Quando acordamos

Rafael Vendetta

Acordamos e tocamos os nossos lábios. Depois passei a mão nos teus cabelos castanhos (sim, estavam castanhos) e você espreguiçou, deixando minha boca percorrer teu pescoço, enquanto os raios de sol entravam pela cortina.

A vizinha cantava ao lado e eu perguntei se era assim todos os dias. – Só quando ela está feliz. É isso ou o canário belga. Nos abraçamos por debaixo das cobertas e o tempo tinha parado. Eu não me importava com nenhum tipo de compromisso, meu compromisso era aquele abraço. Nossos olhos tinham se encontrado; tu com aqueles teus lindos olhos grandes e que me espreitavam até enxergando meus sonhos e que conseguiam me despir assim, de uma só vez e eu ali, costurando corações de papel imaginariamente. Recortando você devagar, enquanto encolhíamos nossos pés para dentro da coberta.

Tudo aquilo foi efêmero, mas preencheu de significado meus meses durante tempo o suficiente para eu saber que não era o budismo de banca de jornal, os combates de rua, a política internacional ou a teoria dos fractais que me davam sentido por aqueles dias, mas sim ruiva, te tocar, com a ponta dos meus dedos dançando pelas tuas costas, enquanto eu beijava teu corpo e segurava teus quadris com força. Tu colocava o café e eu esperava deitado, olhando para o teto, me escondendo do frio, mas pensando falsamente nas coisas que eu teria de fazer no dia. Era mentira. Eu fazia isso para acreditar que aquilo lá, aquele pedaço de mundo vermelho não era tão importante quanto eu achava, quando na verdade eu sabia que isso organizava muita coisa ao meu redor. Como uma núcleo de afeto que vai organizando as partidas de futebol, a ida na padaria, os sonhos, a vontade de sair e panfletar, os poemas escritos em algum banheiro ou aquela viagem no final do mês. Até o modo de fazer a mala, onde eu carregava como um estrangeiro meus afetos perdidos, voltava naquele dia.

Tu me perguntou se eu queria chá. Eu, embaixo do chuveiro, disse que não, só se fosse de hortelã. Tu voltava com a chícara nas mãos. Conversávamos sobre sobreviver, sobre qual era o melhor lugar para comprar hortelã, ríamos sobre alguma piada da noite anterior ou simplesmente fazíamos isso tudo ao mesmo tempo (embaralhados) enquanto eu mordiscava teu pescoço. Tu passava a mão na minha cabeça. Acordávamos para o mundo.

Era preciso golpear o cotidiano e a rotina cinza sem piedade. E fazíamos isso, exatamente quando esquecíamos da rotina e nos concentrávamos em nós. Era um segredo vermelho só nosso, que não era fácil de fazer, pois exigia dois espíritos livres. Isso era diferente de ter de acordar sozinho. Onde eu fazia café e só podia olhar para a chaleira, fumegando meus sonhos do dia anterior. Era aí que pensava na psicanálise. Que se dane a psicanálise.

Se eu tivesse um núcleo vermelho de afeto, não estaria ali, com dificuldades para decidir se tomava café ou hortelã, porque saberia de imediato que tu iria me perguntar isso e decidiríamos juntos.

Quando eu ia embora e era sempre no fim da manhã, eu fingia que as minhas urgências eram mais importantes que aquilo tudo: o toque das mãos, os beijos, os arranhões que deixavam pistas ou mesmo, aquele bilhete lindo, que escrevi para você e larguei em cima da cômoda: “o hortelã tem gosto dos teus beijos”. Mas não. Era preciso mudar tudo. Eu olhava aquele sofá cinza, minha velha estante de mogno e a sexta-feira dizia: hoje tem psicanálise. Os panfletos e textos deveriam cobrir os abismos, mas eles só grudavam na pele, enquanto o que eu desejava, era aquela rotina, cuidadosa, vermelha, precisa. Solta, efêmera, casual, mas linda nos detalhes.

Não era fácil acordar. Há um sonho vermelho que não me deixa dormir.

naomedeixadormir

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