Quando ele achou que conheceu a ruiva

Rafael Vendetta

Eu saí sem rumo, andei a esmo, e finalmente encontrei um bar.

Mas não qualquer bar. Eu sentia que aquelas paredes de tijolos cinzas iriam me fazer esquecer o chute que eu tinha tomado em Alcabar. Aquilo não fazia mais sentido. Eu já tinha tomado outros chutes. Sabia reagir. Mas tem uma hora que a gente baixa a guarda e foi assim que eu fui golpeado sem perceber. Ela me apresentou a família e me olhava de um jeito que parecia que iria me amar no futuro; mas eu errei. Era apenas o jeito de alguém. E o jeito de alguém não se decifra, se aceita.

Eu entrei e você estava lá. Você tinha maquiagem no rosto. Estava mais velha. Mas eu não me lembrava de você mais nova e isso foi maravilhoso. Você usava um batom vermelho e tinha um bloco de papel na mão. Você parecia não se importar com aquela noite, apesar dela ser a noite mais importante dos meus últimos dias. Você aparentava desprezo e foi esse ar de descarte que me fez entrar.

Eu perguntei se o bar estava fechando. Meu francês era ruim e você ficou irritada com aquela pergunta, porque parecia óbvio, mas não era óbvio, para mim, um estrangeiro, que mal conhecia o ordinário, quiçá o supreendente. Eu sentei perto do balcão e tomei cerveja rubia. Estava vazio e eu achei que iria me deprimir com aqueles vinis velhos.

Eu cansei daquilo tudo rapidamente. Por um momento achei que iria me vencer, abrir a porta e sumir, deprimido, mas eu mudei de ideia e me aproximei de você. Eu puxei assunto sobre como ser um estrangeiro era difícil naquela cidade de luzes coloridas. Era papo furado, mas você aceitou e sorriu com o canto da boca.

Aquele sorriso iluminou minha noite cinza.

Você me pediu para eu esperar, porque você tinha de servir a outra mesa. E eu tirei dos bolsos um papel com uma poesia que eu tinha anotado no final da noite retrasada, mas quando você chegou eu guardei, porque não queria mostrar fraqueza.

A gente trocou olhares e eu esqueci todo aquele mundo maluco, onde a gente viaja sem saber bem porque ou por qual motivo e ao mesmo tempo recebe uns golpes do destino que pegam a gente no contra-pé da esquina. Como os golpes que eu recebi na semana passada e ainda assim fazia como o kung fu, ou fingia que não doeu ou revidava, que era o que eu sabia fazer (muito mal).

Você andou de um lado para o outro e o bar foi formigando, com gente saindo e entrando, até que às 03h tudo foi ficando devagar. Você disse para eu esperar e sumiu. Eu acreditei que você voltaria e fiquei com medo de tudo dar errado, pois era comum eu pensar que as coisas davam errado na minha vida. E um cara que trabalhava no balcão deve ter percebido isso, pois ele voltou e me disse que iria fechar. E eu achei aquele cara, o rosto do mensageiro da morte. Não sei porque pensei nisso. Mas eu pensei: porra esse cara vai fuder meu dia. Mas depois me bateu a sensação de que na verdade ele estava no ritmo da vida ordinária e haveria um dia pra ele, bem especial, que ele estaria no meu lugar.

Ele continuou a me empurrar pra fora e eu resolvi sair, mas decidi esperar lá, ainda com minhas paranóias guardadas no bolso, até que tu saiu, com teu casaco vermelho e tudo acabou. Eu percebi que o cara não era o mensageiro da morte, era só um cara, querendo descansar e dizendo pra mim que amanhã teria The Smiths e que eu deveria voltar pra minha espelunca de quarto, escrever, tomar vinho e dormir.

– Vamos sair?

 -Pra onde, perguntei.

Talvez para lá, tu apontou.

Andamos com cheiro de sabão-maduro e paramos num bar, perto de um lugar que eu lembro o nome mas não quero dizer. Chegamos lá e entramos. Era uma espelunca, com mesas de madeira com toalhas vermelhas mas tinha vinho barato, E aí tomamos aquele vinho barato e eu pensei em te beijar, mas falamos de tudo antes de eu pensar em te beijar de verdade: de psicoterapia, de júlio verne, de como o Chile era diferente, de como a vida de garçonete era difícil, da crise econômica e dos cornópios de Cortázar. Depois saímos e estava muito frio (para mim). E de repente comecei a pensar que talvez tudo aquilo fosse acabar e não daria certo (eu sempre pensava isso).

Você foi andando e ainda tínhamos a garrafa de vinho nas mãos. Estava muito frio, tu me aquecia, mas eu não pensei em nenhum momento em agir, pois eu queria que agíssemos juntos. Andamos e tu ria do meu frio. Falava: – Respira mais fundo, respira. E ali eu achei que ia te beijar, porque eu tinha a imaginação de poeta. Mas não aconteceu.

De repente paramos numa banca de jornal e olhamos para aquele monumento iluminado. Eu voltei a colocar as mãos nos bolsos. E me lembrei do anjo da morte mais uma vez. Aí tu falou que iria embora. Eu disse que tudo bem. Mas aí tu voltou e me beijou.

Tu me perguntou se eu queria ir pra tua casa. Eu disse que seria ótimo, mas que eu tinha tomado um chute recentemente e que eu não me sentiria na obrigação de nada. Foi difícil dizer isso, pois além da minha hesitação, o idioma não ajudou. E tu começou a me esgrimar e eu caí no teu jogo de armar. E tu me esgrimou tanto, que eu, com meu francês precário, não conseguia explicar o porquê de um chute de alguém que eu conheci por três dias, fazia tanta importância a ponto de não conseguir lhe amar. Mas de fato era assim.

Aí tu riu e pediu um táxi (isso foi cruel).

Eu não saiba o que fazer. Achei que o melhor era ir embora. Tu abriu a porta do táxi. – Entra seu bobo.

Eu entrei. E ainda não acreditava, porque o anjo da morte tava ali, sentado ali do meu lado, dizendo que não era verdade. Tu mandou o taxista me deixar na minha espelunca e na tua casa. Eu achei que tinha terminado, aí conversamos durante cinco minutos quem iria para onde. E o taxista não riu, mas eu achei que ele riria, porque onde eu morava era assim que os taxistas se comportavam. Até que tu me beijou e eu entendi tudo. Tu mordeu meu lábio e ali tudo se apagou, o anjo sumiu e eu parei na tua casa. E esqueci tudo, o chute, o idioma e nossas línguas se entrelaçaram. E tu disse que achou bonitinho eu dizer que estava com medo, mas eu não planejei nada, eu apenas estava com medo mesmo (eu não sabia que isso era bonitinho).

Eu te amei ali naquele dia e nos deitamos nus, naquele frio, num quarto de madeira, com teu sapatos vermelhos e os meus azuis no chão, um par ao lado do outro. E nós, nos aquecendo (10 graus) sob uma janela estreita que dava para um lugar cheio de galpões. Tinha gente passando de um lado para o outro às 5h da manhã. Eu acendi um cigarro, te abracei e nos beijamos com força.

E do nosso encontro sobrou tudo. Ficou uma memória linda de uma noite ruiva. E estranhamente eu não esperei mais nada do outro dia, apesar de ter vivido aquilo com tanta intensidade, que me perguntei se aquilo tinha realmente acontecido. 

Fizemos isso durante 4 dias, num lindo eterno-retorno, até o dia que eu fui obrigado a sair. Eu não olhei pra trás. Não prometi nada. Tampouco disse que iria retornar. Peguei minha mala vermelha e segui. E de repente, todo o peso do passado se dissipou. E eu só conseguia olhar para frente.

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