É difícil falar do 1990 vermelho

 

Rafael Vendetta

Não sei mais falar de você ruiva. Muitas coisas passaram, mudaram e é difícil falar do mesmo sonho sempre. Se fosse nos anos 90 falaria com muitos detalhes. Mas agora não consigo mais. Não me lembro tanto. Era fácil antigamente. Eu me lembrava e escrevia. Agora é tudo mais difícil. Eu lembrava do dia em que te conheci, sentada num banco de madeira, perto daquele pedaço de lama. Estava quente, depois nos encontramos, brincamos com as formigas naquele gramado, embaixo da árvore que ligava o mundo ao desejo. Alguém passou tocando flauta. Dormimos abraçados. Eu acordei com um sol invencível. E a única coisa que eu me lembrava era você com aquele vestido cheio de flores. Muitas coisas sem sentido aconteceram naquele dia, eu constelei tudo ao redor de você, mesmo depois sabendo que o que deu sentido aquilo tudo fomos nós.

Eu lembrava do dia do almoço. Quando a gente reclamou que tinha morte em tudo ao nosso redor e nos atenderam. E a gente só queria um legume ou outra coisa. Não queríamos morte ao nosso lado nem em nosso prato. De noite fazia um frio brutal. A gente dormiu com jornal no chão, nos amamos, sorrimos. Nos beijamos. E voltamos, com as esperanças nas mãos. Viajamos de trem. Dormimos no chão. Não nos importávamos. Tínhamos um ao outro.

No outro dia, ou outro mês, eu fui te ver. Te encontrei por acaso. Mas na real planejamos. Você tentou me impressionar. Levou-me em tudo o que pode.  Eram dias diferentes, com pôr do sol, a ponte, de noite iluminada, comida vegetariana, beijos no elevador. A gente viveu. Era isso que a gente queria (e quem não quer?). Encontrar um cantinho, amar e viver. Mesmo assim a gente se fazia de durão (e quem não faz). O que a gente queria era dizer que esse problema já foi resolvido (do amor) . Tal como os outros problemas da vida.

Aí eu voltei. Tudo se distanciou. Não encontrava mais você, ruiva. Não mais. Não pela guerra. Mas pelas dúvidas. Foram dois anos de exílio. Você me abandonou. Eu não insisti. E por eu não insistir, você achou que eu lhe abandonei. Era assim que funcionava. Nossa gramática, tão próxima de nossos corpos, desapareceu. O telefone tocou poucas vezes. Perdemos aquele momento (que nunca soubemos qual era). Mas eu segui, porque me disseram às dezenas que era para seguir e que tudo ia passar (mas não passou).

Gostava da ruiva pois era uma estrangeira. Não se adaptara a nenhum lugar. Não se encaixava. Viveu numa diáspora afetiva, tal como eu. Nossos estranhamentos combinavam. Sempre combinavam. A gente falava sem falar. Mas sua imagem começou a ficar cada vez mais distante e imprecisa. Era como tentar lembrar de um sonho e falhar. Eu ficava calado. A sorte é que ninguém percebia. Eu ainda podia olhar sua foto, tomar café e seguir. Era o que eu fui treinado para fazer. Era o que todos diziam: você vai encontrar alguém. Mas eu só tive desencontros.

O tempo passou rápido. A ruiva desapareceu. Aí você quer ser alguma coisa mas não sabe bem o quê (quem não teve essa dúvida). Você passa a terceirizar o que você será para o tempo. Mas o tempo é um mal funcionário, um funcionário rebelde. Você pensa que é o tempo que vai dizer. Mas ele nunca vai te dizer o que tu é. Ele vai seguir, sempre em silêncio. E você vai ser isso aí: uma coisa esperando o tempo passar e dizer. Mas ele não diz. O tempo só cala. E a ruiva assim, ficou pra trás. E eu não sei mais. Não sei mais a fórmula (nunca soube). Não procuro mais.

Sinto-me um estrangeiro.

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Estrangeiro

 http://www.pseudocontos.wordpress.com

 

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