Arquivo da categoria: final de ano

Sobre Abismos e coragem

Rafael Vendetta

Não consigo escrever nada mais. Parece que morri literariamente com meu cotidiano chato. Comprar pão, pegar ônibus, fazer a prova, dar aula sobre o imperialismo na Albânia. A vida anda, mas anda lentamente. Por isso escolhi sondar abismos. Vou largar tudo pra analisar abismos: é minha nova profissão. Sond[e]ar abismos.

Eu era bom com as letras. Ela não. Ela fazia bem com as imagens. Eu não.

Eu era meio cego com o mundo ao meu redor.  Eu não sabia bem como lidar com a vida. Eu era um merda [mentira-verdade-mentira-verdade].

A gente bebia. Juntos. Ela gostava de viajar. Eu gostava, mas não podia, pois meus pés fincavam raízes no chão, no chão. Era isso; basicamente. Eu era corajoso. Corajoso [Mentira] e pobre [Verdade]. Eu era um covarde [Verdade].

[Plano 2]

Você não percebeu. Se tivesse percebido, teria pulado do abismo. Eu me vou. Sempre, fui, como um trem, sempre fui [Mentira]. Eu nunca fugi no meio do caminho [Verdade]. Nunca. Eu sempre olhei para a lua e segui [Mentira]. Segui reto. Poderia ter ido, bastava um sinal [Verdade]. Mas não. Você não fez nada [Verdade]. Eu preciso de um sinal [Verdade]. Preciso. Como você [Mentira]. Mas você não deu [Verdade].

Fodase [Mentira] [Verdade].

As coisas seguiram. E eu segui […]. Eu aceitei, porque minha liberdade acaba sempre na vontade do outro, da outra, dos outros, desse mundo rubro. Meu mundo termina na sua coragem. E minha coragem termina na decisão do mundo. 

Hoje não há mais motivo para seguir; mas ainda assim eu sigo [Mentira-verdade]. Porque aquela busca repetitiva virou cotidiano. Não dá pra brincar de existencialista no verão [Verdade-mentira]. O país é quente, acabou a mordomia, acabou a ilusão. O termômetro da central do Brasil marcou 42 graus. É meio dia e eu tô fudido aqui, pensando na fiha da puta da vida. É impossível fingir no calor. Não dá pra pensar nos amores, nas decepções, e nem no cotidiano [Mentira-Mentira]. Somos raios solares e raios solares não vivem como animais.

Vamos aos medianos. Remédios de medianos: boates, universidades, expectativas, prozak. Ao gosto do freguês. Eram os falsos contrastes. Falsos contrastes segundo Ana Cristina, são pessoaszinhas, pequenininhas, que costumam se agigantar dentro do seu mundinho construído nas sextas-feiras. E se agigantam mais, quando há referências implícitas e explícitas ao seu mundo pequeno; seja num cartão postal de um filme estrangeiro, numa musiquinha francesa completamente desconhecida (pelos próprios franceses) ou num descanso de copo preso estrategicamente num bar de domingo, à 20 reais o bilhete de entrada para a inteligentsia. [Tudo mentira, acredite]

Mas há  um fundo do poço mais honesto; com gente  honesta que o frequentam. E quando isto acontece, a gente grita: é hora de ser feliz ou fazer o que a literatura e o vício pedem porra!: vamos tirar aquele abismo cinza para fora para brincar, o monstro está faminto. Vamos engolir o calor. Vamos esquecer a vidinha. Vamos superar essa merda toda. Esquecer os 42 graus. Vamos ser o que nascemos pra ser.

[Da memória da supernova] {tudo verdade daqui pra frente}

Quando eu entrei no bar, aquela portinhola parecia sufocante, mas logo a uma escadaria subiu ampla ao segundo andar, o único andar justo, que apesar das paredes curtas, transparecia um mundo de contrastes verdadeiros. Os banquinhos, o balcão, o freezer e a cerveja eram um simulacro.  Um lugar mal feito para gente mediana. Mesas de madeira, chão de ardósia. Era a mesma coisa.

Eu acabei ali. Num momento, aquele momento que o abismo cinza come contrastes, eu pensei: vamos engolir o calor. Vamos esquecer os contrastes. Vamos ser o que nascemos para ser. […]

Eu não sei mais, eu só lembrei do saxofone e de que queria acordar logo. Eu queria esquecer minha vidinha.

Vamos superar essa merda toda.

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Minha última sexta-feira no Catete

Rafael Vendetta

Acordei e fiz o que sempre fazia, lavar o rosto, escovar os dentes e depois colocar a água do café. Dormi mal, mas acordei bem. Porque o contrário sempre acontecia e eu estava feliz de ver algo mudando. A água do prédio tinha acabado e na noite anterior eu tinha jurado que ia sair de casa pelo menos uma vez, mas ia sair sem compromisso.

Depois de muitas semanas alguma coisa me aconteceu. Eu conseguia acordar e consegui dormir quatro horas. Na semana passada eu não acordei. Então fui até o Catete, aleatoriamente.

No caminho uma mulher entrou no ônibus (atrasado) e sentou do meu lado. Reclamou do atraso do ônibus. Eu não respondi, mas concordei com o olhar. Aí ela me perguntou se teve algum acidente. Eu disse que não, Ela respondeu que isso era um absurdo e que ela ia chegar na hora do almoço. Eu entendi, mas não disse nada, só apertei os lábios, fingindo empatia, levantei uns 10 minutos depois e desci.

Não sei porque, mas achei que o fato de estar de bermuda foi o que influenciou algumas pessoas a olharem pra mim. Isso aconteceu metade pela minha paranóia, metade porque o ônibus parou no semáforo e eu atravessei.

Quando eu cheguei no palácio do catete eu atravessei a rua e vi um cara tocando flauta. Achei uma merda, mas pensei que fazia parte do meu dia e também dos clichês.

Entrei na feira do livro, Fui sistematizando os estandes. Fui e voltei. Fui e voltei. Aí comprei o que queria. Em alguns estandes as pessoas não botavam fé em mim então eu desistia. Num outro estande o vendedor foi muito atencioso, então fui embora. Quando enchi o saco resolvi passear pelo parque. Passei rápido. Grávidas e um velho reclamando que entrou no banco e o segurança pediu pra ele levantar a camisa. Concordei mentalmente que aquilo devia ser desagradável. Pensei se eu ficaria assim como ele, reclamando do mundo com 70 anos de idade.

Dois universitários entregavam flores de papel pra todo mundo, mas não entregaram pra mim. Achei que era metade machismo deles, metade machismo meu.

Aí fui embora e entrei numa aporia filosófica. Comer no Catete era caro demais. Subi numa escada e  num prédio errado e reclamei sozinho da placa em frente a um boteco muito sujo. Acabei no Largo do Machado comendo uma esfiha e um kibe no Árabe. No caminho encontrei uma velha com uma bola azul na cabeça, no meio da praça. Na volta vi um cara com um terno preto, com um dread grande e meio embolado segurando uma guitarra. Não tinha ninguém escutando. Umas madames comprando cânfora e o cara esperava pra subir no palco improvisado.

Quando eu passei pelo palco vi uma barraca da Assembléia de Deus e uma galera com um sorriso na cara. Passei direto e confesso que fiquei com raiva. Mas lembrei do cara do dread e alguém passou por mim dizendo alguma coisa que eu não consigo lembrar.

Voltei pelo outro lado da rua. Voltei e comprei uns dois livros. Numa barraca a vendedora me perguntou se eu era professor. Eu respondi que sim, mas não sabia se ela ia exigir algum documento, mas já tinha decidido mentir. Quando eu voltei pro parque  do Palácio do Catete cheguei perto de uma fonte e um café que tinha sido reformado. Lembrei de uma conversa sobre a França e Paris e como aquilo tudo não me pertencia. Lembrei de ter ficado sentado no banco de madeira verde e lembrei de quando eu acreditei e joguei fichas e moedas nas fontes e na esperança vermelha, com as grávidas e as crianças passando.

Peguei o metrô e entrei na galeria mais próxima. Sentei e fiquei lendo – mentira – acabei sozinho, olhando pra quem passava e o que acontecia. A hora não chegava e eu resolvi comprar café. Na volta um sujeito que tinha uns 40 anos pediu café pra mim, pois não tinha almoçado e provavelmente nem vendido bala nenhuma. Eu dei metade do café pro cara e andei  me sentindo o pequeno-burguês mas burguês da tijuca, indo falar que tinha problemas que existiam mas não existiam. Me senti mais merda, quando lembrei que não almocei porque não quis pagar cinco reais a mais, enquanto o tio das balas não almoçou porque não tinha cinco reais.

Fiquei na galeria observando o mundo, mas quase não passou ninguém. Chegou um cara de jaleco branco e eu julguei que ele era médico. Depois veio um cara de blaser e roupa de médico e eu julguei que ele era médico. A galeria tava vazia e eu julguei que era a tal galeria fantasma que todo mundo da Tijuca comentava. O cemitério das lojas.

Aí vi que só frequentavam a galeria gente que tava doente. O único restaurante tava falido e fechado. Só me restou falar muito e ir embora. Fui andando pra casa (economizei uma passagem). E não, nem a terapia, nem o Catete, nem os livros, nem ficar sem almoçar adiantou muito. Eu eu só me lembrava da bola azul na cabeça daquela mulher e acho que foi isso que fez eu ter pensado sobre a loucura que é tentar ser você mesmo pelo menos uma sexta-feira da vida. E acho que foi, exatamente isso, que me fez brigar com o mundo todo naquele dia e ser mais eu de vez em quando, mesmo assim, desmembrado e fragmentado pelas ruas sujas e pequeno-burguesas das minhas artérias e do Catete.

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A Pedra e a Carne – O primeiro dia

Rafael Vendetta

Não tinha ninguém.

Quando eu me sentia frágil, um ninguém, a fragilidade me esmagava como pedra moída na carne, e a fragilidade explodia, ou ia para uma caneca vermelha como se ela fosse dar respostas. Mas naqueles momentos sórdidos a vontade era apenas café. Não era nada demais. Eu protestava a toa.

Aquele tijolo pintado de argamassa, aquela tinta branca (fascista), aquele quarto e situação de merda e era hora de aproximar a fronte do mundo e dizer que eu ia moer o mundo pela manhã, mas era mentira, eu só ia dormir e me afastar, afastar e isto funcionaria nos primeiros segundos. Mas depois era o vazio. Depois nada mudava. Era o motim, a mentira nos jornais, o calor de 37 com sombra, a poesia, não, porra, não tinha nenhuma poesia e o silêncio. Em 1999 eu tinha tudo mas desperdicei minha chance. Eu tinha uma camisa listrada, um tênis velho. Eu tinha amigos, dor no fígado e nenhum piano nas costas. Eu podia ter feito alguma coisa, mas meus amigos só podiam sobreviver e eu segui o que tinha de seguir, e sinto-me honesto, por ter decidido não avançar.

O telefone (hoje) tocou e alguém gritou meu nome. Depois foi só tempo perdido. Palavras de tempo perdido. Menos tempo agora para mais tempo adiante. Tarefas. Era tempo perdido. Um murmurinho de fazer coisas mais pra frente e depois ganhar alguma coisa com essas coisas. Eu não entendia bem. Mas a lógica era perder tempo, para no futuro ter mais tempo e seguir com honestidade, dinheiro ou orgulho nas mãos. Eu não entendia muito, mas isso se aplicava a tudo, ao trabalho, a mudar o mundo, a sair e beber. Ninguém ligava para falar que podíamos sair sem compromisso pelo mundo, sem nos preocupar com o tempo adiante. Ninguém dizia, vamos moer a carne em algum lugar escondido do mundo. Um lugar sujo e feio, mas onde ninguém perde tempo para ganhar mais tempo adiante.

No fundo da cozinha alguém gritou. Eu ouvi pratos e copos quebrando. Mas não era nada. Eu custava acreditar, mas isso sempre acontecia. Era o gato que não existiu, a borboleta que voava, a campainha que não tocou e alguém me chamou, mas eu abri a porta e não tinha ninguém.

Um sofá

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Quando a Ruiva chegou e foi embora

Ah Ruiva, que belo jantar tivemos. Lembro-me que foi um dia especial. Era meu aniversário, mas ninguém ligou ou comentara.

Eu fingia não me importar, mas era mentira, pois todo mundo se importa com alguma coisa. Todo mundo se importa em ser esquecido. Mesmo os que dizem não se importar.

E foi aí Ruiva, que eu percebi que você era realmente a ruiva, quando você, que fingiu não lembrar, nem comentar, nem ligar, mas me encontrou assim no final da tarde, dentro da livraria que eu imaginei estar no aniversário e você também… Você entrou naquele momento mágico, onde a esperança já tinha se transformado em café. Como eu sonhei com algo assim Ruiva… como… e várias, várias, várias vezes…

Sonhei com alguém que faria algo assim sem avisar, sem prometer, sem trocar por algum favor futuro ruiva…

E eu que tinha dormido solitariamente na noite anterior, pensava se merecia mesmo dormir com você de um dia para outro, de um aniversário para outro, de uma semana para outra; mas eu não sabia, e tinha medo da sua opinião, que era livre como você, livre  como o vento.

E eu fechava meus punhos. E tinha vontade de falar, mas não falava. De gritar, de chorar na frente deles. Mas só conseguia te acompanhar, tomar café, comentar aquele livro, perceber alguém na rua. Eu poderia falar que amaria metade daquela mesa de bar, o que era irônico, pois eu apenas amei você Ruiva, apenas você.

E eu guardava tudo aqui quietinho. Numa caixinha que chamaram coração, mas eu sabia que tinham dado o nome errado para a coisa certa. E o dia ia terminando. A luz se apagando, e eu sabia que não ia te ver mais. Talvez na semana que vem, talvez no ano que vem, talvez nunca mais.

Eu bebia e morria. Eu andava e fumava. Eu pensava que podia sobreviver a mim mesmo, mas era impossível. Eu encontrava você na rua, mas não era você.

Eram imagens flutuantes.

Os passarinhos cantavam de manhã, não respeitavam o horário de verão.

Tente fazer um pássaro parar de cantar. É impossível.

E eu ia morrendo, com você no peito.

Você foi embora. E eu teria de te esperar mais uma vez.

Origami Emocional

Vou lhe mostrar como fazer um origami emocional meu amor.

Você acha que a questão é simples querida?

Acha que é só você pegar aquele pedaço de gente e amassar? Não meu amor! Não é só amassar!  Amassar por amassar é coisa de gente amadora, garota! Você deve dobrar. Deve dobrar pouquinho por pouquinho, pedacinho por pedacinho.

Ninguém desconfia de alguém que dobra né? A gente desconfia de gente que amassa. Gente que amassa conta de luz; gente que amassa guardanapo e joga no chão, gente que amassa aquele dinheiro de raiva! Dessa gente a gente desconfia, não meu amor? Pessoas mal educadas amassam as coisas todos os dias! Até carta de amor!

Nós não querida. Gente da nossa estirpe não amassa… A gente dobra! Vai dobrando pedacinho por pedacinho; filminho, teatrinho, sushizinho, piadinha-internazinha-grupinho-bacaninha; vai dobrando.

Mas não é dobrar por dobrar não gatona. Não vale dobrar sem objetivo. Toda dobra é calculada. Dois anos? Dois meses? Dois dias? Você escolhe. Polissemia, poligamia, polifagia… É tudo no plural!

Primeiro você faz um sapinho bonitinho. Quando acabar, que tal uma raposa? Se pode ser o leãozinho, o pavão e o urinol do Duschamps? Se vale? Claro po-de-ro-sa! Va-le tu-do! Leva ele na exposição dos medíocres. Convence que o instante é que é o eterno amor, e que o eterno, o eterno não existe, passou, passou como um instante.

Liberdade é ser como você querida, ter um belo e rosado coração de papel! De papel! Mas vale cartolina e até aquela coisa, como chamam? Papel-crepom!

Você tem estilo!

Pode desdobrar tudo quando terminar! Desdobra tudo, coloca a entranha dele pra fora. Embrulha ele com celofone!

Depois dobra  de novo. Dobra de novo.

E não esquece que o papel rasga, papel rasga mesmo meu amor. Pode ser na boate, na fila do caixa ou até com a mãe dele presente, papel RAS-GA. E nessa hora a gente tem de se prevenir!

E quando rasgar, você pega outro papel, pega outro papel e vai dobrando, vai dobrando minha filha; cuidado para não se dobrar junto com o origami.

Cuidado, por que aí filhinha, aí eu vou ser obrigada a dizer que você se meteu numa caretice daquelas meu amor e o édipo pode vir junto.

Esqueceu como é que dobra? Nossa meu amor! Nossa!

Tenho que te dizer; vai, é só uma desconfiança boba…

Mas eu que acho que te dobraram! E tem gente que dobra e engole!

Voando

Já tenho sua música e sua magia.

Não preciso mais de você.

O final de ano é apenas o começo

Quando os fogos se anunciaram, eu apenas fumei cigarro e dormi.

À neurose do consumo das ruas eu respondia com leves caminhadas e nos intervalos fazia haikai’s.

Eu precisava de lâmpadas e papel-cartão, mas alguém falava em paz, sonhos, realizações, e uma coisa engraçada chamada futuro.

Na festa de final de ano ninguém entendeu, mas eu, eu pedi café.

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