1989, o início

Rafael Vendetta

Um balão subiu com uma faixa verde e amarela pendurada. Nela se liam com letras garrafais: 1989. Essa foi uma das minhas memórias mais antigas. Eu devia ter seis, não mais do que sete anos (não me lembro o mês exato).

Minha primeira lembrança de 1989 se dá num domingo de manhã. Eu acordei cedo pra ver o pessoal da rua da minha avó soltar um balão. Eu me lembro da minha avó acordando cedo e fazendo café. Na época aquilo não era considerado incorreto (soltar o balão). Na época eu achava bonito (eu tinha 7 anos). A rua da minha avó não tinha asfalto. A casa dela era muito simples. Ela fazia uns bolinhos de chuva (na verdade, rosquinhas) quando íamos lá no domingo porque era barato.

A ideia de um grupo de gente simples fazer algo subir ao céu com tecnologia precária me fascinava. Sim. Os pobres também podiam tocar o céu. Apesar de criminalizarem anos depois essa prática. Podiam tocar céu. As pessoas podiam nos ver.  E enquanto isso, os que não nos viam faziam as eleições. Eram as primeiras eleições diretas no Brasil, desde 1960.

O Collor e o Lula iam para o segundo turno. Apesar de ter pouca idade, posso dizer que 1989 foi o ano que me trouxe a política. Eu assistia as propagandas eleitorais. Ouvia a família debater. Eram debates acalorados. E eu opinava caoticamente. Eles deixavam opinar. Não era uma assembleia. Não tinha inscrição. Era caótico. Todo mundo falava ao mesmo tempo. Mas se discutia política (mesmo que fosse eleitoral). Fui um filho das diretas e das consequências mais tardias da abertura, mas não sabia o que isso significava. Apesar de anos depois entender o que estava em jogo.

A nave robótica norte-americana Voyager 2 passava perto do planeta Neptuno. O presidente dos EUA, George H. W. Bush (o pai) anunciava o fim da guerra fria com Gorbachev e na China, um corajoso rebelde se punha na frente de uma coluna de tanques, diante o que viria a ser o massacre da praça da paz celestial. O muro de Berlim caía e a rua da minha vó continuava sem asfalto. Mas eu estaria mentindo, se dissesse que me lembro disso tudo. A memória mais marcante foi aquela rua, os bolinhos de chuva da minha vó e o balão. Eu me lembro também que tinha uma bicicleta e que quando eu andei pela primeira vez, aquilo foi muito mais importante que a queda do muro de Berlim.

https://pseudocontos.wordpress.com

Alemanha_Futebol-Muro-de-Berlim

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