Cretinice escolar

Rafael Vendetta

Comprei minha primeira caixa de singles, aproximadamente em 1998. Foi a coisa mais cara que me lembro de ter comprado, à época. Juntei muitas moedas, completei com uma três semanas de dureza e levei de uma loja no Méier, que hoje não existe mais. Ainda tenho a caixa de singles, a sensação não, deixei guardada no fundo de uma mochila, que perdi dentro de um ônibus (madureira x méier). Comprei essa caixa num dia em que matei aula e essa é um das memórias mais carinhosas que tenho do período escolar.

Sempre matei aula sozinho. Demorei a ter coragem de fazê-lo, mas o fiz. Não só pela escola (que era cretina), mas pela maioria dos alunos (que eram cretinizados).

Foi isso que definiu meu caráter. O melhor lugar para matar aula era Madureira. Era um acordo secreto, que todos faziam, quando queriam se esconder. Mochilas e uniformes guardados na mochila, aguardando o sol abrir o dia, enquanto tudo seguia como sempre foi

Da estação de trem a escola, eu andava cinco minutos. Eu levava uma camisa por baixo do uniforme. Quando eu me enchia, ao invés de jogar flipper, eu saía dali, e pegava um ônibus para madureira ou para o méier. E às vezes, perdia meus minutos, catando gibis num camelô perto da escola, que vendia as melhores revistas. Eu gostava daquela banca e da sinceridade dos humildes. Eles não me julgavam.

A escola serviu para tudo, menos para aprender. Tudo o que eu aprendi aprendi com amigos ou com livros. A escola só me ensinou a ser cretino e o fato de ser aquele ambiente, um ambiente cretino, nunca combinou com o que eu realmente queria, que era acabar com a cretinice no mundo. Mas só desejei isso nos anos finais da escola. Ali fui entender, que aqueles cartões e catracas, que os inspetores e a disciplina de gado na descida e subida ao concreto da sala, representavam a preparação da prisão. Entendi tarde, logo depois de um professor bradar contra o imperialismo norte-americano. Aquilo me interessou; talvez não tanto, quanto a virada de 1999 para 2000, onde diziam que o mundo iria acabar. Todos nós sabíamos que tudo iria continuar como sempre continuou. Que os cretinos da escola, aqueles que oprimiam em grupo e em ritmo industrial, continuariam cretinos. Que os indiferentes continuariam indiferentes. E que os funcionários fariam o que sempre fizeram, que é fingir que fazem alguma coisa, quando no fim, ninguém se importava realmente. E apenas esperavam a hora de sair daquele lugar.

E de 1999 a 2000 imaginei, que uma porcentagem minúscula do destino, poderia realmente me dar um final de mundo. E quando eu imaginava o mundo ruindo, a primeira coisa que eu imaginei realmente que poderia ruir até rachar ao meio, era a escola. De todo o resto eu guardava algum carinho, que me evitava desejar sua destruição, mas a escola não.

No recreio eu costumava ir para a biblioteca. Fiz isso durante uns 4 anos. Foi ali que aprendi a ler de verdade, com a aspereza daqueles minutos tão insípidos e que distribuíam traumas para os anos seguintes. Na escola não aprendi a fumar. Nem a beber. Muito menos a estudar. Aprendi a escutar professores reclamarem de ser professores. E alunos reclamarem de ser alunos. Aprendi que o mérito era premiado com uma foto colada num papelão. E que uma nota baixa poderia significar uma ansiedade guardada, durante 40 minutos, que era o tempo que durava a minha ida, de ônibus, da escola a minha casa. Aprendi, nos anos em que se era obrigado a cantar músicas cretinas, que ficar calado durante muitos minutos lhe daria uma estrela verde, que você carregaria para casa, amassada, enquanto se acotovelava, para entrar pela frente do ônibus, ali, pelos seus 7 ou 8 anos de idade. Foi ali que aprendi que parte significativa do que estudava serviria para alguma coisa: mentira. Nunca serviu.

Foi ali, que comecei a perceber que  os muros da escola serviam para esconder o esgoto que vazava de fora para dentro.

Não sei onde foram parar os bem sucedidos, os cretinos e os desajustados da escola. Não me importo se eles chegaram até o pote de moedas no fim do arco-íris ou se hoje, tomam prozak. A pergunta é saber, se continuam cretinizados ou preferiram se tornar cretinos. Quero saber, se ainda conseguem dormir ou acordam como eu, pronto para o revide. Quero saber, se ainda acham que aquela merda com muros e grades altas lhes fez bem, ou se o estômago guarda as estrelinhas de cartolina, verdes ou azuis. Quero saber se ainda conseguem matar sua rotina ou fazem como eu fazia, há anos atrás, esperam um cataclisma, que nunca, jamais vai chegar.

crianças na guerra 7

guarda-as-estrelinhas-de-cartolina

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Um pensamento sobre “Cretinice escolar

  1. Pablo disse:

    Excelente texto. Traduz em palavras os sentimentos vividos por mim e toda sociedade fragilizada que foi oprimida por esta instituição denominada escola. Uma instituição arcaica, mecanicista e falida!!!

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