Arquivo da categoria: prosa poética

O amor se constrói ou é construído?

 Rafael Vendetta

Parecia-nos que nosso momento já tinha passado. E por mais que nos esforçássemos para tentar repetir aquele momento mágico de quando nos conhecemos e de quando nossos olhos brilhavam, parecia impossível viver e sentir a mesma coisa. Fazia anos que não nos encontrávamos. Já estávamos demasiadamente duros, como um casco de navio cheio de cracas emocionais, mas cujo capitão, ainda crê que o navio é novo e as águas são tranquilas. Mas vivíamos numa tormenta, apesar de aparentar tranquilidade. O mundo tinha pisado em cima de nós.

A vontade era reviver um tempo que já passou, mas nada voltava do mesmo modo e nenhum de nós podia dizer que havia o mesmo jeito de amar, chorar, viver.

Eu chorei quando ela disse que sempre se lembraria de mim, porque percebi numa análise rápida de discurso que ela falava no pretérito. Eu já tinha passado. E eu a entendia. Pois quando a coisa passa, vamos arquitetando internamente as nossas respostas do porquê não ter dado certo. Vamos tecendo fio por fio, até formarmos algo que cubra aquele abismo aberto de mais uma decepção. É um mecanismo de proteção. Mas tal proteção é frágil. É um vestido que tem a concretude de uma obstinação, mas obstinações vem e vão e podem se romper quando a gente encontra a vontade vermelha assim, num domingo, num sábado, numa sexta, ou num dia de semana por acaso. E aí o vestido vai se rompendo, vai ficando frágil, enferruja ou apodrece. E os abismos passam a ser cobertos com band-aids. E passa a doer a beça. Dói demais.

É aí que uma parte de você, uma parte verde, pensa em recomeçar. Em acreditar de novo e de novo.

Ela continuava a falar, minha parte verde resistia e quando subitamente deixei meu outono sair, as lágrimas rolaram até encontrá-la em meus braços. Depois o que se deu foi como um mecanismo interno de negação do absurdo: tiramos parte da roupa – como se estivéssemos de férias na praia (do nosso passado) – ficamos abraçados dançando, tomando cerveja e beijando um ao outro como se aquele passado tão bonito pudesse voltar. Ela disse que eu a atraía. Eu disse que ela estava linda.

Esquecemos tudo. Éramos apenas duas pessoas.

Liguei o abajour vermelho e ela tocou minhas costas com a ponta dos dedos ; eu fazia uma confusão dos diabos e esperava um sinal da vida dizendo: “fique tranquilo que sua hora chegou”. Mas nada chegava, pois as coisas tinham nome mas não davam ordens, apenas chegavam e chegavam sem pedir licença ao mundo e sem ao menos dizer com que propósito vieram. Alguns achavam que tudo podia vir depois de algum mecanismo desconhecido. Imaginavam que o amor chegava depois de sete ou oito fracassos (algumas pessoas contavam em números pares, outras em números ímpares, primos, cada um tinha sua regra). Existiam aquelas que acreditavam que seria uma viagem, ou o fim de um ciclo que resolveria tudo, mas para pessoas como nós, estrangeiros emocionais, os ciclos eram sempre repetitivos, nunca acabavam: esse era nosso tormento. O que dizer daquela gente que pensava que a sua vez tinha chegado por que as coincidências coincidiam e buscavam nas revistas, na música, nos rodapés das conversas ou na forma de fazer alguma coisa, um sentido que dissesse: essa é a pessoa certa? E havia? Uns pensavam de modo mais caótico: era um sentido que parecia não ter sentido, mas tinha. “Amanhã eu me formarei: terei meu amor? Hoje fiz 29 anos: terei meu amor? Mudei de alimentação, religião, de hábito ou de vida: terei meu amor? Hoje acordei desse modo, sonhei desse jeito, pensei daquela forma: terei meu amor?”.

Mas para as estrangeiras e os estrangeiros o sentido não era dado de antemão. E eu não fazia ideia de como iria organizar aquilo tudo, jogado, como um quebra-cabeças emocional sobre a mesa. Invejava quem via sentido em tudo. Quem pegava o sentido já construído, como se pega uma fruta no pé e dizia: agarro isso com toda a minha vontade, esse é meu destino afetivo. No meu caso não. Achava sempre que o sentido era construído, como um jogo de armar ou um lego emocional. O problema é que as peças raramente se encaixavam e eu não sabia geralmente, nem onde tinha guardado as peças. Não conseguia construir nenhum amor e ficava sofrendo o atrito entre construir um ou esperar ser construído por ele.

E mesmo assim, dormímos abraçados e esquecemos parte do mundo. Isso não impedia a vida de passar. As perguntas ficavam sem respostas. E no outro dia, assim, quando ela se fora, eu vivia os dias como um pedaço cinza oscilando entre o verde o vermelho. Esperava alguma coisa decidir por mim. Mas nada nem ninguém decidia. Sempre fora assim. Eu tinha todas as contradições do mundo. E ao fim do dia eu não pensava, mas um pedaço de mim dizia, como ferrugem corroendo meus dentes: O amor se constrói ou é construído?

esperava-alguma-coisa-decidir-por-mim.

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Há dias que são inverno

Rafael Vendetta

Há dias que são inverno. Mas se eu disser isso, com todas as letras, sem disfarçar, as pessoas vão aparecer, vão me ligar, vão me encontrar e fazer aquele olhar de pena e isso, eu sinceramente não quero.

Quem quer isso, não sabe realmente viver um inverno. Quem deseja uma compaixão de isopor não é digno ou digna do inverno que se tem. Que vá viver com os medos medianos. Que vá fazer café no fim da tarde, mas por favor, não force um encontro.

Talvez os que resolvam escutar possam pedir para vestir-se de anjos platinados. Anjos que despertam uma vontade imensa de rir e dizer: burlesco. Mas é certo: vão logo embora e desaparecer. Esperam a vez de falar e somem, pois é essa a receita do cotidiano.

Quando se sentirem bem, ou melhor, quando eu me sentir bem, será a vez delas de se permitir sentirem-se “deprimidas”; e aí retribuirei a gentileza, com alguma ar de gratidão e um tacape emocional escondido debaixo do travesseiro. E o mundo seguirá, com a fatura passando de um lado ao outro. Algum dia, alguém irá cobrar e aí é que a coisa começa a ficar esquisita.

Se eu insistir ao dizer: “nada mudou, continuo no meu inverno” elas vão me mandar procurar um terapeuta. Vão jogar com as pílulas prontas e os comentários-diamante. Falarão: faça-amigos-se-divirta-vá-ler-um-livro-exercite-se-chore-procure-amigos-durma-mais-vá-no-cinema-você-é-muito-solitário-que-tal-comer-algo. 

Isso tudo é muito deprimente. Me deixe com meu inverno. Eu colocarei alguma coisa no seu lugar. Eu alimentarei meu inverno com cerveja e o vento batendo no rosto, no fim da tarde de domingo.

Eu poderia dizer aos que insistem em curar meu inverno: já fiz isso tudo, não resolveu. Não me imponham essas cores, chega de distrações. Vamos parar de flanquear e ir direto ao ponto. Parem de se evitar. Vocês querem resolver meu inverno, pois temem que o seu verão acabe.

Amanhã não estarei melancólico. Talvez semana que vem tudo passe. Ou mês que vem. Ou pode ser como no ano retrasado, em que larguei a melancolia dentro de um ônibus, depois de oito meses brincando de jogos de armar, pude respirar e olhar ao sol, quase como na primeira vez.

Foi como nascer de novo. Eu sentia que podia andar com aquele calor. Mas era um mormaço que logo passou e eu voltei ao mundo, com o ar de gratidão. Agora falemos a verdade. Quem vive sem invernos?

Chega de mentir. A diferença é que eu resolvi falar sobre isso. Mas não quero olhar de pena. Eu quero apenas que vocês vivam seus invernos sem autopiedade.  É preciso aceitar o que se faz.

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Éprecisoaceitarnossosinvernos

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Quando ele achou que conheceu a ruiva

Rafael Vendetta

Eu saí sem rumo, andei a esmo, e finalmente encontrei um bar.

Mas não qualquer bar. Eu sentia que aquelas paredes de tijolos cinzas iriam me fazer esquecer o chute que eu tinha tomado em Alcabar. Aquilo não fazia mais sentido. Eu já tinha tomado outros chutes. Sabia reagir. Mas tem uma hora que a gente baixa a guarda e foi assim que eu fui golpeado sem perceber. Ela me apresentou a família e me olhava de um jeito que parecia que iria me amar no futuro; mas eu errei. Era apenas o jeito de alguém. E o jeito de alguém não se decifra, se aceita.

Eu entrei e você estava lá. Você tinha maquiagem no rosto. Estava mais velha. Mas eu não me lembrava de você mais nova e isso foi maravilhoso. Você usava um batom vermelho e tinha um bloco de papel na mão. Você parecia não se importar com aquela noite, apesar dela ser a noite mais importante dos meus últimos dias. Você aparentava desprezo e foi esse ar de descarte que me fez entrar.

Eu perguntei se o bar estava fechando. Meu francês era ruim e você ficou irritada com aquela pergunta, porque parecia óbvio, mas não era óbvio, para mim, um estrangeiro, que mal conhecia o ordinário, quiçá o supreendente. Eu sentei perto do balcão e tomei cerveja rubia. Estava vazio e eu achei que iria me deprimir com aqueles vinis velhos.

Eu cansei daquilo tudo rapidamente. Por um momento achei que iria me vencer, abrir a porta e sumir, deprimido, mas eu mudei de ideia e me aproximei de você. Eu puxei assunto sobre como ser um estrangeiro era difícil naquela cidade de luzes coloridas. Era papo furado, mas você aceitou e sorriu com o canto da boca.

Aquele sorriso iluminou minha noite cinza.

Você me pediu para eu esperar, porque você tinha de servir a outra mesa. E eu tirei dos bolsos um papel com uma poesia que eu tinha anotado no final da noite retrasada, mas quando você chegou eu guardei, porque não queria mostrar fraqueza.

A gente trocou olhares e eu esqueci todo aquele mundo maluco, onde a gente viaja sem saber bem porque ou por qual motivo e ao mesmo tempo recebe uns golpes do destino que pegam a gente no contra-pé da esquina. Como os golpes que eu recebi na semana passada e ainda assim fazia como o kung fu, ou fingia que não doeu ou revidava, que era o que eu sabia fazer (muito mal).

Você andou de um lado para o outro e o bar foi formigando, com gente saindo e entrando, até que às 03h tudo foi ficando devagar. Você disse para eu esperar e sumiu. Eu acreditei que você voltaria e fiquei com medo de tudo dar errado, pois era comum eu pensar que as coisas davam errado na minha vida. E um cara que trabalhava no balcão deve ter percebido isso, pois ele voltou e me disse que iria fechar. E eu achei aquele cara, o rosto do mensageiro da morte. Não sei porque pensei nisso. Mas eu pensei: porra esse cara vai fuder meu dia. Mas depois me bateu a sensação de que na verdade ele estava no ritmo da vida ordinária e haveria um dia pra ele, bem especial, que ele estaria no meu lugar.

Ele continuou a me empurrar pra fora e eu resolvi sair, mas decidi esperar lá, ainda com minhas paranóias guardadas no bolso, até que tu saiu, com teu casaco vermelho e tudo acabou. Eu percebi que o cara não era o mensageiro da morte, era só um cara, querendo descansar e dizendo pra mim que amanhã teria The Smiths e que eu deveria voltar pra minha espelunca de quarto, escrever, tomar vinho e dormir.

– Vamos sair?

 -Pra onde, perguntei.

Talvez para lá, tu apontou.

Andamos com cheiro de sabão-maduro e paramos num bar, perto de um lugar que eu lembro o nome mas não quero dizer. Chegamos lá e entramos. Era uma espelunca, com mesas de madeira com toalhas vermelhas mas tinha vinho barato, E aí tomamos aquele vinho barato e eu pensei em te beijar, mas falamos de tudo antes de eu pensar em te beijar de verdade: de psicoterapia, de júlio verne, de como o Chile era diferente, de como a vida de garçonete era difícil, da crise econômica e dos cornópios de Cortázar. Depois saímos e estava muito frio (para mim). E de repente comecei a pensar que talvez tudo aquilo fosse acabar e não daria certo (eu sempre pensava isso).

Você foi andando e ainda tínhamos a garrafa de vinho nas mãos. Estava muito frio, tu me aquecia, mas eu não pensei em nenhum momento em agir, pois eu queria que agíssemos juntos. Andamos e tu ria do meu frio. Falava: – Respira mais fundo, respira. E ali eu achei que ia te beijar, porque eu tinha a imaginação de poeta. Mas não aconteceu.

De repente paramos numa banca de jornal e olhamos para aquele monumento iluminado. Eu voltei a colocar as mãos nos bolsos. E me lembrei do anjo da morte mais uma vez. Aí tu falou que iria embora. Eu disse que tudo bem. Mas aí tu voltou e me beijou.

Tu me perguntou se eu queria ir pra tua casa. Eu disse que seria ótimo, mas que eu tinha tomado um chute recentemente e que eu não me sentiria na obrigação de nada. Foi difícil dizer isso, pois além da minha hesitação, o idioma não ajudou. E tu começou a me esgrimar e eu caí no teu jogo de armar. E tu me esgrimou tanto, que eu, com meu francês precário, não conseguia explicar o porquê de um chute de alguém que eu conheci por três dias, fazia tanta importância a ponto de não conseguir lhe amar. Mas de fato era assim.

Aí tu riu e pediu um táxi (isso foi cruel).

Eu não saiba o que fazer. Achei que o melhor era ir embora. Tu abriu a porta do táxi. – Entra seu bobo.

Eu entrei. E ainda não acreditava, porque o anjo da morte tava ali, sentado ali do meu lado, dizendo que não era verdade. Tu mandou o taxista me deixar na minha espelunca e na tua casa. Eu achei que tinha terminado, aí conversamos durante cinco minutos quem iria para onde. E o taxista não riu, mas eu achei que ele riria, porque onde eu morava era assim que os taxistas se comportavam. Até que tu me beijou e eu entendi tudo. Tu mordeu meu lábio e ali tudo se apagou, o anjo sumiu e eu parei na tua casa. E esqueci tudo, o chute, o idioma e nossas línguas se entrelaçaram. E tu disse que achou bonitinho eu dizer que estava com medo, mas eu não planejei nada, eu apenas estava com medo mesmo (eu não sabia que isso era bonitinho).

Eu te amei ali naquele dia e nos deitamos nus, naquele frio, num quarto de madeira, com teu sapatos vermelhos e os meus azuis no chão, um par ao lado do outro. E nós, nos aquecendo (10 graus) sob uma janela estreita que dava para um lugar cheio de galpões. Tinha gente passando de um lado para o outro às 5h da manhã. Eu acendi um cigarro, te abracei e nos beijamos com força.

E do nosso encontro sobrou tudo. Ficou uma memória linda de uma noite ruiva. E estranhamente eu não esperei mais nada do outro dia, apesar de ter vivido aquilo com tanta intensidade, que me perguntei se aquilo tinha realmente acontecido. 

Fizemos isso durante 4 dias, num lindo eterno-retorno, até o dia que eu fui obrigado a sair. Eu não olhei pra trás. Não prometi nada. Tampouco disse que iria retornar. Peguei minha mala vermelha e segui. E de repente, todo o peso do passado se dissipou. E eu só conseguia olhar para frente.

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Quando acordamos

Rafael Vendetta

Acordamos e tocamos os nossos lábios. Depois passei a mão nos teus cabelos castanhos (sim, estavam castanhos) e você espreguiçou, deixando minha boca percorrer teu pescoço, enquanto os raios de sol entravam pela cortina.

A vizinha cantava ao lado e eu perguntei se era assim todos os dias. – Só quando ela está feliz. É isso ou o canário belga. Nos abraçamos por debaixo das cobertas e o tempo tinha parado. Eu não me importava com nenhum tipo de compromisso, meu compromisso era aquele abraço. Nossos olhos tinham se encontrado; tu com aqueles teus lindos olhos grandes e que me espreitavam até enxergando meus sonhos e que conseguiam me despir assim, de uma só vez e eu ali, costurando corações de papel imaginariamente. Recortando você devagar, enquanto encolhíamos nossos pés para dentro da coberta.

Tudo aquilo foi efêmero, mas preencheu de significado meus meses durante tempo o suficiente para eu saber que não era o budismo de banca de jornal, os combates de rua, a política internacional ou a teoria dos fractais que me davam sentido por aqueles dias, mas sim ruiva, te tocar, com a ponta dos meus dedos dançando pelas tuas costas, enquanto eu beijava teu corpo e segurava teus quadris com força. Tu colocava o café e eu esperava deitado, olhando para o teto, me escondendo do frio, mas pensando falsamente nas coisas que eu teria de fazer no dia. Era mentira. Eu fazia isso para acreditar que aquilo lá, aquele pedaço de mundo vermelho não era tão importante quanto eu achava, quando na verdade eu sabia que isso organizava muita coisa ao meu redor. Como uma núcleo de afeto que vai organizando as partidas de futebol, a ida na padaria, os sonhos, a vontade de sair e panfletar, os poemas escritos em algum banheiro ou aquela viagem no final do mês. Até o modo de fazer a mala, onde eu carregava como um estrangeiro meus afetos perdidos, voltava naquele dia.

Tu me perguntou se eu queria chá. Eu, embaixo do chuveiro, disse que não, só se fosse de hortelã. Tu voltava com a chícara nas mãos. Conversávamos sobre sobreviver, sobre qual era o melhor lugar para comprar hortelã, ríamos sobre alguma piada da noite anterior ou simplesmente fazíamos isso tudo ao mesmo tempo (embaralhados) enquanto eu mordiscava teu pescoço. Tu passava a mão na minha cabeça. Acordávamos para o mundo.

Era preciso golpear o cotidiano e a rotina cinza sem piedade. E fazíamos isso, exatamente quando esquecíamos da rotina e nos concentrávamos em nós. Era um segredo vermelho só nosso, que não era fácil de fazer, pois exigia dois espíritos livres. Isso era diferente de ter de acordar sozinho. Onde eu fazia café e só podia olhar para a chaleira, fumegando meus sonhos do dia anterior. Era aí que pensava na psicanálise. Que se dane a psicanálise.

Se eu tivesse um núcleo vermelho de afeto, não estaria ali, com dificuldades para decidir se tomava café ou hortelã, porque saberia de imediato que tu iria me perguntar isso e decidiríamos juntos.

Quando eu ia embora e era sempre no fim da manhã, eu fingia que as minhas urgências eram mais importantes que aquilo tudo: o toque das mãos, os beijos, os arranhões que deixavam pistas ou mesmo, aquele bilhete lindo, que escrevi para você e larguei em cima da cômoda: “o hortelã tem gosto dos teus beijos”. Mas não. Era preciso mudar tudo. Eu olhava aquele sofá cinza, minha velha estante de mogno e a sexta-feira dizia: hoje tem psicanálise. Os panfletos e textos deveriam cobrir os abismos, mas eles só grudavam na pele, enquanto o que eu desejava, era aquela rotina, cuidadosa, vermelha, precisa. Solta, efêmera, casual, mas linda nos detalhes.

Não era fácil acordar. Há um sonho vermelho que não me deixa dormir.

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Um Sonho Terrível

Rafael Vendetta

Que sonho terrível.

Eu andava por uma estrada cinza. Era outono. As folhas caíam. Folhas de várias cores, mas a cor que evidenciava meu coração era o amarelo. Eu andava pela estrada. A estrada estava vazia. Nenhum carro. Aquele asfalto negro, úmido e um vento frio (não tanto). Nada. O som: apenas dos pássaros, ao fundo, nada que me tirasse a concentração de andar.

Cheguei a ver um ou dois roedores. Lagartas, pedras com limo e um pardal, comendo alguma coisa, antes de perceber que eu estava ali, e então desapareceu. Foi então que eu percebi quanta energia eu apostei naquilo tudo. Em você ruiva, antes de você sumir. E mesmo assim, eu estava ali, querendo tomar café e sentar numa mesa de madeira confortável, esperando você entrar de repente naquele restaurante agradável de beira de estrada. Mas não.

Mentira. Alucinações e imaginação sempre acompanham a caminhada. Não era nada. Aquilo era só um desejo que virou pintura, que virou a descrição do que eu queria fazer, não do que era. Isso é uma tendência. O pardal só estava lá para comer e voar. 

Mas eu, eu, cheio de débitos com o futuro, já imaginava que o pássaro me mandou um recado. É assim ruiva. É assim que funciona. A gente quer encontrar sinais onde só há vida. E a vida é uma mó, é um moinho que esmaga o que passar adiante. A vida não manda recados. A vida é natureza. E a natureza não brinca de oráculo. Ela só se move, como um granito. Como eu, caminhando ali, naquela estrada, sem cigarros. 

Sentei pra descansar num banco de madeira velho, com algum mofo branco em um dos pés. Era um banco sem sentido, cheio de folhas mortas ao seu redor e que ficava perto de uma ponte. Quem iria querer sentar perto de uma ponte? Quem foi que construiu aquilo ruiva?

Eu sentei ali, estava úmido e eu não me importei. A mochila pesava, mas não tanto como você. Você pesava mais. Suas viagens, seus sorrisos, seu sumiço. Sim, isso pesava muito mais. Teu desprezo pesava mais do que a minha mochila e acredite, acredite, minha mochila pesa bastante. Foi nesse momento, de abrir e fechar a mochila, como se dali, fosse sair algo que me dissesse: “continue, acredite, você vai chegar lá”, que eu reivindiquei a minha dor do mundo. Eu reivindiquei toda dor e não adiantou muita coisa, para ninguém, pois não tinha ninguém ali. E só eu sei, só eu, ruiva, que aquilo fez todo sentido e eu tive de sentar e olhar para o céu. Eu larguei a mochila, catei uns pedaços de madeira (velhos), me agachei e não sei por que diabos, voltei, fechei a mochila e continuei a andar. No banco haviam nomes. Corações. Iniciais. Riscadas a canivete.

Que violência.

Eu me pus a andar. Segui, atravessei a ponte, como um granito. E andei, andei, andei. Andei demais, sem saber onde começava o ponto final. E no meio do caminho eu tropecei e caí. Foi uma queda feia. Eu ralei as mãos, os cotovelos e bati o joelho com força. Isso tudo por que tentei descer e encher meu cantil numa fonte. Fui pelo lugar errado.

Não tinha mais forças. Parei e desisti. Pensei em morrer ali, esquecido. Mas meu ferimento não era tão grave. 

Eu queria ficar ali. E os pássaros gritavam com mais força, mas pássaros não gritam. Eu estava deitado. Depois de uns 20 minutos (talvez mais, eu não sei bem), um som na estada. Era um carro. Eu escutei algo parar. Escutei som das portas. E eu lá, deitado, olhando para o céu. Que lindo céu. Escutei e levantei. Meus joelhos doíam. Escutei o carro acelerar novamente. Eu corri, mas não vi nada.

Continuei a seguir pela estrada. Foi ali que comecei a chorar. Amarrei meus cadarços. Peguei um pedaço de madeira e me apoiei. Os joelhos doíam. Eu segui. Caminhei sem olhar para cima.

Um carro deu ré. Eu parei. Era um carro azul, velho, mas inteiro. O carro atravessou a pista de ré. A porta do carona se abriu. Era você. Você disse: entra aqui. vem logo.

Palavras carinhosas. Era você. Eu te achava linda, mas ali só tive tempo para sentir dor no joelho e te achar pálida. Teu cabelo estava mais liso e foi assim, que eu caminhei até ti.

Você falou mais alguma coisa. Disse que eu teria de seguir. Disse que eu teria de seguir sozinho. Eu disse que entendi, mas era mentira. Eu dizia aquilo, pois não queria que você perdesse tempo comigo.

Nos despedimos e eu continuei a andar. E achei que ia chorar.

Mas meus joelhos não doíam mais. Eu segui, como a natureza, como um granito, um mó, rumo ao destino. Eu me pus a andar.

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naohaestrada

naohaestrada

Permita-se cansar

Rafael Vendetta

Cansei, mas quando digo isso quase ninguém entende. Uma parte acha que eu desisti.

E uma parte ainda mais maldosa (talvez minha, talvez de uma parte de quem me lê) apenas diz: “fraco, vou seguir e que fiquem para trás os desistentes”.

Mas deixa eu repetir, deixa eu repetir até para os super-humanos, que deixaram sua humanidade guardada no baú da cretinice heroica cheia de si mesma e saíram para esmagar e empilhar: cansar é diferente de desistir. Desistir é desistir. E eu nem acho que quem desista, desistiu de verdade, pois eu acredito no ser humano. Mas eu (fica a mensagem) não desisti. Acho até, que todos e todas tem o direito de desistir e de recomeçar. Mas esse é outro papo.

Cansar é diferente. Isso precisa ser dito. Cansar é uma arte. Nem todo mundo cansa do mesmo jeito. Eu sempre canso com uma xícara de chá e um nublado. Cada um cansa diferente, eu canso assim, e não vou te ensinar como você tem de cansar, mas eu te direi: permita-se cansar.

E quando eu digo que cansei, também não quero dizer: fugi.

Fugir é outra coisa. Fugir é diferente. Fugir é desistir de encarar. Desistimos quando aceitamos apanhar. E fugimos, quando não nos expomos para apanhar, jamais.

Cansar não. Cansar é saber quando e quanto estamos dispostos a bater e quando apanhar. Mas os neurastêmicos não entendem isso. Pois eles acham que viver é bater o tempo todo em ritmo industrial. Mas eles nunca saberão quanto estão dispostos a bater e a apanhar, pois agem como uma metalurgia e cansar, cansar é simplesmente uma arte artesanal. Quem quer apanhar, mesmo tornando suas arestas rígidas, trocou o coração por um carburador. E eu não tenho um carburador no peito e nem quero ter.

Não entendo gente que atropela cotidiano e a sensibilidade do mundo por um alto falante. É um preço alto (e errado) a se pagar. Definitivamente não entendo. Não sou nem pretendo ser, um sistema de combate

Vejo gente super-humana, que ama o mundo e trabalha por sua transformação, com tiques neuróticos e atropelos de fala ou super-absurdos recheando a sala  de estar. Mas aprendi, que neurastêmicos reunidos podem fazer um consenso virar mofo. Gente que gagueja no âmbito privado, mas passa um rolo compressor com a naturalidade de um caminhão. Não são todos, não serão maioria, mas vos digo: não amem o que ainda não construíram. Não amem o poder de uma possibilidade, sim, no fundo somos isso, possibilidades.

Não tenho as respostas (eu tateio como você) nem a culpa dos problemas do mundo. Não posso ter. E por que teríamos? Se é para agir prefiro que minha ação possa olhar nos meus olhos diante de um espelho e diga: chega, cansou. Pare tudo. Agora quero descer. Não dá pra seguir, pare, encontrei meus limites, não me massacre.

Não é seguindo que nos tornamos humanos, mas sim, cansando. Sim. Temos de cansar, temos de saber cansar, pois o que nos faz humano não é amando a humanidade em abstrato em detrimento do assassinato da nossa própria; o que nos faz humano é seguir, recuar, amar, mas sempre, agindo e cansando, com os olhos mirando o horizonte, mirando a utopia. O que nos dá consciência… é cansar.

Não somos polvos políticos, que agarram suavemente o mundo em seus tentáculos mecânicos e não desistem, até esmagar a humanidade em abstrato sendo corroída pelo líquido espesso de si próprio.

Não.

É preciso cansar. É preciso fugir, desistir e cansar para se fazer humano. Não estou fazendo uma apologia do que não se move. Percebam: apenas não quero mover com engrenagens no peito. Quero me mover como humano, sem engrenagens.

Não é fácil cansar. Há muitos juízes. Sei disso. Mas se não posso cansar não é minha revolução.

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cansarnosfazhumanasehumanos

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Teu jeito de lidar com o mundo

Rafael Vendetta

Você foi uma idiota, eu fui um idiota. Mas somos idiotas diferentes e com motivos distintos. Eu devia ter te falado que te amava, mas nunca disse. Sempre insinuei é verdade. Traduzi meu amor com meu corpo, minhas cartas (sim eu ainda enviava cartas), meus beijos e minha ilusão. Achei que você se comunicava da mesma forma que eu, mas eu estava errado.

Você tinha seu jeito próprio de lidar com a coisa. Eu me movia e pensei em comprar os livros do Neruda. Eu te dei os livros do Neruda. Confesso que não soou espontâneo, mas eu nunca fui tão espontâneo. Na hora me pareceu a melhor coisa a fazer . Achei bonitinho (e o fiz de novo, em menor grau, achando que funcionaria). Eu sempre reagia assim, falando o pouco, o necessário. Nunca fui tão longe. Mas minha ansiedade te amava. Você não percebeu? Eu te liguei tantas vezes. Eram tantos emails. Quando você ia tomar café longe de mim, eu me controlava e fingia-me liberto, mas eu estava lá, esperando você chegar. Dê-me um desconto. Eu não te vi mais. E na época nem falei tanto assim. Não sou do time dos obsessivos, pois você transpirava a tranquilidade dos amores justos.

Pense bem. Eu precisava fazer daquele jeito. Você não me viu mais. Não me ligou. Não me explicou. Não mandou nenhuma carta. Você também não tentou, diga a verdade.

E no meio de tudo, alguém passou de bicicleta, uma bicicleta cinza; eu não tinha cigarros no bolso, mas pensei em fumar. O café estava frio e eu segui, segui com os paralelepípedos emoldurando os corações inscritos no granito. Mas eu só tinha areia nas mãos e uma tarefa imprescindível a cumprir: mudar o mundo.

Então, o que eu tinha, o que eu tive? Eu tive um ou dois momentos de amar e eu joguei as fichas lá (não me julgue). Você tinha a certeza de si mesma. Tuas dúvidas não eram como as minhas. Minhas dúvidas eram profundas; eu tinha uma raiz que ligava meu coração com o compasso da vida.

E depois? O que aconteceu? Eu não sabia o que fazer com o que sobrou. Nunca fui bom em lidar com cacos. Meu problema é com o que sobrou. Não sei fazer mosaicos. Sei que não dá mais para existir ou voltar com a mandala, os livros do Neruda, com aquele encontro casual na fila do jantar. Sei que tudo passou e desmoronou. Desmoronou a ponto de sim, e aí tenho certeza, de que mesmo dando certo, algo terrível aconteceria (mentira, podíamos ter tentado, de verdade). Você se enjoaria. Talvez eu (duvido). Um de nós ia desistir (ia ser você, como sempre). Alguém ia viajar (ia ser você). Alguém ia falar que não daria certo pelo telefone ou pessoalmente (foi você). E no final você encontraria alguém, alguém para lhe suprir e eu viraria memória. Uma justa memória. Bonitinha e na embalagem mas inútil. Não serviria mais. Não serve mais. Mas foi bom para ti. Estou aí, nesse pedaço de mundo. Mesmo sem querer.

E como eu faria?

Eu buscaria outra coisa, mas não, eu só tive uma oportunidade. Desperdicei, desperdiçamos.

Eu fui um idiota. Não tentei tanto, mas esse era o meu jeito. Se eu tentasse demais ia dizer aos quatro ventos que tudo terminou por conta da minha insistência. Como eu não tentei, digo agora, que poderia ter tentado mais. É um paradoxo. No fundo, acho que tudo deu errado, pois era você, era você que tinha de decidir. E você, no momento decisivo fraquejou. Você tinha seu jeito de lidar com o mundo.

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life

desperdiçou

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Quando foi que você enxergou o cinza?

Rafael Vendetta

Vou te dizer como estou agora (interprete isso como uma mensagem). Vou te dizer como estou. Depois de algum tempo, andando de tênis, mochila e coragem vou te dizer. Depois de muito tempo eu resolvi viajar e voar. Eu voei por aí. E vou te dizer como foi.

Eu matei um pedaço de mim meu amor. Vou dizer como foi. Eu matei um pedaço meu e você estava lá. Foi com bisturi. Você não é culpada, ninguém é. Pois todas as cores tem cheiro de cinza. E você não estava lá quando isso aconteceu. Não tinha ninguém. Eu era o único.

Eu comecei a enxergar cinza e você só deu o último golpe. Que culpa você tinha? Você só completou. Você só fez o que todos esperavam. Ninguém imaginaria que eu, não sobreviveria ao cinza.

Mas eu sobrevivi.

Eu estou aqui. Eu pulei na água. Mas a água tem cor de afogamento. Eu estou aqui meu amor. E ninguém notou.

É hora  de viver e seguir; como você, que viajou e voou… Você me encontrou no último golpe. E só sei dizer que as letras me salvaram. Eu só queria dizer que você foi importante e ainda é.

Não sinto mais sua presença, eu sinto apenas, sua falta. Eu andei de mais. Vou te dizer como foi: foi assim. Foi assim, quando todos esperavam, que eu comecei a enxergar cinza. Foi quando eu imaginei que não sobreviveria ao cinza. Foi quanto eu te beijei. Porra. Todo  o resto é interpretação.

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tequeroperto

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Revide

Rafael Vendetta

A capacidade de não se importar. Aprendi cedo. Sim, eu não me importo com você. Você e suas opiniões venenosas. Você e sua brincadeira de bar homofóbica que me comeu metade do fígado e no fim das contas, resolvi chorar, mas você não viu. Você era um racista de merda, mas nem sabia.

Eu não ligo mais pra você; aquele seu passado sujo. Quando você, ria de mim, entrando na sala de aula assustado. Lembra? Eu carregava uma pasta feia, preta, e entrava – como você mesmo dizia – assustado, olhando todo mundo antes de sentar. Eu era uma aberração pra vocês. Eu não tinha o que vocês tinham. Eu não tinha glamour e a luta de classes era o tênis que a gente usava ou não usava. Eu me assustava porque você, vocês, vocês sua turminha de gente bem sucedida e feliz, que hoje declama aos filhos “paz para a classe média de quatro anos de idade” e caga aos sobrinhos, a importância de fazer o bem, fazia o que sempre fez: me fudia. Eu aprendi a ser fudido desde cedo. E sei que muita gente também aprendeu com a gargalhada estridente vindo de lá, do fundo da sala.

Agora olhe pra mim, sim olhe pra mim. Eu estou aqui fora fudendo gente como você. Eu aprendi com a vida. E sei que você tem medo de gente como eu, gente que não tem nada a perder, e vez ou outra, aparece na TV com a raiva nos dentes, com a ferrugem na vida, enquanto você diz: “que gente maluca, mãe, eles são terroristas, vândalos!!”

Mas pense bem. Foi você que me criou. Baderneiro, filho da puta, sim, aparentemente sou eu. Eu não sei, mas na minha vida atual, uma vidinha pequena, como o respeito que vocês tinham por mim, eu não fiz questão de ganhar nenhum troféu. Eu apenas cultivei a resiliência. Eu treinei pra sobreviver. E eu sobrevivi a vocês e sei fazer isso bem, muy bien.

E eu fiz isso, na sexta, na sétima, na oitava série, e depois mais um ou dois anos, até eu me cansar de vocês (depois descobri que vocês eram tigres de papel).

Eu te aviso parceiro. Eu sou mais difícil de matar que na oitava série, porque eu resolvi  sobreviver a tudo o que vocês me fizeram. Eu só cheguei até aqui, porque você souberam me pisar. Eu não sabia o que era capitalismo. Eu só conhecia vocês. Vocês davam as regras. Era assim que funcionava. Não havia capitalismo, havia vocês, pisando em tudo o que não gostavam. Esmagando as flores. E vocês não tinham poder mas mandavam naquela porra.

E hoje eu estou aqui. Sendo sombra e espelho.

E vocês fizeram tudo direitinho, direitinha. Vocês fizeram tudo bem, bem até demais. Com tatuagem e tudo, vocês aprenderam bem a agir como um moinho, que estalava tudo quando o sol nascia e se partia. Um pedaço de merda, um pedaço de merda no mundo, no meu mundo e seguiam, seguiam, seguiam até não poder mais, até me fuder. Podem rezar à vontade. Mas se um dia alguém chegar na cerquinha branca e no jardim com orquídeas, lembra de mim. Lembra bem. Lembra bem, quem foi que me fudeu. Porque tem gente como você(s), trabalhando a ritmo industrial.  Quando tiverem medo de que algo de mudou. E que as escolas não serão mais masmorras, lembrem-se de mim: eu trabalhei pra isso. Eu mereço parte do prêmio.

Enquanto isso eu estou nas ruas. E saiba parceiro. Eu não dou mais a outra face a tapa. Mas fique tranquilo, vou acertar o rosto do sistema, vocês sempre foram as franjas. Mas agora, agora meu amigo, é a hora do revide.

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A Pedra e a Carne – O Cotidiano

Rafael Vendetta

Quando eu disse que viver com o atrito entre os dentes e a realidade não era fácil, metade da sala riu (neuroticamente), a outra metade ficou em silêncio. Havia um mal estar no ar que não combinava com a decoração daquela firma. As paredes salmão, o café e os biscoitos na mesa. Tudo escondia a negação que ia explodir a qualquer hora. Podia ser o Joel entrando com uma metralhadora no setor de RH. Ou, a firma poderia sofrer o vandalismo do mercado financeiro na próxima primavera, pois uma declaração infeliz do subsecretário de assuntos estratégicos da ONU no Oriente Médio poria tudo a perder.

Outra opção eram os chineses, comprando mais ferro e coragem do que podiam. Mas tudo poderia seguir como sempre foi e algum dia, a verdade estouraria na cara daquela gente, no fim da tarde, ou no meio do almoço. Não faria diferença. Eu avisei uma ou duas vezes, mas o que mantinha aqueles elos da corrente unidos, era uma aposta perdida no futuro: tudo ia melhorar. “Aqui é temporário”, diziam. “Com a experiência adquirida aqui, posso concorrer a gerência no ano que vem”. Eu sempre dizia que não se devia esperar o que não se pode agarrar com os dedos, mas ninguém, ninguém me escutava. Eu dizia que era tudo areia fina, escorrendo nos dedos. E todos continuavam a andar em círculos até os feriados que antecediam o natal.

Mas no meio da tarde, um passarinho resolvia voar diferente e os outros resolviam segui-lo, por hobbie. Ou podia ser uma explosão emocional no fim da tarde, que colocaria combustível no meio da rua, até que centenas de pessoas indignadas, marchariam até a delegacia de polícia local, exigindo que os carniceiros saíssem do bairro.

Logo se via as chamas no fundo da avenida. E a beleza das vidraças quebradas contrastava com a harmonia do silêncio. No meio da tarde um beijo e uma greve.

A pedra e a carne se encontravam. Nas pedras voavam os sonhos. Na carne a utopia do desejo e a fuga do destino da máquina.

E o futuro?, perguntavam na saída do emprego.

O futuro eu não sei respondi, mas morrer com um escritório na cabeça e nos braços não é digno de alguém que não sabe onde começa a pedra e onde termina a carne.

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A Pedra e a Carne - cotidiano

A Pedra e a Carne – cotidiano