Emigrou

Rafael Vendetta

Maldito mundo novo. Que separa as pessoas por dias ou semanas, e linhas imaginárias. Mais de dois dias e você vira um peixe. Duas semanas e já passou do prazo, e começa a feder.  

No início, o seu sotaque e a cidade do raio-que-o-parta são interessantes na roda de conversa, como um gif de buldogue japonês de língua-azul e que faz parte do enredo dos que tem tempo para lhe escutar. Mas extrapolada a dead-line da novidade ou do abuso, você é só mais um comum que não sabe falar cadeira em búlgaro. E na rotina frenética dos bancos e dos que quebram bancos, ninguém tem tempo para tentar lhe ensinar a falar love-you-tear-us-apart em Cantonês porque empatia é cara meu amor e é paga hoje, em bit-coins. Veja bem. A coisa anda rápido e não espera você se decidir em que mundo vai morar. Ninguém tem mais tempo pra isso. O globo não é mais aquele encontro gentil e desinteressado do século XVI.  O mundo é hostil. É uma distopia do Marck Zuckerberg dirigindo um tanque de guerra movido à curtidas.

Demorei dois meses para aprender a mandar alguém pro inferno. Perguntei a Matias como eu falava e ele me disse: –  Está falando bem estrangeiro.  Mas era mentira.  Matias só estava sendo gentil com alguém de fora da linha. Era assim que tinha de ser. Esse era o papel de  Mathias.

Às vezes só se quer comer doce de leite e se integrar. Mas não é fácil. Isso demora muito. E eu, na apatia crônica do pequeno mundo, decidi mudar a linguagem de programação pra tentar me integrar-entregar. Achei que falar do que deixei para trás ia acabar com as minhas contradições de classe, que idiota. Em duas semanas isso se tornou tedioso  e eu achei que ia quebrar meus dentes apertando uns contra os outros, com tanta força, que achei que a tristeza iria sumir.

Com os dias cinzas passei a não conseguir mais acordar de manhã. Ninguém me ligava porque eu era um estranho. Eu vivia no silêncio e de manhã me silenciava. Tentei melotonina, álcool, efedrina e tarot. Nada me salvou. Passei a dormir quando eles andavam e falavam entre si. Comecei a pensar nas linha imaginárias que guardavam meus dias. Joguei i-ching e torci pela vitória do time de futebol da Albânia. Nada me ajeitou.

Não sabia mais morar no meu mundo. A moeda da vida me quebrou. E ela pedia demais. O banco dos sentimentos andou rápido e cada dia, a cobrança chegava pelo final da tarde.

O mundo era hostil. Não podia pagar. Que me enterrem num lugar onde não consigam ler meu nome. Não sei em que mundo vou morar. Não sei mais falar esse idioma. Desisti de aprender.

emigracion-2

 

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