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Fisioterapia literária

Para escrever é preciso desastres. Já falei isto uma vez mais, pois posso repetir a cada abismo. É só ter abismos.

Escrever é como andar de bicicleta: esquece-se. Não há rodinhas para a vida, nem abismos no caminho das bicicletas, mas angústias, há aos montes.

Eu procuro técnicas para escrever mas não me vem nenhuma no momento. A única que me recordo é pensar numa tragédia particular como um cateter, rumo ao estômago. Dói. Mas poesia e literatura tem de doer. Se não dói é melhor fazer palavras-cruzadas com as contas, o banco, o filho mais velho e a inspeção veicular.

Não sei mentir quando escrevo, só sei dizer. Um dia eu digo tudo. Um dia eu digo a você o que você merecia ouvir de verdade, mas que eu sempre enfeitei com literatura burguesa. Por enquanto eu repito: viver é abismo.  Por enquanto eu desisto de dizer o que você precisava ouvir. E olhe, tenho muito a dizer. Mas como eu uso rodinhas e o abismo está sob meus pés, vale sublinhar que por enquanto, a melhor coisa a se fazer é seguir e deixar um abismo te pegar como quem pega um pássaro no alçapão.

Eu tenho meus desastres, um dia você terá os seus, é assim que funciona baby.

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Quando tudo arrebenta e até a poesia é permitida

Amor não me traga para cima.

Há uma represa dentro de nós.

Veja, as paredes estão arrebentando. E nós, estamos correndo, correndo, correndo, antes que a água nos pegue.

A cachoeira, fujamos da cachoeira.

Vamos para um lugar alto. Onde podemos brincar de deus.

Vamos correr. Olhe os paralelepípedos amarelos. Olhe todos eles. Jogue os farelos. Vamos fazer nossa trilha e voltar, voltar, voltar.

Circulemos a árvore grande. Há uma entraga velha e oca. Todos podem entrar.

Meu coração e o seu, guardado numa caixinha. Guardemos no pinheiro.

Vamos correr.

Vamos voltar, e nos atirar do alto do penhasco, junto com a água corrente.

Vamos amor.

Vamos ser cachoeira.

Quando tudo está bagunçado

Quando minha cabeça está bagunçada.

Minha casa fica bagunçada.

Quando minha casa fica bagunçada.

Minha cabeça fica bagunçada.

Aprendi a ficar com a casa bagunçada quando minha cabeça fica bagunçada.

Aprendi a ficar com a cabeça bagunçada quando minha casa fica bagunçada.

Eu me bagunço, a casa se bagunça.

A casa se bagunça, eu me bagunço.

Eu bagunço a casa,  a casa me bagunça.

A casa me bagunça, eu bagunço a casa.

Mas que violência.

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