funcionava. Não havia capitalismo, havia vocês, pisando em tudo o que não gostavam. Esmagando as flores. E vocês não tinham poder mas mandavam naquela porra.

E hoje eu estou aqui. Sendo sombra e espelho.

E vocês fizeram tudo direitinho, direitinha. Vocês fizeram tudo bem, bem até demais. Com tatuagem e tudo, vocês aprenderam bem a agir como um moinho, que estalava tudo quando o sol nascia e se partia. Um pedaço de merda, um pedaço de merda no mundo, no meu mundo e seguiam, seguiam, seguiam até não poder mais, até me fuder. Podem rezar à vontade. Mas se um dia alguém chegar na cerquinha branca e no jardim com orquídeas, lembra de mim. Lembra bem. Lembra bem, quem foi que me fudeu. Porque tem gente como você(s), trabalhando a ritmo industrial.  Quando tiverem medo de que algo de mudou. E que as escolas não serão mais masmorras, lembrem-se de mim: eu trabalhei pra isso. Eu mereço parte do prêmio.

Enquanto isso eu estou nas ruas. E saiba parceiro. Eu não dou mais a outra face a tapa. Mas fique tranquilo, vou acertar o rosto do sistema, vocês sempre foram as franjas. Mas agora, agora meu amigo, é a hora do revide.

https://pseudocontos.wordpress.com

naotemmedo

éhoradorevidezuadosdetodoomundounivos

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Um pensamento sobre “Revide

  1. […] se tornar cretinos. Quero saber, se ainda conseguem dormir ou acordam como eu, pronto para o revide. Quero saber, se ainda acham que aquela merda com muros e grades altas lhes fez bem, ou se o […]

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