Há dias que são outonos

Rafael Vendetta

Não sei como começar a falar de um outono, a não ser deixando minhas folhas e palavras caírem, como uma árvore que deixou de ser e vai perdendo folhas (e fica nua), como você um dia vai perder (ore aos céus para não cair o caule meu amor). Vou deixar cair folha a folha, no meu tempo, para ver se você, que não passa por um outono, compreenda: há dias que são outonos. (Anote isto na sua caderneta de final de semana, aproveita e anota meu nome <<se lembrar>>) 

Pare de dizer que você se preocupa, quando essa palavra, para você significa mais uma oportunidade de tomar distância e ainda lavar a consciência. Não lave a consciência comigo. Tenha mais respeito. Se pensar em fazer isso, desligue o seu telefone e finja que está dormindo; é melhor (eu faço isso). Eu estou vivendo um outono. Não me ligue. Viver um outono é algo sério. Muito sério. Eu não quero receber alguém, com chá e torradas, que simplesmente espera a vez de falar. Isso já foi feito, muitas e muitas vezes. Não faça isso de novo. Tenha outonoriedade. Me respeita porra.

Sim, eu sei, você vai me ligar. Vai insistir (uma parte). Vai me mandar uma mensagem. Sim, eu sei, talvez até com muito esforço (como você é generoso/a não?), você irá marcar uma conversa, vai me marcar. Mas não. Eu não quero: não dessa forma. Se você não fez antes porque fará agora? Não faz sentido. Agora é meu outono. Você deveria ter chegado no verão ou na primavera… Viver um outono é se proteger. Eu estou me protegendo. Quando você se proteger eu juro, farei a mesma coisa para lhe privar da decepção. Mas por ora pare.

Eu vou fazer café. Vai ser muito difícil. Eu vou acordar. Vai ser terrível. Eu vou dormir, depois de protelar, protelar, protelar. E você? Você vai me procurar. Mas quando você fizer isso, eu já terei passado as piores fases do meu outono. E não é qualquer um que vive um outono pensando em levantar no dia seguinte.

Traga-me vodka e coca-cola. Traga-me uma fita vhs de 1999. Mande um disco do Nirvana pelos correios. Mas por favor, não finja que vai me ajudar no meu outono. Você não vai fazer isso. Se fizer vai fazer tudo errado. Por exemplo, entrando no timing errado. E se mesmo assim acertar, eu creio que você vai esperar sua vez para falar e seguir. É assim que todas e todos fazem. Porque os outonos não se encontram. A vida é assim. Pare de fingir amizade.

Foto: Neil da Costa in IGNANT (adapted to Black and White). http://www.ignant.de/

Foto: Neil da Costa in IGNANT (adapted to Black and White). http://www.ignant.de/

https://pseudocontos.wordpress.com/

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