Pragmatismo afetivo

Rafael Vendetta

Abraçamo-nos e não sentíamos nada. Nada nos incomodava. Isso era bom.

Às vezes sonho com a dissolução, disse. Ela me olhou, passou as mãos sobre meus olhos e comentou que isso não fazia sentido. Você sabe que o sentido é uma massinha de modelar, cortei.

Ela virou e jogou a coberta no chão. Eu subi, beijando seu calcanhar, sua perna, encostamos as mãos, ela revirou os olhos e jogou o cabelo para o lado. Dar as mãos foi como amar de novo e de novo. Dar as mãos a ela era algo tão reconfortante, encostávamos e parecia que tocávamos piano. Ela se espreguiçou, me beijou como se eu fosse morrer amanhã e puxou meus cabelos: havia força, vazios, delicadeza.

Aquela tranquilidade se convertia em silêncio. Eu sabia que tudo aquilo iria acabar. Amanhã, talvez semana que vem. Isso era o amor. Mas eu não me importava. Eu tinha aprendido, depois de tantos pequenos desastres a viver um dia de cada vez. Não tinha esperança em mais nada, apenas no sol, nos sorrisos e no relógio. A paixão se media pela intensidade e pela sinceridade, não pelo tempo.

Eu perdi a capacidade. Não sabia quem iria amar. Era uma sina.

– Não sei saber, confessei.

E ela retrucou: e alguém sabe?

– Sim, muitos sabem. Invejo quem decide tudo no primeiro olhar, no primeiro beijo, na primeira semana. Eu não. Nunca decidi nada. Sempre acho tudo muito amplo. Estou sempre esperando o próximo sinal, mas ele nunca vem. Não sei mais o que é um sinal. Fico sempre no aguardo.

Ela se calou.

Eu disse: isso te ofende?

– Não, ela retrucou. Eu não me importo, disse resoluta. Eu só vivo o presente, falou apressadamente, mordendo o cigarro na boca como se desejasse terminar a conversa.

Eu achei aquele pragmatismo romântico. Beijei seu pescoço pelo lado direito, ela largou o cigarro sobre o cinzeiro e me deu um beijo, recomeçando tudo novamente. Paramos no meio do caminho, sorrimos, apertamos as mãos e nos apertamos. Eu me lembrei de Sísifo no meio do caminho, que devia ser seu momento de maior prazer, nem tão alto, nem tão baixo.

E o que fazemos?, perguntei.

Ela riu suavemente, me puxou para seus braços, me beijou e apagou o cigarro no cinzeiro.

– Eu não consigo saber nunca.

– Tenho um universo dentro de mim. Acho tudo muito amplo. Enjoo de tudo. Mudo a cada manhã.

Ela sorriu, arranhou levemente minhas costas, ajeitou o cabelo, foi até a janela e pediu que eu fizesse chá de morango. 

Enquanto eu ia pra cozinha com aquele peso do mundo ela gritou: – Disso eu tenho certeza.

Eu esquentava a água e o chá. Aquele momento era o que realmente importava. Escutávamos “a música em que o mundo iria acabar”. Ela iria pegar o trem e viajar, como sempre fez. Eu iria permanecer ali, até alimentar-me novamente de outro universo, de outro vazio. E o que dizer para a ruiva? Exigir uma cerca branca e um cachorro? Exigir raízes? Eu não acreditava, assim como ela nesse modelo. (Não havia tempo para debater, decidir). Eu levei o chá de morango, nos beijamos, abraçamo-nos e dormimos. Amanhã era outro dia. Ontem, eu amei e fui amado. Amanhã não sei mais. Ainda consigo esquentar a água do chá. Vou seguir e ela também. É assim que será. Não é o romantismo que é pragmático, é o pragmatismo que me parece romântico.

Vou esperar a próxima estação.

gatos-esperando-donos-5-6

 https://pseudocontos.wordpress.com

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