Acumular amigos

Meus amigos. Cresci mais do que eles. Voei, voei. Como um balão de hélio, subi demais. Quando tentei descer, eles iam no caminho contrário como camelos. E eu fui me enterrando. Bem no fundo. Quanto mais eu me enterrava, mais amigos, virtuais, eu tinha. Quinze, vinte e seis, duzentos e dezenove, mil e cinquenta e três. Quanto mais eu acumulava amigos, menos eu os via. Não conseguia mais falar com eles.

Chegou um tempo em que era difícil saber como se fazia amigos. Chegou um tempo em que eu não falava mais nada e resolvi calar, porque falar era cansativo. E aí eu passava a noite ouvindo música suja com vodka ou jazz. E quanto mais eu me enterrava, parecia voar. Bem no fundo, eu sentia que esperava uma mão para me tirar da lama. A mão nunca chegou. Cinco ou seis minutos. Era o que me restavam. Eu tinha prometido que sobreviria. Sobrevivi a tudo: ao colégio, aos encontros estudantis, aos joelhos dobrarem com Vicodin no fundo. Sobrevivi aos almoços de família.

Pedir piedade era uma saída, mas não, não consegui falar com eles. Eu só queria falar e ouvir. Dignamente. Sem esperar a vez de falar.

Mas eu voava, e me perdia, enterrado, como um balão de hélio: pesado e sem rumo

 

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