O dia em que o cachorro amarelo fugiu

Rafael Vendetta

Tudo começou quando o amarelo fugiu. Haviam coisas mais importantes para fazer, mas o cachorro fugira e parte do sindicato se mobilizou porque aquela parte, uma parte sensível, acreditava que ele também era parte de tudo aquilo e não tínhamos de esperar a revolução mundial da oitava sinfonia internacional para mudar o que estava errado ali, naquele momento. O amarelo era tão digno como qualquer outro e outra, apesar de dizerem e fazerem o contrário. A sede do sindicato tornou-se um ponto de encontro e não foi pela revolução. Aquilo de fato, não nasceu do nada. Tampouco fora o cachorro que criou aquela situação. Cada grama de açúcar contribuíra ao seu modo para aquela mobilização, espontânea e planejada, planejada mas espontânea. Haviam relações de anos ali. Tomara-se litros e litros de café, que poderiam encher um pequeno riacho de solidariedade, até que à tarde, Alaiana se moveu, com quilos de açúcar no bolso, pegou o guarda-chuva e disse com a força nos dentes que lhe era característica: vamos procurar o amarelo!

À partir daí uma rede de solidariedade tecida por anos a fio, foi cobrindo o bairro, com pontos frágeis porém honestos, que alcançavam cada um ao seu modo, espaços do cotidiano, hora por hora, como um radar sensível a cada movimento do bairro, onde aquela rede que começou com Alaiana (a mais ativa), foi se reproduzindo e ganhou os cantos e quinas mais escondidos. 

Alguém sugeriu que pusesse um cartaz e uma recompensa. O cartaz foi aprovado, já a recompensa virou alvo de debate acalorado que tomou uma assembleia semi-lotada no fim da noite. No fundo, existia a questão de uma suposta natureza humana, apesar de se tratar de um cão. Havia a questão se o cachorro iria ser encontrado por Rosseau ou por Hobbes, até que uma companheira disse em sua lucidez que isso não era fundamental. O velho Pepe sublinhou em alto e bom som:

– Botem o dinheiro que for, isso não importa, só acharemos o amarelo com apoio mútuo e solidariedade e terminou com um soco na mesa, sob aplausos e algumas pessoas chorando.

Pronto, a pendenga se resolvera à favor de Kropotkin, pois o que faltava não era definir a natureza do problema, mas a ação. Depois de alguns meses, já no meu limite crítico de introversão, onde eu me fechava numa concha (apesar de temer o mar) resolvi entrar naquilo de cabeça. 

Depois de três dias de muito trabalho, eu fui encontrar Melina e os demais, até que me disseram que o cachorro se perdera por um descuido coletivo. Meu mundo começou a girar. E tive vontade de despejar minhas frustrações na assembleia (quem nunca teve?), mas me contive e aguardei o desenrolar das coisas. Confiei no instinto de transformação do mundo e me entreguei (apesar de pessoalmente disparar impropérios ao mundo sempre que possível). E lembrei do dia em que o amarelo chegou ali. Cambaleante, frágil e acuado com toda a reação do mundo. O mundo lhe parecia hostil. O mundo tinha lhe dado apenas amarguras e violências cotidianas. O amarelo respondia na sintonia que lhe cabia. Mas isso foi mudando, dia após dia, a solidariedade foi convertendo o amarelo num bom ouvinte, num bom companheiro. Era a ação concreta das pessoas (não uma suposta intenção, que tudo absolve) que o fazia reencontrar-se.

Semanas antes nada tinha mudado. Eu estava lá, no mesmo lugar. Olhei para o amarelo e senti que ele estava triste. Mexeu a cabeça e girou os olhos para baixo. Falei com o velho: – O amarelo está apático Pepe?

E parecendo dialogar conosco, o amarelo olhou para o nada, apático, moveu o pescoço e dormiu. Pepe dizia que os cães eram assim mesmo, que também precisavam ter seus próprios abismos e que a vida era assim, talvez nenhuma revolução mude isso, sublinhou com o saco de café nas mãos. Seguiu-se um debate acalorado onde o velho tremia a colher em riste e alguém perguntando em espanhol se a revolução fecharia ou não os abismos. Mas de fato, o resultado era inóspito.

Comecei a me sentir culpado. Até que o amarelo, alguns segundos depois, começou a se coçar vigorosamente para desespero da teoria do velho. Lambeu os lábios e pôs se a espreguiçar nos meus pés, simulando felicidade enquanto eu dizia que Pepe estava errado e alguém lhe deu um apertão nas bochechas. Ali percebi que apesar da comemoração de fora para dentro, quem estava triste era eu e que Pepe falava, sem saber, de mim. 

– Ele me olha com tristeza, veja Pepe. O cachoro sonda algum abismo do mundo.

– Pare de falar besteira estrangeiro, o cachorro está cansado, como eu, porque é velho.

O amarelo dormia e eu ficava acordado. Ele sonhava ou gania durante o sono e quando eu encostava minhas mãos no seu pelo ele se movia abruptamente. Era um cachorro angustiado, tal como eu e passei a insistir nessa tese sempre que via o velho. 

– Pepe, o cachorro é meio angustiado…

– Ele só está cansado estrangeiro, ele correu por todo o quintal. Vá para a gráfica, pare de inventar essas histórias e batia na mesa com rudeza e um sorriso que fechava o meu dia.

A análise de Pepe e a minha virou um caso de esgrima pessoal. Alguns embates se seguiram, sem nenhum vencedor.

E quando eu dizia isto a outros do sindicato, riam ou não acreditavam que era possível existir um cachorro angustiado. “Pare de projetar no cachorro suas emoções, diziam, é só um cachorro”. Mas eu respondia, falando que não. Eu não projetava nada. Quem duvida que pode haver um cachorro angustiado no mundo? Vocês estão errados e não vêem nada. Só vêem o que querem ver: um cachorro que segue sua natureza. Mas e se esse não seguisse? 

Mas o mundo seguia. As vizinhas e vizinhos procuravam o cachorro dia após dia e nisso eu me deprimia, apesar de para o mundo, parecer ativo, altivo, quase que invencível com a marcha da utopia nos ombros. Mas no fundo não conseguia me mover. Estava paralisado. Tudo parecia lento e silencioso apesar de acreditar na transformação e na procura do amarelo de maneira decidida, cada passo doía enormemente… Com isso passei a ignorar a luta, a organização, os piquetes, o café e até mesmo as tarefas do cotidiano: varrer, cozinhar, fazer a barba. Nada fazia sentido. Até que um dia tive uma crise. Um cão cinza mordeu minhas costas. Tomei analgésico por três dias e a dor não passou. O cão cinza latiu dentro do vagão do metrô. Latia até tirar meu ar. Eu não aguentei e saí. Procurei o ar e sentei no banco verde. O cão cinza deitou do meu lado e dormiu.

Saí, sentia que ele me perseguia e arfava dentro da minha cabeça. O amarelo ausente, já não era capaz de me dar certo horário, apesar de eu nunca ter tido nenhum. Passei a ficar ausente de tudo. E um dia, na noite, lembrei de Boris Wladimirovich, um russo-ucraniano que exilou-se na Argentina. Falecida sua companheira, foi viver de vodka e anarquismo em outro país. Acabou num sanatório, não porque era louco (e quem não era?), mas porque ao se fingir de louco tomou a atitude mais sã da Argentina dos anos 20: executar o carrasco da Liga Patriótica que matou Kurt Wilckens, outro angustiado, que por viver a angústia de ter assistido o fuzilamento de mais de 1500 trabalhadores pelo comandante Varela, não se aguentou. Largou seu pacifismo e justiçou o assassino em massa, Varela. Virou um herói do povo, mas foi morto por um membro da Liga Patriótica dentro da prisão, que para se safar, fingiu-se de louco e foi internado num sanatório. Só não contava com as angústias de Germán Boris Wladimirovich. Aquele russo introspectivo que decidido, sob seu cinza particular, resolveu não só as suas angústias, mas a de toda a classe trabalhadora argentina numa única jogada, com um revólver dado a outro preso.

E eu, não sei porque diabos, passei a pensar em Boris junto a um cachorro amarelo e um cinza. Em cima de seu féretro. Mas aí voltava a realidade. O cachorro amarelo não estava lá. Tinha se perdido. “É só um cachorro diziam”. A Revolução é o mais importante. Mas a revolução não chegava nunca. E ainda assim, eu tinha angústias a resolver, tal como Wladimirovich. Deprimido passei a odiar o mundo, mas vi que odiava apenas a forma com que parte do mundo estava organizado. O problema não era com a humanidade, mas com certos limites construídos, certas barreiras que atingiam mulheres e homens, certas violências cotidianas e estruturais. Eu não odiava o mundo, odiava a maneira com que o organizavam à força, as instituições e as relações.

Eu passei a ficar amargo como o café que Pepe passava no fim da tarde. Minha vontade era irritar-me com as/os demais, mas me lembrei que o cão cinza pode chegar pra todo mundo e eu teria de me acalmar e seguir. Ainda tenho a revolução, pensei. No fundo de minha alma, agarrava-me a utopia, como o único pilar, capaz de sustentar a incerteza do meu ser. Nos dias mais terríveis, perdia-me num cinza constante e era tragado pela tormenta dos dias, mas ainda tinha uma aposta no acaso. No fundo no fundo, não tinha nada. Mas sabia que iria deixar esse nada, essa esperança no possível, semear o solo para os próximos estrangeiros e estrangeiras. Minha dúvida era saber se sentiriam o mesmo que senti e se esses panfletos e promessas, conseguiriam cobrir seus abismos.

Num domingo de sol forte, o que me deixava ainda mais nervoso, pois eu sentia, tal como um estrangeiro que definitivamente aquele não era meu lugar, Melina entrou com lágrimas, ainda que contidas, nos olhos. “Encontraram o amarelo”, ela me disse apertando gentilmente uma das pálpebras. Nos abraçamos como se a revolução tivesse a caminho e eu corri, com vontade de chorar, em direção a ele. Sentia no entanto, que algo cinza me acompanhou. Aquilo me mudara, talvez a todos e todas ali, nunca saberei, porque só tinha a minha medida. Com problemas de saúde, amarelo passou a dormir na minha casa e pronto, minha vida mudou. Diziam que tinha um problema incurável, talvez no coração. Num misto de pena e deliberação coletiva, mandaram o amarelo para a minha casa.

Mal sabiam que o cão cinza, nesse período, passou a latir quando as pessoas falavam comigo. Eu passei a não entender mais o que elas diziam. Eu me esforçava, mas ele latia mais alto. E aí eu fingia que estava interessado e saía, até ele se aquietar e lamber minhas mãos. O cachorro cinza aparecia na ausência do amarelo (quando ele dormia no banheiro por causa do calor) e eu tinha de inventar desculpas pra todo mundo. Dizia que tive um problema ou que fiquei doente (nunca dizia qual era a doença, eu não tinha coragem) e faltava as reuniões sistematicamente. Era culpa do cinza. Eu inventava uma desculpa que as pessoas aceitavam, porque elas me viam de maneira distorcida e isto ajudava elas próprias a não receberem a visita do seu próprio cachorro cinza. 

Quando perguntavam do amarelo dizia que ele estava bem (e estava mesmo). Ele comia, andava e dormia. Talvez amarelo sentisse falta de Pepe e de Melina, ou tivesse uma tristeza habitual, mas no fundo ficava feliz em receber as saudações de um ou de outra no final do dia, sempre por cartas. Mas quando perguntavam sobre ele, sentia que eu lembrava um pouco de mim. Não sabia onde eu terminava e ele começava. Tinha também vontade de me perder como o amarelo, sair sem entender o mundo. Talvez tenha sido por isso que o amarelo fugiu. Aquele lugar não lhe bastava. Ele precisava se perder e recomeçar. Para depois recomeçar, como fez Boris.

A espiral de estranhamento voltava. Vez ou outra, pensei que tinha a superado e o cão cinza tinha partido e só o amarelo tinha ficado. Mas tal como um mecanismo incerto, sentia arrebatar meu peito, cindir-me em pedaços de mim que digladiavam-se pelo meu controle. Nessas horas nada havia a fazer. Nada me emocionava mais do que olhar para uma paisagem e sentir que o estranhamento tinha escapado; ainda que por um momento breve. Era a consciência dessa incerteza, que me fazia amar as paisagens. Olhava-as, como se olhasse para uma esperança, que apesar de nada me dizer, me confortava com as linha sinuosas do céu verde e do azul.

Ah sim, eu ainda tinha o amarelo a lamber minhas mãos e a empurrar a pata como se me abraçasse, isso me fazia esquecer o cinza do mundo, por um breve (e importante) momento. Talvez ele olhasse a paisagem e se angustiara um pouco. Quando falei disso, ninguém acreditou. 

– Veja Melina, o amarelo olha para paisagem como se tivesse um problema existencial…

Todos riram. E eu falava sério. Como numa conexão íntima com o amarelo e o cachorro cinza (este último aparecia quando queria) passei a olhar para o mundo. Tal como Wladimirovich, tomado de vodka e utopia transbordando seu esôfago, entreguei-me a angústia do mundo esperando o momento onde eu deveria cumprir meu papel. Fazia-o com o ar sombrio e constante de sempre. Mas não era preciso ser triste para ser militante?

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Não era preciso ser triste para ser militante?

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