Arquivo da categoria: insônia

1074 amigos na internet

Rafael Vendetta

Roberto tem 1074 amigos virtuais nas redes sociais. Que mentira. Roberto não tem ninguém. Quanta pessoas dessas visitaram Roberto em sua casa? Com quantos Roberto trocou mais palavras que mensagens no celular? Quem foi visitar Roberto? Quem o olhou nos olhos com o feed desligado? Qual deles comeu, cozinhou e conversou com Roberto sob a luz do luar? Quem ouviu suas súplicas pessoalmente e com o computador em mudo? Quem o ajudou a superar o insuperável e tardio espírito da noite e da insônia?

Quantos dos amigos virtuais visitaram Roberto quando ele adoeceu? Quantos levaram remédios? Quantos visitaram-no por amá-lo, não por obrigação? Quem ajudou Roberto quando ele cortou os pulsos (e ninguém comentou)?

Quem lamentou sem postar seu lamento como um troféu, uma placa para si próprio? Quem fez propaganda no testamento de Roberto? Quem disputou likes, quando transferiram #roberto para o instagram do hospital?

Quantos postaram selfies na UTI com Roberto? Quantos marcaram sua localização no velório de Roberto? Quantos carregaram seus celulares no caixão e mantiveram seus egos desligados?

Quantos desgraçados, por fim, perceberam que Roberto morreu por um post no face-truque.

Quantas pessoas virtuais excluíram Roberto do nosso mundo?

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Quem o olhou nos olhos com o feed desligado?

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Como fazer um café com o pó do absurdo

 Rafael Vendetta

Acorde. Lembre dos seus sonhos. Lave o rosto. Pense em anotar seus sonhos.

Esqueça seus sonhos.

Pegue o pó do café. Misture com o que restou de si mesmo. Esquente a água. Pode sentar. Pode andar pela casa. Pode fingir que está fazendo algo para si próprio ou pra casa. Pode até varrer a casa. Pode pensar no dia anterior.

Faça o que fizer, o tempo é curto e se mede sempre pela água. Pode sentar, acender um cigarro, olhar para o sol nascendo. Ele nasce laranja porque tem sujeira no ar. Se ele nascer amarelo é porque o dia vai ser quente. Se ele nascer cinza, o café vai ter um gosto muito bom. Espera a água esquentar. Se a água esquentar e você esquecer é porque alguma coisa aconteceu. Foi o sonho, foi o dia anterior, foi a carta que ela não enviou, foi o esquecimento, foi a falta de sentido. Alguma coisa sempre ocorre quando se esquece a água do café e ela seca sozinha (como você). Se isso acontecer deve-se adotar atitudes emergenciais: deixar o café para o próximo dia ou esquentar a água e o sentido de novo.

Com o café pronto, você enche a caneca da vida e pensa na semana, nos meses, nos anos. Você bebe. Você finge que há um plano para o dia (não há nenhum). Quando estiver quente você bebe. Bebe e esvazia o sentido. Canta aquela música. Olha no espelho. Amarra o cabelo. Se tiver um gato, fale com o gato. Se tiver uma planta, molhe a planta (de água, não de café). Pegue um copo. Esvazie o cinzeiro da noite anterior. Pode esticar as pernas com a camisa de flanela cobrindo o erro da noite anterior. Coloque as meias.

Você pode sair. Você pode voltar (talvez não possa). Inspire. Expire. 

Quando parar de pensar, o que sobrar é você, segurando uma caneca e bebendo café.

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Um Sonho Terrível

Rafael Vendetta

Que sonho terrível.

Eu andava por uma estrada cinza. Era outono. As folhas caíam. Folhas de várias cores, mas a cor que evidenciava meu coração era o amarelo. Eu andava pela estrada. A estrada estava vazia. Nenhum carro. Aquele asfalto negro, úmido e um vento frio (não tanto). Nada. O som: apenas dos pássaros, ao fundo, nada que me tirasse a concentração de andar.

Cheguei a ver um ou dois roedores. Lagartas, pedras com limo e um pardal, comendo alguma coisa, antes de perceber que eu estava ali, e então desapareceu. Foi então que eu percebi quanta energia eu apostei naquilo tudo. Em você ruiva, antes de você sumir. E mesmo assim, eu estava ali, querendo tomar café e sentar numa mesa de madeira confortável, esperando você entrar de repente naquele restaurante agradável de beira de estrada. Mas não.

Mentira. Alucinações e imaginação sempre acompanham a caminhada. Não era nada. Aquilo era só um desejo que virou pintura, que virou a descrição do que eu queria fazer, não do que era. Isso é uma tendência. O pardal só estava lá para comer e voar. 

Mas eu, eu, cheio de débitos com o futuro, já imaginava que o pássaro me mandou um recado. É assim ruiva. É assim que funciona. A gente quer encontrar sinais onde só há vida. E a vida é uma mó, é um moinho que esmaga o que passar adiante. A vida não manda recados. A vida é natureza. E a natureza não brinca de oráculo. Ela só se move, como um granito. Como eu, caminhando ali, naquela estrada, sem cigarros. 

Sentei pra descansar num banco de madeira velho, com algum mofo branco em um dos pés. Era um banco sem sentido, cheio de folhas mortas ao seu redor e que ficava perto de uma ponte. Quem iria querer sentar perto de uma ponte? Quem foi que construiu aquilo ruiva?

Eu sentei ali, estava úmido e eu não me importei. A mochila pesava, mas não tanto como você. Você pesava mais. Suas viagens, seus sorrisos, seu sumiço. Sim, isso pesava muito mais. Teu desprezo pesava mais do que a minha mochila e acredite, acredite, minha mochila pesa bastante. Foi nesse momento, de abrir e fechar a mochila, como se dali, fosse sair algo que me dissesse: “continue, acredite, você vai chegar lá”, que eu reivindiquei a minha dor do mundo. Eu reivindiquei toda dor e não adiantou muita coisa, para ninguém, pois não tinha ninguém ali. E só eu sei, só eu, ruiva, que aquilo fez todo sentido e eu tive de sentar e olhar para o céu. Eu larguei a mochila, catei uns pedaços de madeira (velhos), me agachei e não sei por que diabos, voltei, fechei a mochila e continuei a andar. No banco haviam nomes. Corações. Iniciais. Riscadas a canivete.

Que violência.

Eu me pus a andar. Segui, atravessei a ponte, como um granito. E andei, andei, andei. Andei demais, sem saber onde começava o ponto final. E no meio do caminho eu tropecei e caí. Foi uma queda feia. Eu ralei as mãos, os cotovelos e bati o joelho com força. Isso tudo por que tentei descer e encher meu cantil numa fonte. Fui pelo lugar errado.

Não tinha mais forças. Parei e desisti. Pensei em morrer ali, esquecido. Mas meu ferimento não era tão grave. 

Eu queria ficar ali. E os pássaros gritavam com mais força, mas pássaros não gritam. Eu estava deitado. Depois de uns 20 minutos (talvez mais, eu não sei bem), um som na estada. Era um carro. Eu escutei algo parar. Escutei som das portas. E eu lá, deitado, olhando para o céu. Que lindo céu. Escutei e levantei. Meus joelhos doíam. Escutei o carro acelerar novamente. Eu corri, mas não vi nada.

Continuei a seguir pela estrada. Foi ali que comecei a chorar. Amarrei meus cadarços. Peguei um pedaço de madeira e me apoiei. Os joelhos doíam. Eu segui. Caminhei sem olhar para cima.

Um carro deu ré. Eu parei. Era um carro azul, velho, mas inteiro. O carro atravessou a pista de ré. A porta do carona se abriu. Era você. Você disse: entra aqui. vem logo.

Palavras carinhosas. Era você. Eu te achava linda, mas ali só tive tempo para sentir dor no joelho e te achar pálida. Teu cabelo estava mais liso e foi assim, que eu caminhei até ti.

Você falou mais alguma coisa. Disse que eu teria de seguir. Disse que eu teria de seguir sozinho. Eu disse que entendi, mas era mentira. Eu dizia aquilo, pois não queria que você perdesse tempo comigo.

Nos despedimos e eu continuei a andar. E achei que ia chorar.

Mas meus joelhos não doíam mais. Eu segui, como a natureza, como um granito, um mó, rumo ao destino. Eu me pus a andar.

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naohaestrada

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Teu jeito de lidar com o mundo

Rafael Vendetta

Você foi uma idiota, eu fui um idiota. Mas somos idiotas diferentes e com motivos distintos. Eu devia ter te falado que te amava, mas nunca disse. Sempre insinuei é verdade. Traduzi meu amor com meu corpo, minhas cartas (sim eu ainda enviava cartas), meus beijos e minha ilusão. Achei que você se comunicava da mesma forma que eu, mas eu estava errado.

Você tinha seu jeito próprio de lidar com a coisa. Eu me movia e pensei em comprar os livros do Neruda. Eu te dei os livros do Neruda. Confesso que não soou espontâneo, mas eu nunca fui tão espontâneo. Na hora me pareceu a melhor coisa a fazer . Achei bonitinho (e o fiz de novo, em menor grau, achando que funcionaria). Eu sempre reagia assim, falando o pouco, o necessário. Nunca fui tão longe. Mas minha ansiedade te amava. Você não percebeu? Eu te liguei tantas vezes. Eram tantos emails. Quando você ia tomar café longe de mim, eu me controlava e fingia-me liberto, mas eu estava lá, esperando você chegar. Dê-me um desconto. Eu não te vi mais. E na época nem falei tanto assim. Não sou do time dos obsessivos, pois você transpirava a tranquilidade dos amores justos.

Pense bem. Eu precisava fazer daquele jeito. Você não me viu mais. Não me ligou. Não me explicou. Não mandou nenhuma carta. Você também não tentou, diga a verdade.

E no meio de tudo, alguém passou de bicicleta, uma bicicleta cinza; eu não tinha cigarros no bolso, mas pensei em fumar. O café estava frio e eu segui, segui com os paralelepípedos emoldurando os corações inscritos no granito. Mas eu só tinha areia nas mãos e uma tarefa imprescindível a cumprir: mudar o mundo.

Então, o que eu tinha, o que eu tive? Eu tive um ou dois momentos de amar e eu joguei as fichas lá (não me julgue). Você tinha a certeza de si mesma. Tuas dúvidas não eram como as minhas. Minhas dúvidas eram profundas; eu tinha uma raiz que ligava meu coração com o compasso da vida.

E depois? O que aconteceu? Eu não sabia o que fazer com o que sobrou. Nunca fui bom em lidar com cacos. Meu problema é com o que sobrou. Não sei fazer mosaicos. Sei que não dá mais para existir ou voltar com a mandala, os livros do Neruda, com aquele encontro casual na fila do jantar. Sei que tudo passou e desmoronou. Desmoronou a ponto de sim, e aí tenho certeza, de que mesmo dando certo, algo terrível aconteceria (mentira, podíamos ter tentado, de verdade). Você se enjoaria. Talvez eu (duvido). Um de nós ia desistir (ia ser você, como sempre). Alguém ia viajar (ia ser você). Alguém ia falar que não daria certo pelo telefone ou pessoalmente (foi você). E no final você encontraria alguém, alguém para lhe suprir e eu viraria memória. Uma justa memória. Bonitinha e na embalagem mas inútil. Não serviria mais. Não serve mais. Mas foi bom para ti. Estou aí, nesse pedaço de mundo. Mesmo sem querer.

E como eu faria?

Eu buscaria outra coisa, mas não, eu só tive uma oportunidade. Desperdicei, desperdiçamos.

Eu fui um idiota. Não tentei tanto, mas esse era o meu jeito. Se eu tentasse demais ia dizer aos quatro ventos que tudo terminou por conta da minha insistência. Como eu não tentei, digo agora, que poderia ter tentado mais. É um paradoxo. No fundo, acho que tudo deu errado, pois era você, era você que tinha de decidir. E você, no momento decisivo fraquejou. Você tinha seu jeito de lidar com o mundo.

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Quando foi que você enxergou o cinza?

Rafael Vendetta

Vou te dizer como estou agora (interprete isso como uma mensagem). Vou te dizer como estou. Depois de algum tempo, andando de tênis, mochila e coragem vou te dizer. Depois de muito tempo eu resolvi viajar e voar. Eu voei por aí. E vou te dizer como foi.

Eu matei um pedaço de mim meu amor. Vou dizer como foi. Eu matei um pedaço meu e você estava lá. Foi com bisturi. Você não é culpada, ninguém é. Pois todas as cores tem cheiro de cinza. E você não estava lá quando isso aconteceu. Não tinha ninguém. Eu era o único.

Eu comecei a enxergar cinza e você só deu o último golpe. Que culpa você tinha? Você só completou. Você só fez o que todos esperavam. Ninguém imaginaria que eu, não sobreviveria ao cinza.

Mas eu sobrevivi.

Eu estou aqui. Eu pulei na água. Mas a água tem cor de afogamento. Eu estou aqui meu amor. E ninguém notou.

É hora  de viver e seguir; como você, que viajou e voou… Você me encontrou no último golpe. E só sei dizer que as letras me salvaram. Eu só queria dizer que você foi importante e ainda é.

Não sinto mais sua presença, eu sinto apenas, sua falta. Eu andei de mais. Vou te dizer como foi: foi assim. Foi assim, quando todos esperavam, que eu comecei a enxergar cinza. Foi quando eu imaginei que não sobreviveria ao cinza. Foi quanto eu te beijei. Porra. Todo  o resto é interpretação.

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tequeroperto

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Revide

Rafael Vendetta

A capacidade de não se importar. Aprendi cedo. Sim, eu não me importo com você. Você e suas opiniões venenosas. Você e sua brincadeira de bar homofóbica que me comeu metade do fígado e no fim das contas, resolvi chorar, mas você não viu. Você era um racista de merda, mas nem sabia.

Eu não ligo mais pra você; aquele seu passado sujo. Quando você, ria de mim, entrando na sala de aula assustado. Lembra? Eu carregava uma pasta feia, preta, e entrava – como você mesmo dizia – assustado, olhando todo mundo antes de sentar. Eu era uma aberração pra vocês. Eu não tinha o que vocês tinham. Eu não tinha glamour e a luta de classes era o tênis que a gente usava ou não usava. Eu me assustava porque você, vocês, vocês sua turminha de gente bem sucedida e feliz, que hoje declama aos filhos “paz para a classe média de quatro anos de idade” e caga aos sobrinhos, a importância de fazer o bem, fazia o que sempre fez: me fudia. Eu aprendi a ser fudido desde cedo. E sei que muita gente também aprendeu com a gargalhada estridente vindo de lá, do fundo da sala.

Agora olhe pra mim, sim olhe pra mim. Eu estou aqui fora fudendo gente como você. Eu aprendi com a vida. E sei que você tem medo de gente como eu, gente que não tem nada a perder, e vez ou outra, aparece na TV com a raiva nos dentes, com a ferrugem na vida, enquanto você diz: “que gente maluca, mãe, eles são terroristas, vândalos!!”

Mas pense bem. Foi você que me criou. Baderneiro, filho da puta, sim, aparentemente sou eu. Eu não sei, mas na minha vida atual, uma vidinha pequena, como o respeito que vocês tinham por mim, eu não fiz questão de ganhar nenhum troféu. Eu apenas cultivei a resiliência. Eu treinei pra sobreviver. E eu sobrevivi a vocês e sei fazer isso bem, muy bien.

E eu fiz isso, na sexta, na sétima, na oitava série, e depois mais um ou dois anos, até eu me cansar de vocês (depois descobri que vocês eram tigres de papel).

Eu te aviso parceiro. Eu sou mais difícil de matar que na oitava série, porque eu resolvi  sobreviver a tudo o que vocês me fizeram. Eu só cheguei até aqui, porque você souberam me pisar. Eu não sabia o que era capitalismo. Eu só conhecia vocês. Vocês davam as regras. Era assim que funcionava. Não havia capitalismo, havia vocês, pisando em tudo o que não gostavam. Esmagando as flores. E vocês não tinham poder mas mandavam naquela porra.

E hoje eu estou aqui. Sendo sombra e espelho.

E vocês fizeram tudo direitinho, direitinha. Vocês fizeram tudo bem, bem até demais. Com tatuagem e tudo, vocês aprenderam bem a agir como um moinho, que estalava tudo quando o sol nascia e se partia. Um pedaço de merda, um pedaço de merda no mundo, no meu mundo e seguiam, seguiam, seguiam até não poder mais, até me fuder. Podem rezar à vontade. Mas se um dia alguém chegar na cerquinha branca e no jardim com orquídeas, lembra de mim. Lembra bem. Lembra bem, quem foi que me fudeu. Porque tem gente como você(s), trabalhando a ritmo industrial.  Quando tiverem medo de que algo de mudou. E que as escolas não serão mais masmorras, lembrem-se de mim: eu trabalhei pra isso. Eu mereço parte do prêmio.

Enquanto isso eu estou nas ruas. E saiba parceiro. Eu não dou mais a outra face a tapa. Mas fique tranquilo, vou acertar o rosto do sistema, vocês sempre foram as franjas. Mas agora, agora meu amigo, é a hora do revide.

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Sobre Abismos e coragem

Rafael Vendetta

Não consigo escrever nada mais. Parece que morri literariamente com meu cotidiano chato. Comprar pão, pegar ônibus, fazer a prova, dar aula sobre o imperialismo na Albânia. A vida anda, mas anda lentamente. Por isso escolhi sondar abismos. Vou largar tudo pra analisar abismos: é minha nova profissão. Sond[e]ar abismos.

Eu era bom com as letras. Ela não. Ela fazia bem com as imagens. Eu não.

Eu era meio cego com o mundo ao meu redor.  Eu não sabia bem como lidar com a vida. Eu era um merda [mentira-verdade-mentira-verdade].

A gente bebia. Juntos. Ela gostava de viajar. Eu gostava, mas não podia, pois meus pés fincavam raízes no chão, no chão. Era isso; basicamente. Eu era corajoso. Corajoso [Mentira] e pobre [Verdade]. Eu era um covarde [Verdade].

[Plano 2]

Você não percebeu. Se tivesse percebido, teria pulado do abismo. Eu me vou. Sempre, fui, como um trem, sempre fui [Mentira]. Eu nunca fugi no meio do caminho [Verdade]. Nunca. Eu sempre olhei para a lua e segui [Mentira]. Segui reto. Poderia ter ido, bastava um sinal [Verdade]. Mas não. Você não fez nada [Verdade]. Eu preciso de um sinal [Verdade]. Preciso. Como você [Mentira]. Mas você não deu [Verdade].

Fodase [Mentira] [Verdade].

As coisas seguiram. E eu segui […]. Eu aceitei, porque minha liberdade acaba sempre na vontade do outro, da outra, dos outros, desse mundo rubro. Meu mundo termina na sua coragem. E minha coragem termina na decisão do mundo. 

Hoje não há mais motivo para seguir; mas ainda assim eu sigo [Mentira-verdade]. Porque aquela busca repetitiva virou cotidiano. Não dá pra brincar de existencialista no verão [Verdade-mentira]. O país é quente, acabou a mordomia, acabou a ilusão. O termômetro da central do Brasil marcou 42 graus. É meio dia e eu tô fudido aqui, pensando na fiha da puta da vida. É impossível fingir no calor. Não dá pra pensar nos amores, nas decepções, e nem no cotidiano [Mentira-Mentira]. Somos raios solares e raios solares não vivem como animais.

Vamos aos medianos. Remédios de medianos: boates, universidades, expectativas, prozak. Ao gosto do freguês. Eram os falsos contrastes. Falsos contrastes segundo Ana Cristina, são pessoaszinhas, pequenininhas, que costumam se agigantar dentro do seu mundinho construído nas sextas-feiras. E se agigantam mais, quando há referências implícitas e explícitas ao seu mundo pequeno; seja num cartão postal de um filme estrangeiro, numa musiquinha francesa completamente desconhecida (pelos próprios franceses) ou num descanso de copo preso estrategicamente num bar de domingo, à 20 reais o bilhete de entrada para a inteligentsia. [Tudo mentira, acredite]

Mas há  um fundo do poço mais honesto; com gente  honesta que o frequentam. E quando isto acontece, a gente grita: é hora de ser feliz ou fazer o que a literatura e o vício pedem porra!: vamos tirar aquele abismo cinza para fora para brincar, o monstro está faminto. Vamos engolir o calor. Vamos esquecer a vidinha. Vamos superar essa merda toda. Esquecer os 42 graus. Vamos ser o que nascemos pra ser.

[Da memória da supernova] {tudo verdade daqui pra frente}

Quando eu entrei no bar, aquela portinhola parecia sufocante, mas logo a uma escadaria subiu ampla ao segundo andar, o único andar justo, que apesar das paredes curtas, transparecia um mundo de contrastes verdadeiros. Os banquinhos, o balcão, o freezer e a cerveja eram um simulacro.  Um lugar mal feito para gente mediana. Mesas de madeira, chão de ardósia. Era a mesma coisa.

Eu acabei ali. Num momento, aquele momento que o abismo cinza come contrastes, eu pensei: vamos engolir o calor. Vamos esquecer os contrastes. Vamos ser o que nascemos para ser. […]

Eu não sei mais, eu só lembrei do saxofone e de que queria acordar logo. Eu queria esquecer minha vidinha.

Vamos superar essa merda toda.

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Minha última sexta-feira no Catete

Rafael Vendetta

Acordei e fiz o que sempre fazia, lavar o rosto, escovar os dentes e depois colocar a água do café. Dormi mal, mas acordei bem. Porque o contrário sempre acontecia e eu estava feliz de ver algo mudando. A água do prédio tinha acabado e na noite anterior eu tinha jurado que ia sair de casa pelo menos uma vez, mas ia sair sem compromisso.

Depois de muitas semanas alguma coisa me aconteceu. Eu conseguia acordar e consegui dormir quatro horas. Na semana passada eu não acordei. Então fui até o Catete, aleatoriamente.

No caminho uma mulher entrou no ônibus (atrasado) e sentou do meu lado. Reclamou do atraso do ônibus. Eu não respondi, mas concordei com o olhar. Aí ela me perguntou se teve algum acidente. Eu disse que não, Ela respondeu que isso era um absurdo e que ela ia chegar na hora do almoço. Eu entendi, mas não disse nada, só apertei os lábios, fingindo empatia, levantei uns 10 minutos depois e desci.

Não sei porque, mas achei que o fato de estar de bermuda foi o que influenciou algumas pessoas a olharem pra mim. Isso aconteceu metade pela minha paranóia, metade porque o ônibus parou no semáforo e eu atravessei.

Quando eu cheguei no palácio do catete eu atravessei a rua e vi um cara tocando flauta. Achei uma merda, mas pensei que fazia parte do meu dia e também dos clichês.

Entrei na feira do livro, Fui sistematizando os estandes. Fui e voltei. Fui e voltei. Aí comprei o que queria. Em alguns estandes as pessoas não botavam fé em mim então eu desistia. Num outro estande o vendedor foi muito atencioso, então fui embora. Quando enchi o saco resolvi passear pelo parque. Passei rápido. Grávidas e um velho reclamando que entrou no banco e o segurança pediu pra ele levantar a camisa. Concordei mentalmente que aquilo devia ser desagradável. Pensei se eu ficaria assim como ele, reclamando do mundo com 70 anos de idade.

Dois universitários entregavam flores de papel pra todo mundo, mas não entregaram pra mim. Achei que era metade machismo deles, metade machismo meu.

Aí fui embora e entrei numa aporia filosófica. Comer no Catete era caro demais. Subi numa escada e  num prédio errado e reclamei sozinho da placa em frente a um boteco muito sujo. Acabei no Largo do Machado comendo uma esfiha e um kibe no Árabe. No caminho encontrei uma velha com uma bola azul na cabeça, no meio da praça. Na volta vi um cara com um terno preto, com um dread grande e meio embolado segurando uma guitarra. Não tinha ninguém escutando. Umas madames comprando cânfora e o cara esperava pra subir no palco improvisado.

Quando eu passei pelo palco vi uma barraca da Assembléia de Deus e uma galera com um sorriso na cara. Passei direto e confesso que fiquei com raiva. Mas lembrei do cara do dread e alguém passou por mim dizendo alguma coisa que eu não consigo lembrar.

Voltei pelo outro lado da rua. Voltei e comprei uns dois livros. Numa barraca a vendedora me perguntou se eu era professor. Eu respondi que sim, mas não sabia se ela ia exigir algum documento, mas já tinha decidido mentir. Quando eu voltei pro parque  do Palácio do Catete cheguei perto de uma fonte e um café que tinha sido reformado. Lembrei de uma conversa sobre a França e Paris e como aquilo tudo não me pertencia. Lembrei de ter ficado sentado no banco de madeira verde e lembrei de quando eu acreditei e joguei fichas e moedas nas fontes e na esperança vermelha, com as grávidas e as crianças passando.

Peguei o metrô e entrei na galeria mais próxima. Sentei e fiquei lendo – mentira – acabei sozinho, olhando pra quem passava e o que acontecia. A hora não chegava e eu resolvi comprar café. Na volta um sujeito que tinha uns 40 anos pediu café pra mim, pois não tinha almoçado e provavelmente nem vendido bala nenhuma. Eu dei metade do café pro cara e andei  me sentindo o pequeno-burguês mas burguês da tijuca, indo falar que tinha problemas que existiam mas não existiam. Me senti mais merda, quando lembrei que não almocei porque não quis pagar cinco reais a mais, enquanto o tio das balas não almoçou porque não tinha cinco reais.

Fiquei na galeria observando o mundo, mas quase não passou ninguém. Chegou um cara de jaleco branco e eu julguei que ele era médico. Depois veio um cara de blaser e roupa de médico e eu julguei que ele era médico. A galeria tava vazia e eu julguei que era a tal galeria fantasma que todo mundo da Tijuca comentava. O cemitério das lojas.

Aí vi que só frequentavam a galeria gente que tava doente. O único restaurante tava falido e fechado. Só me restou falar muito e ir embora. Fui andando pra casa (economizei uma passagem). E não, nem a terapia, nem o Catete, nem os livros, nem ficar sem almoçar adiantou muito. Eu eu só me lembrava da bola azul na cabeça daquela mulher e acho que foi isso que fez eu ter pensado sobre a loucura que é tentar ser você mesmo pelo menos uma sexta-feira da vida. E acho que foi, exatamente isso, que me fez brigar com o mundo todo naquele dia e ser mais eu de vez em quando, mesmo assim, desmembrado e fragmentado pelas ruas sujas e pequeno-burguesas das minhas artérias e do Catete.

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A Pedra e a Carne – O primeiro dia

Rafael Vendetta

Não tinha ninguém.

Quando eu me sentia frágil, um ninguém, a fragilidade me esmagava como pedra moída na carne, e a fragilidade explodia, ou ia para uma caneca vermelha como se ela fosse dar respostas. Mas naqueles momentos sórdidos a vontade era apenas café. Não era nada demais. Eu protestava a toa.

Aquele tijolo pintado de argamassa, aquela tinta branca (fascista), aquele quarto e situação de merda e era hora de aproximar a fronte do mundo e dizer que eu ia moer o mundo pela manhã, mas era mentira, eu só ia dormir e me afastar, afastar e isto funcionaria nos primeiros segundos. Mas depois era o vazio. Depois nada mudava. Era o motim, a mentira nos jornais, o calor de 37 com sombra, a poesia, não, porra, não tinha nenhuma poesia e o silêncio. Em 1999 eu tinha tudo mas desperdicei minha chance. Eu tinha uma camisa listrada, um tênis velho. Eu tinha amigos, dor no fígado e nenhum piano nas costas. Eu podia ter feito alguma coisa, mas meus amigos só podiam sobreviver e eu segui o que tinha de seguir, e sinto-me honesto, por ter decidido não avançar.

O telefone (hoje) tocou e alguém gritou meu nome. Depois foi só tempo perdido. Palavras de tempo perdido. Menos tempo agora para mais tempo adiante. Tarefas. Era tempo perdido. Um murmurinho de fazer coisas mais pra frente e depois ganhar alguma coisa com essas coisas. Eu não entendia bem. Mas a lógica era perder tempo, para no futuro ter mais tempo e seguir com honestidade, dinheiro ou orgulho nas mãos. Eu não entendia muito, mas isso se aplicava a tudo, ao trabalho, a mudar o mundo, a sair e beber. Ninguém ligava para falar que podíamos sair sem compromisso pelo mundo, sem nos preocupar com o tempo adiante. Ninguém dizia, vamos moer a carne em algum lugar escondido do mundo. Um lugar sujo e feio, mas onde ninguém perde tempo para ganhar mais tempo adiante.

No fundo da cozinha alguém gritou. Eu ouvi pratos e copos quebrando. Mas não era nada. Eu custava acreditar, mas isso sempre acontecia. Era o gato que não existiu, a borboleta que voava, a campainha que não tocou e alguém me chamou, mas eu abri a porta e não tinha ninguém.

Um sofá

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Família fella-feelings

Rafael Vendetta

Deslocado e quem haveria de ser? O posto era meu e eu ocupei sem escândalo. Ninguém me colocou nessa posição pelas minhas crises de choro na festa do Tio Lauro, não, eu nunca chorei publicamente, isso é coisa dos filmes. Não, eu não quebrei pratos, não fui para a reabilitação (mas conheço gente que foi) e tampouco fugi com meia dúzia de mudas de roupa para a Alemanha oriental. Eu segui como de costume e meu maior atrevimento foi ser o que eu sou. De ir além do que era preciso, porque o que era preciso era ficar restrito ao que todo mundo achava que eu era. Depois disso, alguém percebeu e foi assim, que tudo começou, tudo, sem muito alarde.

É na segunda metade da vida que a gente aprende a negar, escolher, optar. Em algum momento eu resolvi escolher o que eu queria, mas dei o azar de ser o esquerdo da família. Todo mundo dá um azar no mundo, esse foi meu azar. De nascer esquerda ou esquerdo. E me lembro bem, pois bem, nunca se esquece quando se ganha a consciência de ser esquerdo. E foi numa nobre ocasião, onde a quadrilha de festa julina, feita por demagogas do jardim de infância, pretendia me cultivar como um cacto, até que resolvi estragar a expectativa feliz da tia Cláudia e resolvi não dançar. Não dançar tia Cláudia. Não dançar. Estraguei tudo tia Cláudia. E só tinha seis anos. E todos e todas dançando e bailando, enquanto a tia Cláudia quebrava um lápis com a força dos dedos e da tradição e as demagogas formadas no amor às flores que ainda não desabrocharam, me deixaram lá, assistindo tudo, impassível. Eu, heróico-esquerdo, jovem esquerdo, com apenas seis anos, sentado, de braços cruzados, olhando a festa da primavera, digo, a quadrilha, para lá e para cá, bailando como a Luftawaffe nos céus de Paris. Depois disso foi como se eu tivesse chamado o mundo para a briga.

1024px-August-Landmesser-Almanya-1936Eu esperava uma oposição irredutível. Esperava alguém gritar, apontar o dedo, me combater. Esperava ser deserdado, ter meu direito negado na divisão do pavê de final de ano, ou até mesmo, alguém fechar a cara quando eu entrasse com aquela blusa em homenagem aos pretos e pretas que derrotaram com armas na mão o regime colonial francês. Mas não.

O funcionamento interno seguiu outro caminho. Eles sorriam e apertavam minhas mãos. Eles me serviam bolo de baunilha e até lembravam de mim quando aquela reportagem na Tv a Cabo mostrava meia dúzia de esquerdos no Egito ou no Paquistão.

No primeiro jantar ninguém ligou: menino das letras! No segundo, nenhuma reclamação, “ele tem  opiniões diferentes” e no terceiro ou quarto reveillon eu já era parte do teatro (esse garoto é muito inteligente sempre frisavam), junto com o alface e as piadas recalcadas no fundo da sala. A ovelha contrariada tem seu lugar no presépio de fim de ano, ao lado do Papai Noel. Alguém até fingia uma polêmica, apesar de tudo não durar mais do que cinco ou sete minutos. Eles me serviam e até davam aquele tapa nas costas ensaiado. Eu também tinha meu lugar na mesa e quando a polêmica surgia, depois de cinco minutos, as oposições pacificavam-se com guaraná e fotos familiares. E passava-se a conversação monocórdica, com as cortinas, o sorriso dos cunhados perfeitos e os genros que agiam como os genros deveriam agir. Pois os genros bons eram os genros que agiam como os genros deveriam ser: magnifique. Fella-Feelings rapaz.

Sim, tudo acabava bem. Encantador. Esplêndido. Perfeito. Tudo alinhado, junto com os astros e os aniversários de junho, julho e agosto. Sim, tudo no caminho: filhos, faculdade, cortinas e meninos de um lado, meninas de outro. Tragam o molho rosê e a aspirinas do tio Joel. Que menino inteligente frisavam! Nossa, como é inteligente! Tia Cláudia, eu ainda estou aqui, mas não há mais lápis quebrados. Você agora pode sorrir e fingir alívio quando eu entrar. Você quer dizer tia, mas não consegue, a música está tocando, eu posso sentir. Eu só escuto os ruídos do telefone e  os atos falhos do intervalo do guaraná.

Que violência.

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* A foto é de um comício nazista. August Landmesser em destaque é o nosso herói.