Arquivo da categoria: a pedra e a carne

Sincero, mas não verdadeiro

Rafael Vendetta

Minha última mensagem soou muito pessimista. 

Escrevi meio cansado, soou natural, mas não verdadeiro.

Não sou pessimista. Citando Emil Cioran, o Nietzsche da Romênia (, eu digo, “Não sou pessimista, eu amo esse mundo horrível”. O amo, pois é o único que há. Não há outro.

Não há éden na terra. Mas aqui no Rio de Janeiro há um cidade na baixada fluminense, chamada Éden, na década de 70 não tinha saneamento básico, faltava água, faltava luz. Foi lá que um grupo de militantes da Ala Vermelha, resolveu fazer uma base durante a ditadura militar (“pois tem muitos trabalhadores, é estratégico”). A maioria foi presa, torturada ou morreu. Mas não se pode mais dizer, que os comunistas não foram ao Éden. Admiro a coragem e o pessimismo, juntos; de gente que quer mudar a si mesmo e o mundo, de uma tacada só. Que difícil. Isso não é fácil. Não é fácil agir contra uma máquina, nem lutar contra um moinho.

Estou de mudança, me mudei para longe de mim. E eu disse, copiando, parafraseando Jung: “a terapia não te leva a felicidade, ela te fortalece contra o sofrimento” fez tanto sentido.

Foi fazendo, ou melhor, pensando nisso, que eu me livrei de tudo o que me pesava. Aí veio a música. Aí passei no centro da cidade e vi um cara tocando Gaita de Fole. Depois peguei o metrô e um trio argentino tocou uma música em francês. Eu me repeti.

Lembrei da Maga do Cortázar. Coisas fantásticas, mas pequenas coisas tem acontecido.

Vou escrever amanhã. Acho que é isso o que eu quero fazer até o fim  da vida. Escrever.

Escrever é como andar de avião pela primeira vez. É uma sensação terrível, mas muito boa. É como se eu tivesse voltado há três anos atrás. Ainda estou lá sentado, escrevendo. E me sinto no avião. Olhando para o futuro, mas o futuro já chegou. E os papéis se inverteram (mesmo que temporariamente)

Ano que vem é ano de mudanças. Vou viajar.

Mentira, vou ficar aqui. Tirei férias de mim mesmo. Já perdi o medo (mentira, ainda tenho medo).  É um medo diferente dos militantes da Ala Vermelha, mas ainda é medo. Medo precisa ser respeitado. Falta de medo também.

Outra coisa maravilhosa que me aconteceu foi desacelerar. Continuo fazendo muitas coisas, mas não acelero mais. Isso é ótimo. Era exatamente o que eu queria. Só consegui comprar pão, tomar vinho, fumar e escrever.

Há duas semanas não lembro dos meus sonhos. Talvez a realidade tenha ficado mais colorida e os sonhos mais cinzas. O contrário é pior.

Estou aberto a coisas novas, mas não perdi o foco. As coisas fantásticas da vida. As pequenas coisas. Isso sim é o Éden. E eu não o julgo. Vou voltar para a minha aula. O texto é a “Guerra Total” de Eric Hobsbawm. Nada mais apropriado, para uma semana em que consegui ver o maravilhoso enterrado pelo cinza.

Te cuide…

Não me amo, porque quem se ama, para e morre; olhando para si.

Eu apenas sinto. Porque me movo, olhando para as minhas dobras e rugas, e quando sinto, sinto com a verdade nos olhos emoldurando meus sonhos que comecei. Eu vou continuar a escrever.

Vou-me.

Eu amo esse mundo horrível.

Vou escrever sobre isso, até o fim da minha existência. Com éden ou não. Continuarei a escrever. Pretendo ser sincero, mas não verdadeiro.

https://pseudocontos.wordpress.com

ocinzaserajulgado

ocinzaserajulgado

A Pedra e a Carne – O Cotidiano

Rafael Vendetta

Quando eu disse que viver com o atrito entre os dentes e a realidade não era fácil, metade da sala riu (neuroticamente), a outra metade ficou em silêncio. Havia um mal estar no ar que não combinava com a decoração daquela firma. As paredes salmão, o café e os biscoitos na mesa. Tudo escondia a negação que ia explodir a qualquer hora. Podia ser o Joel entrando com uma metralhadora no setor de RH. Ou, a firma poderia sofrer o vandalismo do mercado financeiro na próxima primavera, pois uma declaração infeliz do subsecretário de assuntos estratégicos da ONU no Oriente Médio poria tudo a perder.

Outra opção eram os chineses, comprando mais ferro e coragem do que podiam. Mas tudo poderia seguir como sempre foi e algum dia, a verdade estouraria na cara daquela gente, no fim da tarde, ou no meio do almoço. Não faria diferença. Eu avisei uma ou duas vezes, mas o que mantinha aqueles elos da corrente unidos, era uma aposta perdida no futuro: tudo ia melhorar. “Aqui é temporário”, diziam. “Com a experiência adquirida aqui, posso concorrer a gerência no ano que vem”. Eu sempre dizia que não se devia esperar o que não se pode agarrar com os dedos, mas ninguém, ninguém me escutava. Eu dizia que era tudo areia fina, escorrendo nos dedos. E todos continuavam a andar em círculos até os feriados que antecediam o natal.

Mas no meio da tarde, um passarinho resolvia voar diferente e os outros resolviam segui-lo, por hobbie. Ou podia ser uma explosão emocional no fim da tarde, que colocaria combustível no meio da rua, até que centenas de pessoas indignadas, marchariam até a delegacia de polícia local, exigindo que os carniceiros saíssem do bairro.

Logo se via as chamas no fundo da avenida. E a beleza das vidraças quebradas contrastava com a harmonia do silêncio. No meio da tarde um beijo e uma greve.

A pedra e a carne se encontravam. Nas pedras voavam os sonhos. Na carne a utopia do desejo e a fuga do destino da máquina.

E o futuro?, perguntavam na saída do emprego.

O futuro eu não sei respondi, mas morrer com um escritório na cabeça e nos braços não é digno de alguém que não sabe onde começa a pedra e onde termina a carne.

https://pseudocontos.wordpress.com

A Pedra e a Carne - cotidiano

A Pedra e a Carne – cotidiano

Despedida

Rafael Vendetta

Eu gostaria de dizer algumas palavras, mas eu sou ruim com palavras, então eu preferi falar dos meus sonhos.

Num sonho eu  encontrava uma cidade fria com uma antena colorindo ruas e desejos. Sim, falávamos de coisas do passado, mas na verdade a gente temia o presente, falando para si próprio que o passado era algo que não fazia mais sentido para nós. Meu terapeuta, que racionalizava até o amargo do café, dizia que a vida era assim, como tomar café em São Paulo no frio, essa era a vida.

Pobre terapeuta, pobre São Paulo.

Eu fui mexer em coisas velhas, foi assim que eu fui para lá (aí). Desenterrar o sofrimento dos antigos por entre papéis e cheiro de mofo e aí você surgiu, digo ressurgiu, com a tatuagem da Fênix na tua pele branca, que eu chamava de Quetzal, por que eu só conheci Quetzal, aquela ave que diziam que morria quando perdia a liberdade. Ave corajosa.

Não como eu, eu, andando por entre paralelepípedos amarelos, fazendo realpolitik do amor, flanqueando você nos momentos errados, quando eu deveria ter abandonado a minha coragem naquele gole de café e ter dito o que tinha de ser dito antes de tudo começar.

Mas não. Eu não disse nada, fiquei aqui escrevendo, morrendo de saudades homeopaticamente.

Ah não roja, eu não fiz o que deveria ter sido feito. Eu preferi andar erraticamente, caminhar por entre escombros emocionais, preferi montar castelinhos de nostalgia… Mas que palavra maldita e covarde, nostalgia… nostalgia… parece nome de remédio ruiva. Eu deveria ter ido até você.

Eu me lembro de tudo por que me lembro das histórias boas. Não sei quantas histórias boas eu vou ter na vida por que não sei quanto tempo vou viver, eu só sei que aquela flor que você esqueceu foi mais significativa do que a coleção completa do Jung lá em casa. Jung não me disse nada. Mas aqueles grampos na mesa, aquela flor, sim, aquilo tudo fazia muito sentido. Não sei quando vou viver isso de novo. Talvez seja exagero; não me importo.

São Paulo é tão cheio, mas o bar estava tão vazio. Eu não sei, mas aquilo teve cara de sonho. O encontro na fila, o beijo no parque, você e eu num lugar que eu não posso mais passar sem lembrar de você, por que mesmo que as coisas mudem, você estará gravada ali, com seus olhos, seu sorriso, com sua boca roja e seu perfume invencível.

Mas veja bem, os sonhos não acabam. O nome daquela palavra de que não conseguia me lembrar é despertar roja. Eu troquei por consequência, mas a palavra é despertar. “Depois do despertar vem, com o tempo, a conseqüência…” (Albert Camus). Óbvio que eu me reestabeleci roja, como eu sempre fiz na vida, dia após dia, com os sonhos guardados no coração. Eu sempre fui assim. Quixotesco pero no mucho.

A gente não mata os sonhos. A gente só acorda. Desperta. E volta a sonhar. O mundo é isso aí roja. É preto e branco e colorido ao mesmo tempo. É sonho e realidade. O mundo é o que a gente quer ele seja. E quando ele não é, eu digo que a terapia, a realidade, a sociedade e o capitalismo precisam ser  definitivamente mudados para haver mais gente ruiva e linda como você no mundo.

Quando a primeira cerveja acabou ruiva, eu vi que eu só tinha mais alguns minutos para olhar nos seus olhos à procura de mim mesmo. Dizem que isso é idealização. Pode ser. Talvez seja um universo vermelho. Juro que não irei mais escrever sobre você, por que guardar um universo dentro de si é coisa de gente grande.

oamanhaserasimbólico

oamanhaserasimbólico

https://pseudocontos.wordpress.com

A Pedra e a Carne – O primeiro dia

Rafael Vendetta

Não tinha ninguém.

Quando eu me sentia frágil, um ninguém, a fragilidade me esmagava como pedra moída na carne, e a fragilidade explodia, ou ia para uma caneca vermelha como se ela fosse dar respostas. Mas naqueles momentos sórdidos a vontade era apenas café. Não era nada demais. Eu protestava a toa.

Aquele tijolo pintado de argamassa, aquela tinta branca (fascista), aquele quarto e situação de merda e era hora de aproximar a fronte do mundo e dizer que eu ia moer o mundo pela manhã, mas era mentira, eu só ia dormir e me afastar, afastar e isto funcionaria nos primeiros segundos. Mas depois era o vazio. Depois nada mudava. Era o motim, a mentira nos jornais, o calor de 37 com sombra, a poesia, não, porra, não tinha nenhuma poesia e o silêncio. Em 1999 eu tinha tudo mas desperdicei minha chance. Eu tinha uma camisa listrada, um tênis velho. Eu tinha amigos, dor no fígado e nenhum piano nas costas. Eu podia ter feito alguma coisa, mas meus amigos só podiam sobreviver e eu segui o que tinha de seguir, e sinto-me honesto, por ter decidido não avançar.

O telefone (hoje) tocou e alguém gritou meu nome. Depois foi só tempo perdido. Palavras de tempo perdido. Menos tempo agora para mais tempo adiante. Tarefas. Era tempo perdido. Um murmurinho de fazer coisas mais pra frente e depois ganhar alguma coisa com essas coisas. Eu não entendia bem. Mas a lógica era perder tempo, para no futuro ter mais tempo e seguir com honestidade, dinheiro ou orgulho nas mãos. Eu não entendia muito, mas isso se aplicava a tudo, ao trabalho, a mudar o mundo, a sair e beber. Ninguém ligava para falar que podíamos sair sem compromisso pelo mundo, sem nos preocupar com o tempo adiante. Ninguém dizia, vamos moer a carne em algum lugar escondido do mundo. Um lugar sujo e feio, mas onde ninguém perde tempo para ganhar mais tempo adiante.

No fundo da cozinha alguém gritou. Eu ouvi pratos e copos quebrando. Mas não era nada. Eu custava acreditar, mas isso sempre acontecia. Era o gato que não existiu, a borboleta que voava, a campainha que não tocou e alguém me chamou, mas eu abri a porta e não tinha ninguém.

Um sofá

https://pseudocontos.wordpress.com