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Como fazer um café com o pó do absurdo

 Rafael Vendetta

Acorde. Lembre dos seus sonhos. Lave o rosto. Pense em anotar seus sonhos.

Esqueça seus sonhos.

Pegue o pó do café. Misture com o que restou de si mesmo. Esquente a água. Pode sentar. Pode andar pela casa. Pode fingir que está fazendo algo para si próprio ou pra casa. Pode até varrer a casa. Pode pensar no dia anterior.

Faça o que fizer, o tempo é curto e se mede sempre pela água. Pode sentar, acender um cigarro, olhar para o sol nascendo. Ele nasce laranja porque tem sujeira no ar. Se ele nascer amarelo é porque o dia vai ser quente. Se ele nascer cinza, o café vai ter um gosto muito bom. Espera a água esquentar. Se a água esquentar e você esquecer é porque alguma coisa aconteceu. Foi o sonho, foi o dia anterior, foi a carta que ela não enviou, foi o esquecimento, foi a falta de sentido. Alguma coisa sempre ocorre quando se esquece a água do café e ela seca sozinha (como você). Se isso acontecer deve-se adotar atitudes emergenciais: deixar o café para o próximo dia ou esquentar a água e o sentido de novo.

Com o café pronto, você enche a caneca da vida e pensa na semana, nos meses, nos anos. Você bebe. Você finge que há um plano para o dia (não há nenhum). Quando estiver quente você bebe. Bebe e esvazia o sentido. Canta aquela música. Olha no espelho. Amarra o cabelo. Se tiver um gato, fale com o gato. Se tiver uma planta, molhe a planta (de água, não de café). Pegue um copo. Esvazie o cinzeiro da noite anterior. Pode esticar as pernas com a camisa de flanela cobrindo o erro da noite anterior. Coloque as meias.

Você pode sair. Você pode voltar (talvez não possa). Inspire. Expire. 

Quando parar de pensar, o que sobrar é você, segurando uma caneca e bebendo café.

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Pragmatismo afetivo

Rafael Vendetta

Abraçamo-nos e não sentíamos nada. Nada nos incomodava. Isso era bom.

Às vezes sonho com a dissolução, disse. Ela me olhou, passou as mãos sobre meus olhos e comentou que isso não fazia sentido. Você sabe que o sentido é uma massinha de modelar, cortei.

Ela virou e jogou a coberta no chão. Eu subi, beijando seu calcanhar, sua perna, encostamos as mãos, ela revirou os olhos e jogou o cabelo para o lado. Dar as mãos foi como amar de novo e de novo. Dar as mãos a ela era algo tão reconfortante, encostávamos e parecia que tocávamos piano. Ela se espreguiçou, me beijou como se eu fosse morrer amanhã e puxou meus cabelos: havia força, vazios, delicadeza.

Aquela tranquilidade se convertia em silêncio. Eu sabia que tudo aquilo iria acabar. Amanhã, talvez semana que vem. Isso era o amor. Mas eu não me importava. Eu tinha aprendido, depois de tantos pequenos desastres a viver um dia de cada vez. Não tinha esperança em mais nada, apenas no sol, nos sorrisos e no relógio. A paixão se media pela intensidade e pela sinceridade, não pelo tempo.

Eu perdi a capacidade. Não sabia quem iria amar. Era uma sina.

– Não sei saber, confessei.

E ela retrucou: e alguém sabe?

– Sim, muitos sabem. Invejo quem decide tudo no primeiro olhar, no primeiro beijo, na primeira semana. Eu não. Nunca decidi nada. Sempre acho tudo muito amplo. Estou sempre esperando o próximo sinal, mas ele nunca vem. Não sei mais o que é um sinal. Fico sempre no aguardo.

Ela se calou.

Eu disse: isso te ofende?

– Não, ela retrucou. Eu não me importo, disse resoluta. Eu só vivo o presente, falou apressadamente, mordendo o cigarro na boca como se desejasse terminar a conversa.

Eu achei aquele pragmatismo romântico. Beijei seu pescoço pelo lado direito, ela largou o cigarro sobre o cinzeiro e me deu um beijo, recomeçando tudo novamente. Paramos no meio do caminho, sorrimos, apertamos as mãos e nos apertamos. Eu me lembrei de Sísifo no meio do caminho, que devia ser seu momento de maior prazer, nem tão alto, nem tão baixo.

E o que fazemos?, perguntei.

Ela riu suavemente, me puxou para seus braços, me beijou e apagou o cigarro no cinzeiro.

– Eu não consigo saber nunca.

– Tenho um universo dentro de mim. Acho tudo muito amplo. Enjoo de tudo. Mudo a cada manhã.

Ela sorriu, arranhou levemente minhas costas, ajeitou o cabelo, foi até a janela e pediu que eu fizesse chá de morango. 

Enquanto eu ia pra cozinha com aquele peso do mundo ela gritou: – Disso eu tenho certeza.

Eu esquentava a água e o chá. Aquele momento era o que realmente importava. Escutávamos “a música em que o mundo iria acabar”. Ela iria pegar o trem e viajar, como sempre fez. Eu iria permanecer ali, até alimentar-me novamente de outro universo, de outro vazio. E o que dizer para a ruiva? Exigir uma cerca branca e um cachorro? Exigir raízes? Eu não acreditava, assim como ela nesse modelo. (Não havia tempo para debater, decidir). Eu levei o chá de morango, nos beijamos, abraçamo-nos e dormimos. Amanhã era outro dia. Ontem, eu amei e fui amado. Amanhã não sei mais. Ainda consigo esquentar a água do chá. Vou seguir e ela também. É assim que será. Não é o romantismo que é pragmático, é o pragmatismo que me parece romântico.

Vou esperar a próxima estação.

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Cretinice escolar

Rafael Vendetta

Comprei minha primeira caixa de singles, aproximadamente em 1998. Foi a coisa mais cara que me lembro de ter comprado, à época. Juntei muitas moedas, completei com uma três semanas de dureza e levei de uma loja no Méier, que hoje não existe mais. Ainda tenho a caixa de singles, a sensação não, deixei guardada no fundo de uma mochila, que perdi dentro de um ônibus (madureira x méier). Comprei essa caixa num dia em que matei aula e essa é um das memórias mais carinhosas que tenho do período escolar.

Sempre matei aula sozinho. Demorei a ter coragem de fazê-lo, mas o fiz. Não só pela escola (que era cretina), mas pela maioria dos alunos (que eram cretinizados).

Foi isso que definiu meu caráter. O melhor lugar para matar aula era Madureira. Era um acordo secreto, que todos faziam, quando queriam se esconder. Mochilas e uniformes guardados na mochila, aguardando o sol abrir o dia, enquanto tudo seguia como sempre foi

Da estação de trem a escola, eu andava cinco minutos. Eu levava uma camisa por baixo do uniforme. Quando eu me enchia, ao invés de jogar flipper, eu saía dali, e pegava um ônibus para madureira ou para o méier. E às vezes, perdia meus minutos, catando gibis num camelô perto da escola, que vendia as melhores revistas. Eu gostava daquela banca e da sinceridade dos humildes. Eles não me julgavam.

A escola serviu para tudo, menos para aprender. Tudo o que eu aprendi aprendi com amigos ou com livros. A escola só me ensinou a ser cretino e o fato de ser aquele ambiente, um ambiente cretino, nunca combinou com o que eu realmente queria, que era acabar com a cretinice no mundo. Mas só desejei isso nos anos finais da escola. Ali fui entender, que aqueles cartões e catracas, que os inspetores e a disciplina de gado na descida e subida ao concreto da sala, representavam a preparação da prisão. Entendi tarde, logo depois de um professor bradar contra o imperialismo norte-americano. Aquilo me interessou; talvez não tanto, quanto a virada de 1999 para 2000, onde diziam que o mundo iria acabar. Todos nós sabíamos que tudo iria continuar como sempre continuou. Que os cretinos da escola, aqueles que oprimiam em grupo e em ritmo industrial, continuariam cretinos. Que os indiferentes continuariam indiferentes. E que os funcionários fariam o que sempre fizeram, que é fingir que fazem alguma coisa, quando no fim, ninguém se importava realmente. E apenas esperavam a hora de sair daquele lugar.

E de 1999 a 2000 imaginei, que uma porcentagem minúscula do destino, poderia realmente me dar um final de mundo. E quando eu imaginava o mundo ruindo, a primeira coisa que eu imaginei realmente que poderia ruir até rachar ao meio, era a escola. De todo o resto eu guardava algum carinho, que me evitava desejar sua destruição, mas a escola não.

No recreio eu costumava ir para a biblioteca. Fiz isso durante uns 4 anos. Foi ali que aprendi a ler de verdade, com a aspereza daqueles minutos tão insípidos e que distribuíam traumas para os anos seguintes. Na escola não aprendi a fumar. Nem a beber. Muito menos a estudar. Aprendi a escutar professores reclamarem de ser professores. E alunos reclamarem de ser alunos. Aprendi que o mérito era premiado com uma foto colada num papelão. E que uma nota baixa poderia significar uma ansiedade guardada, durante 40 minutos, que era o tempo que durava a minha ida, de ônibus, da escola a minha casa. Aprendi, nos anos em que se era obrigado a cantar músicas cretinas, que ficar calado durante muitos minutos lhe daria uma estrela verde, que você carregaria para casa, amassada, enquanto se acotovelava, para entrar pela frente do ônibus, ali, pelos seus 7 ou 8 anos de idade. Foi ali que aprendi que parte significativa do que estudava serviria para alguma coisa: mentira. Nunca serviu.

Foi ali, que comecei a perceber que  os muros da escola serviam para esconder o esgoto que vazava de fora para dentro.

Não sei onde foram parar os bem sucedidos, os cretinos e os desajustados da escola. Não me importo se eles chegaram até o pote de moedas no fim do arco-íris ou se hoje, tomam prozak. A pergunta é saber, se continuam cretinizados ou preferiram se tornar cretinos. Quero saber, se ainda conseguem dormir ou acordam como eu, pronto para o revide. Quero saber, se ainda acham que aquela merda com muros e grades altas lhes fez bem, ou se o estômago guarda as estrelinhas de cartolina, verdes ou azuis. Quero saber se ainda conseguem matar sua rotina ou fazem como eu fazia, há anos atrás, esperam um cataclisma, que nunca, jamais vai chegar.

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Permita-se cansar

Rafael Vendetta

Cansei, mas quando digo isso quase ninguém entende. Uma parte acha que eu desisti.

E uma parte ainda mais maldosa (talvez minha, talvez de uma parte de quem me lê) apenas diz: “fraco, vou seguir e que fiquem para trás os desistentes”.

Mas deixa eu repetir, deixa eu repetir até para os super-humanos, que deixaram sua humanidade guardada no baú da cretinice heroica cheia de si mesma e saíram para esmagar e empilhar: cansar é diferente de desistir. Desistir é desistir. E eu nem acho que quem desista, desistiu de verdade, pois eu acredito no ser humano. Mas eu (fica a mensagem) não desisti. Acho até, que todos e todas tem o direito de desistir e de recomeçar. Mas esse é outro papo.

Cansar é diferente. Isso precisa ser dito. Cansar é uma arte. Nem todo mundo cansa do mesmo jeito. Eu sempre canso com uma xícara de chá e um nublado. Cada um cansa diferente, eu canso assim, e não vou te ensinar como você tem de cansar, mas eu te direi: permita-se cansar.

E quando eu digo que cansei, também não quero dizer: fugi.

Fugir é outra coisa. Fugir é diferente. Fugir é desistir de encarar. Desistimos quando aceitamos apanhar. E fugimos, quando não nos expomos para apanhar, jamais.

Cansar não. Cansar é saber quando e quanto estamos dispostos a bater e quando apanhar. Mas os neurastêmicos não entendem isso. Pois eles acham que viver é bater o tempo todo em ritmo industrial. Mas eles nunca saberão quanto estão dispostos a bater e a apanhar, pois agem como uma metalurgia e cansar, cansar é simplesmente uma arte artesanal. Quem quer apanhar, mesmo tornando suas arestas rígidas, trocou o coração por um carburador. E eu não tenho um carburador no peito e nem quero ter.

Não entendo gente que atropela cotidiano e a sensibilidade do mundo por um alto falante. É um preço alto (e errado) a se pagar. Definitivamente não entendo. Não sou nem pretendo ser, um sistema de combate

Vejo gente super-humana, que ama o mundo e trabalha por sua transformação, com tiques neuróticos e atropelos de fala ou super-absurdos recheando a sala  de estar. Mas aprendi, que neurastêmicos reunidos podem fazer um consenso virar mofo. Gente que gagueja no âmbito privado, mas passa um rolo compressor com a naturalidade de um caminhão. Não são todos, não serão maioria, mas vos digo: não amem o que ainda não construíram. Não amem o poder de uma possibilidade, sim, no fundo somos isso, possibilidades.

Não tenho as respostas (eu tateio como você) nem a culpa dos problemas do mundo. Não posso ter. E por que teríamos? Se é para agir prefiro que minha ação possa olhar nos meus olhos diante de um espelho e diga: chega, cansou. Pare tudo. Agora quero descer. Não dá pra seguir, pare, encontrei meus limites, não me massacre.

Não é seguindo que nos tornamos humanos, mas sim, cansando. Sim. Temos de cansar, temos de saber cansar, pois o que nos faz humano não é amando a humanidade em abstrato em detrimento do assassinato da nossa própria; o que nos faz humano é seguir, recuar, amar, mas sempre, agindo e cansando, com os olhos mirando o horizonte, mirando a utopia. O que nos dá consciência… é cansar.

Não somos polvos políticos, que agarram suavemente o mundo em seus tentáculos mecânicos e não desistem, até esmagar a humanidade em abstrato sendo corroída pelo líquido espesso de si próprio.

Não.

É preciso cansar. É preciso fugir, desistir e cansar para se fazer humano. Não estou fazendo uma apologia do que não se move. Percebam: apenas não quero mover com engrenagens no peito. Quero me mover como humano, sem engrenagens.

Não é fácil cansar. Há muitos juízes. Sei disso. Mas se não posso cansar não é minha revolução.

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Quando foi que você enxergou o cinza?

Rafael Vendetta

Vou te dizer como estou agora (interprete isso como uma mensagem). Vou te dizer como estou. Depois de algum tempo, andando de tênis, mochila e coragem vou te dizer. Depois de muito tempo eu resolvi viajar e voar. Eu voei por aí. E vou te dizer como foi.

Eu matei um pedaço de mim meu amor. Vou dizer como foi. Eu matei um pedaço meu e você estava lá. Foi com bisturi. Você não é culpada, ninguém é. Pois todas as cores tem cheiro de cinza. E você não estava lá quando isso aconteceu. Não tinha ninguém. Eu era o único.

Eu comecei a enxergar cinza e você só deu o último golpe. Que culpa você tinha? Você só completou. Você só fez o que todos esperavam. Ninguém imaginaria que eu, não sobreviveria ao cinza.

Mas eu sobrevivi.

Eu estou aqui. Eu pulei na água. Mas a água tem cor de afogamento. Eu estou aqui meu amor. E ninguém notou.

É hora  de viver e seguir; como você, que viajou e voou… Você me encontrou no último golpe. E só sei dizer que as letras me salvaram. Eu só queria dizer que você foi importante e ainda é.

Não sinto mais sua presença, eu sinto apenas, sua falta. Eu andei de mais. Vou te dizer como foi: foi assim. Foi assim, quando todos esperavam, que eu comecei a enxergar cinza. Foi quando eu imaginei que não sobreviveria ao cinza. Foi quanto eu te beijei. Porra. Todo  o resto é interpretação.

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tequeroperto

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Revide

Rafael Vendetta

A capacidade de não se importar. Aprendi cedo. Sim, eu não me importo com você. Você e suas opiniões venenosas. Você e sua brincadeira de bar homofóbica que me comeu metade do fígado e no fim das contas, resolvi chorar, mas você não viu. Você era um racista de merda, mas nem sabia.

Eu não ligo mais pra você; aquele seu passado sujo. Quando você, ria de mim, entrando na sala de aula assustado. Lembra? Eu carregava uma pasta feia, preta, e entrava – como você mesmo dizia – assustado, olhando todo mundo antes de sentar. Eu era uma aberração pra vocês. Eu não tinha o que vocês tinham. Eu não tinha glamour e a luta de classes era o tênis que a gente usava ou não usava. Eu me assustava porque você, vocês, vocês sua turminha de gente bem sucedida e feliz, que hoje declama aos filhos “paz para a classe média de quatro anos de idade” e caga aos sobrinhos, a importância de fazer o bem, fazia o que sempre fez: me fudia. Eu aprendi a ser fudido desde cedo. E sei que muita gente também aprendeu com a gargalhada estridente vindo de lá, do fundo da sala.

Agora olhe pra mim, sim olhe pra mim. Eu estou aqui fora fudendo gente como você. Eu aprendi com a vida. E sei que você tem medo de gente como eu, gente que não tem nada a perder, e vez ou outra, aparece na TV com a raiva nos dentes, com a ferrugem na vida, enquanto você diz: “que gente maluca, mãe, eles são terroristas, vândalos!!”

Mas pense bem. Foi você que me criou. Baderneiro, filho da puta, sim, aparentemente sou eu. Eu não sei, mas na minha vida atual, uma vidinha pequena, como o respeito que vocês tinham por mim, eu não fiz questão de ganhar nenhum troféu. Eu apenas cultivei a resiliência. Eu treinei pra sobreviver. E eu sobrevivi a vocês e sei fazer isso bem, muy bien.

E eu fiz isso, na sexta, na sétima, na oitava série, e depois mais um ou dois anos, até eu me cansar de vocês (depois descobri que vocês eram tigres de papel).

Eu te aviso parceiro. Eu sou mais difícil de matar que na oitava série, porque eu resolvi  sobreviver a tudo o que vocês me fizeram. Eu só cheguei até aqui, porque você souberam me pisar. Eu não sabia o que era capitalismo. Eu só conhecia vocês. Vocês davam as regras. Era assim que funcionava. Não havia capitalismo, havia vocês, pisando em tudo o que não gostavam. Esmagando as flores. E vocês não tinham poder mas mandavam naquela porra.

E hoje eu estou aqui. Sendo sombra e espelho.

E vocês fizeram tudo direitinho, direitinha. Vocês fizeram tudo bem, bem até demais. Com tatuagem e tudo, vocês aprenderam bem a agir como um moinho, que estalava tudo quando o sol nascia e se partia. Um pedaço de merda, um pedaço de merda no mundo, no meu mundo e seguiam, seguiam, seguiam até não poder mais, até me fuder. Podem rezar à vontade. Mas se um dia alguém chegar na cerquinha branca e no jardim com orquídeas, lembra de mim. Lembra bem. Lembra bem, quem foi que me fudeu. Porque tem gente como você(s), trabalhando a ritmo industrial.  Quando tiverem medo de que algo de mudou. E que as escolas não serão mais masmorras, lembrem-se de mim: eu trabalhei pra isso. Eu mereço parte do prêmio.

Enquanto isso eu estou nas ruas. E saiba parceiro. Eu não dou mais a outra face a tapa. Mas fique tranquilo, vou acertar o rosto do sistema, vocês sempre foram as franjas. Mas agora, agora meu amigo, é a hora do revide.

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Sobre Abismos e coragem

Rafael Vendetta

Não consigo escrever nada mais. Parece que morri literariamente com meu cotidiano chato. Comprar pão, pegar ônibus, fazer a prova, dar aula sobre o imperialismo na Albânia. A vida anda, mas anda lentamente. Por isso escolhi sondar abismos. Vou largar tudo pra analisar abismos: é minha nova profissão. Sond[e]ar abismos.

Eu era bom com as letras. Ela não. Ela fazia bem com as imagens. Eu não.

Eu era meio cego com o mundo ao meu redor.  Eu não sabia bem como lidar com a vida. Eu era um merda [mentira-verdade-mentira-verdade].

A gente bebia. Juntos. Ela gostava de viajar. Eu gostava, mas não podia, pois meus pés fincavam raízes no chão, no chão. Era isso; basicamente. Eu era corajoso. Corajoso [Mentira] e pobre [Verdade]. Eu era um covarde [Verdade].

[Plano 2]

Você não percebeu. Se tivesse percebido, teria pulado do abismo. Eu me vou. Sempre, fui, como um trem, sempre fui [Mentira]. Eu nunca fugi no meio do caminho [Verdade]. Nunca. Eu sempre olhei para a lua e segui [Mentira]. Segui reto. Poderia ter ido, bastava um sinal [Verdade]. Mas não. Você não fez nada [Verdade]. Eu preciso de um sinal [Verdade]. Preciso. Como você [Mentira]. Mas você não deu [Verdade].

Fodase [Mentira] [Verdade].

As coisas seguiram. E eu segui […]. Eu aceitei, porque minha liberdade acaba sempre na vontade do outro, da outra, dos outros, desse mundo rubro. Meu mundo termina na sua coragem. E minha coragem termina na decisão do mundo. 

Hoje não há mais motivo para seguir; mas ainda assim eu sigo [Mentira-verdade]. Porque aquela busca repetitiva virou cotidiano. Não dá pra brincar de existencialista no verão [Verdade-mentira]. O país é quente, acabou a mordomia, acabou a ilusão. O termômetro da central do Brasil marcou 42 graus. É meio dia e eu tô fudido aqui, pensando na fiha da puta da vida. É impossível fingir no calor. Não dá pra pensar nos amores, nas decepções, e nem no cotidiano [Mentira-Mentira]. Somos raios solares e raios solares não vivem como animais.

Vamos aos medianos. Remédios de medianos: boates, universidades, expectativas, prozak. Ao gosto do freguês. Eram os falsos contrastes. Falsos contrastes segundo Ana Cristina, são pessoaszinhas, pequenininhas, que costumam se agigantar dentro do seu mundinho construído nas sextas-feiras. E se agigantam mais, quando há referências implícitas e explícitas ao seu mundo pequeno; seja num cartão postal de um filme estrangeiro, numa musiquinha francesa completamente desconhecida (pelos próprios franceses) ou num descanso de copo preso estrategicamente num bar de domingo, à 20 reais o bilhete de entrada para a inteligentsia. [Tudo mentira, acredite]

Mas há  um fundo do poço mais honesto; com gente  honesta que o frequentam. E quando isto acontece, a gente grita: é hora de ser feliz ou fazer o que a literatura e o vício pedem porra!: vamos tirar aquele abismo cinza para fora para brincar, o monstro está faminto. Vamos engolir o calor. Vamos esquecer a vidinha. Vamos superar essa merda toda. Esquecer os 42 graus. Vamos ser o que nascemos pra ser.

[Da memória da supernova] {tudo verdade daqui pra frente}

Quando eu entrei no bar, aquela portinhola parecia sufocante, mas logo a uma escadaria subiu ampla ao segundo andar, o único andar justo, que apesar das paredes curtas, transparecia um mundo de contrastes verdadeiros. Os banquinhos, o balcão, o freezer e a cerveja eram um simulacro.  Um lugar mal feito para gente mediana. Mesas de madeira, chão de ardósia. Era a mesma coisa.

Eu acabei ali. Num momento, aquele momento que o abismo cinza come contrastes, eu pensei: vamos engolir o calor. Vamos esquecer os contrastes. Vamos ser o que nascemos para ser. […]

Eu não sei mais, eu só lembrei do saxofone e de que queria acordar logo. Eu queria esquecer minha vidinha.

Vamos superar essa merda toda.

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Minha última sexta-feira no Catete

Rafael Vendetta

Acordei e fiz o que sempre fazia, lavar o rosto, escovar os dentes e depois colocar a água do café. Dormi mal, mas acordei bem. Porque o contrário sempre acontecia e eu estava feliz de ver algo mudando. A água do prédio tinha acabado e na noite anterior eu tinha jurado que ia sair de casa pelo menos uma vez, mas ia sair sem compromisso.

Depois de muitas semanas alguma coisa me aconteceu. Eu conseguia acordar e consegui dormir quatro horas. Na semana passada eu não acordei. Então fui até o Catete, aleatoriamente.

No caminho uma mulher entrou no ônibus (atrasado) e sentou do meu lado. Reclamou do atraso do ônibus. Eu não respondi, mas concordei com o olhar. Aí ela me perguntou se teve algum acidente. Eu disse que não, Ela respondeu que isso era um absurdo e que ela ia chegar na hora do almoço. Eu entendi, mas não disse nada, só apertei os lábios, fingindo empatia, levantei uns 10 minutos depois e desci.

Não sei porque, mas achei que o fato de estar de bermuda foi o que influenciou algumas pessoas a olharem pra mim. Isso aconteceu metade pela minha paranóia, metade porque o ônibus parou no semáforo e eu atravessei.

Quando eu cheguei no palácio do catete eu atravessei a rua e vi um cara tocando flauta. Achei uma merda, mas pensei que fazia parte do meu dia e também dos clichês.

Entrei na feira do livro, Fui sistematizando os estandes. Fui e voltei. Fui e voltei. Aí comprei o que queria. Em alguns estandes as pessoas não botavam fé em mim então eu desistia. Num outro estande o vendedor foi muito atencioso, então fui embora. Quando enchi o saco resolvi passear pelo parque. Passei rápido. Grávidas e um velho reclamando que entrou no banco e o segurança pediu pra ele levantar a camisa. Concordei mentalmente que aquilo devia ser desagradável. Pensei se eu ficaria assim como ele, reclamando do mundo com 70 anos de idade.

Dois universitários entregavam flores de papel pra todo mundo, mas não entregaram pra mim. Achei que era metade machismo deles, metade machismo meu.

Aí fui embora e entrei numa aporia filosófica. Comer no Catete era caro demais. Subi numa escada e  num prédio errado e reclamei sozinho da placa em frente a um boteco muito sujo. Acabei no Largo do Machado comendo uma esfiha e um kibe no Árabe. No caminho encontrei uma velha com uma bola azul na cabeça, no meio da praça. Na volta vi um cara com um terno preto, com um dread grande e meio embolado segurando uma guitarra. Não tinha ninguém escutando. Umas madames comprando cânfora e o cara esperava pra subir no palco improvisado.

Quando eu passei pelo palco vi uma barraca da Assembléia de Deus e uma galera com um sorriso na cara. Passei direto e confesso que fiquei com raiva. Mas lembrei do cara do dread e alguém passou por mim dizendo alguma coisa que eu não consigo lembrar.

Voltei pelo outro lado da rua. Voltei e comprei uns dois livros. Numa barraca a vendedora me perguntou se eu era professor. Eu respondi que sim, mas não sabia se ela ia exigir algum documento, mas já tinha decidido mentir. Quando eu voltei pro parque  do Palácio do Catete cheguei perto de uma fonte e um café que tinha sido reformado. Lembrei de uma conversa sobre a França e Paris e como aquilo tudo não me pertencia. Lembrei de ter ficado sentado no banco de madeira verde e lembrei de quando eu acreditei e joguei fichas e moedas nas fontes e na esperança vermelha, com as grávidas e as crianças passando.

Peguei o metrô e entrei na galeria mais próxima. Sentei e fiquei lendo – mentira – acabei sozinho, olhando pra quem passava e o que acontecia. A hora não chegava e eu resolvi comprar café. Na volta um sujeito que tinha uns 40 anos pediu café pra mim, pois não tinha almoçado e provavelmente nem vendido bala nenhuma. Eu dei metade do café pro cara e andei  me sentindo o pequeno-burguês mas burguês da tijuca, indo falar que tinha problemas que existiam mas não existiam. Me senti mais merda, quando lembrei que não almocei porque não quis pagar cinco reais a mais, enquanto o tio das balas não almoçou porque não tinha cinco reais.

Fiquei na galeria observando o mundo, mas quase não passou ninguém. Chegou um cara de jaleco branco e eu julguei que ele era médico. Depois veio um cara de blaser e roupa de médico e eu julguei que ele era médico. A galeria tava vazia e eu julguei que era a tal galeria fantasma que todo mundo da Tijuca comentava. O cemitério das lojas.

Aí vi que só frequentavam a galeria gente que tava doente. O único restaurante tava falido e fechado. Só me restou falar muito e ir embora. Fui andando pra casa (economizei uma passagem). E não, nem a terapia, nem o Catete, nem os livros, nem ficar sem almoçar adiantou muito. Eu eu só me lembrava da bola azul na cabeça daquela mulher e acho que foi isso que fez eu ter pensado sobre a loucura que é tentar ser você mesmo pelo menos uma sexta-feira da vida. E acho que foi, exatamente isso, que me fez brigar com o mundo todo naquele dia e ser mais eu de vez em quando, mesmo assim, desmembrado e fragmentado pelas ruas sujas e pequeno-burguesas das minhas artérias e do Catete.

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A Pedra e a Carne – O primeiro dia

Rafael Vendetta

Não tinha ninguém.

Quando eu me sentia frágil, um ninguém, a fragilidade me esmagava como pedra moída na carne, e a fragilidade explodia, ou ia para uma caneca vermelha como se ela fosse dar respostas. Mas naqueles momentos sórdidos a vontade era apenas café. Não era nada demais. Eu protestava a toa.

Aquele tijolo pintado de argamassa, aquela tinta branca (fascista), aquele quarto e situação de merda e era hora de aproximar a fronte do mundo e dizer que eu ia moer o mundo pela manhã, mas era mentira, eu só ia dormir e me afastar, afastar e isto funcionaria nos primeiros segundos. Mas depois era o vazio. Depois nada mudava. Era o motim, a mentira nos jornais, o calor de 37 com sombra, a poesia, não, porra, não tinha nenhuma poesia e o silêncio. Em 1999 eu tinha tudo mas desperdicei minha chance. Eu tinha uma camisa listrada, um tênis velho. Eu tinha amigos, dor no fígado e nenhum piano nas costas. Eu podia ter feito alguma coisa, mas meus amigos só podiam sobreviver e eu segui o que tinha de seguir, e sinto-me honesto, por ter decidido não avançar.

O telefone (hoje) tocou e alguém gritou meu nome. Depois foi só tempo perdido. Palavras de tempo perdido. Menos tempo agora para mais tempo adiante. Tarefas. Era tempo perdido. Um murmurinho de fazer coisas mais pra frente e depois ganhar alguma coisa com essas coisas. Eu não entendia bem. Mas a lógica era perder tempo, para no futuro ter mais tempo e seguir com honestidade, dinheiro ou orgulho nas mãos. Eu não entendia muito, mas isso se aplicava a tudo, ao trabalho, a mudar o mundo, a sair e beber. Ninguém ligava para falar que podíamos sair sem compromisso pelo mundo, sem nos preocupar com o tempo adiante. Ninguém dizia, vamos moer a carne em algum lugar escondido do mundo. Um lugar sujo e feio, mas onde ninguém perde tempo para ganhar mais tempo adiante.

No fundo da cozinha alguém gritou. Eu ouvi pratos e copos quebrando. Mas não era nada. Eu custava acreditar, mas isso sempre acontecia. Era o gato que não existiu, a borboleta que voava, a campainha que não tocou e alguém me chamou, mas eu abri a porta e não tinha ninguém.

Um sofá

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Morra com mais dignidade

Rafael Vendetta

Uma coisa que não dá, uma coisa que eu não aceito mais, digo, não aceito, pois meu corpo não aceita, e ele sabe que não aceita com a insônia, com aquela sensação de impotência, com aquela vontade de dormir, é essa coisa do capitalismo impor a você ser uma pessoa integralmente dedicada a alguma coisa o tempo todo.

Fordismo-da-vida-cotidiana-e-da-revolucao

E se você se rebela de verdade, contra essa coisa de se dedicar integralmente a alguma coisa inteira e monstruosa, resta a você essa outra coisa sempre muito inteira e integral, de derrubar o capitalismo, cotidianamente, o tempo todo, integralmente. O tempo todo, todo tempo, integralmente. Dia após dia.

Não são lados iguais. Não, não são a mesma coisa. Esqueçam-me sofistas. Voltem ao jardim de infância da vida. Não é igual. Nunca foi, nunca será. São apenas lados da mesma moeda, mas são lados diferentes. São ladrilhos  coloridos que quebram da mesma forma, em contato com o chão. Moem. Moem sim. Quem diz que não mente.

Você só vai morrer com mais dignidade.